O Fim-de-Semana de Osterman (1983)

 

 

Título original – The Osterman Weekend

 

É o último filme de Sam Peckinpah.

Um dos mais “simples” e entretidos, mas bem profético dos nossos dias.

 

Um jornalista de Televisão é convencido por um agente da CIA que os seus amigos são agentes soviéticos e que são uma ameaça aos USA.

Num fim-de-semana de convívio, a suspeita e o medo levam à paranóia e à morte.

Thriller conspirativo sobre a caça a espiões, a vigilância, a manipulação da mente individual (e colectiva), da opinião assente em informação (no duelo verdade/mentira), o uso desta através dos media e o poder da imagem (como a devida edição permite uma leitura diferente da verdade e através de uma mentira criar uma nova verdade).

Resulta bem a sensação de medo e paranóia (a certa altura já ninguém – personagens e espectador – sabe o que é verdade e/ou mentira), toda a tensão de grupo (que se acredita ser por uma coisa, para se revelar ser por outra) e a forma como esta despoleta por razões banais.

O filme pede uma melhor organização narrativa sobre os porquês de tudo aquilo (era necessária uma maior clarificação na motivação do agente, da relação com o seu director, da decisão “executiva” final).

Há um excelente elenco em campo, todos com prestação correcta, com destaque para uns intensos Rutger Hauer e John Hurt.

Sam Peckinpah dirige com fidelidade ao seu estilo – muito uso de slow motion (principalmente nos momentos de violência), visão dúbia do mundo, bons e maus, sempre com ausência de heróis, muita proximidade aos rostos quando se está no dito weekend, devida sensação de cerco, medo e tensão (o que recorda o excelente e trepidante “Straw Dogs”).

Não é um Sam Peckinpah vintage ou finest, não tem a garra e intensidade narrativa e visual do melhor do autor de “The Wild Bunch”, mas o filme tem os seus momentos (a sensação de paranóia na casa, o momento em que protagonista e amigos/suspeitos se confrontam na cozinha e vêem-se observados, a surpresa da verdade – nos amigos e no agente -, o confronto final).

Onde o filme consegue poder e pertinência é na sua actualidade (os media e o ”bombardear” de informação, a vigilância em efeito “big brother” – seja na alegoria a “1984”, sejam os reality shows de hoje), o que o torna algo avant garde no seu tempo.

“The Osterman Weekend” antecipa a realidade actual da constante intromissão na casa alheia, do entusiasmo pelos reality shows, dos excessos dos media no bom/mau uso de (des)informação e pela forma como tudo isto tolda e manipula a mente/opinião de uma sociedade.

O final (o “discurso” do protagonista) acaba por ser profético a esse mesmo Hoje e o estado de muita coisa.

Não é a despedida que o “Poeta da Violência” deveria ter dado ao Cinema, mas consegue-se a momentos algum punch como filme, dentro da obra do cineasta e da “mensagem”.

“The Osterman Weekend” não tem edição portuguesa. Existe noutros mercados, a bom preço. Procure-se uma edição especial recente, que tanto conta bons extras (comentário e documentário), como com o Director`s Cut.

O Theatrical Cut é mais fluido em termos de ritmo e de facilitismos ao entretenimento e compreensão do espectador.

O Director`s Cut é mais confuso e estranho, com Peckinpah a acentuar mais o caos mental do agente da CIA, permitindo-se aqui e ali alguma “sátira” aos eventos e “moral” da trama, criando cenas que fazem um melhor desenvolvimento dos personagens, dando ao final um ritmo mais complexo e elaborado.

Realizador: Sam Peckinpah

Argumentistas: Ian Masters, Alan Sharp, a partir do romance de Robert Ludlum (“The Osterman Weekend”)

Elenco: Rutger Hauer, John Hurt, Craig T. Nelson, Dennis Hopper, Chris Sarandon, Meg Foster, Helen Shaver, Cassie Yates, Sandy McPeak, Christopher Starr, Burt Lancaster

 

Trailer

 

Clips

 

O Main Theme de Lalo Schifrin

 

Making of

 

Orçamento – 6.5 milhões de Dólares

Bilheteira – 6.4 milhões de Dólares

 

“Prémio Especial do Júri”, no Festival de Cognac 1984.

Theatrical Cut – 103 minutos

Director’s Cut – 116 minutos

 

Era a primeira adaptação cinematográfica de um romance de Robert Ludlum. Já se tinha dado uma ao audiovisual, mas foi em Televisão – “The Rhinemann Exchange” (1977). Seguir-se-iam “The Holcroft Covenant” (1985, em Cinema) e “The Bourne Identity” (1988, em Televisão), bem como a saga “Jason Bourne” (“Identity”, “ Supremacy” e “Ultimatum” – ainda que sendo adaptações mais livres).

É o mais curto romance de Robert Ludlum.

 

William Castle (mestre do terror) tinha os direitos cinematográficos do romance de Ludlum. Mas o escritor estava algo relutante em relação a Castle, pois não o considerava com o estofo adequado.

Numa primeira fase de desenvolvimento, nos 70s, Dalton Trumbo era o argumentista.

Charlton Heston disse que foi considerado como protagonista, quando o projecto se movia nos 70s.

 

A dupla de produtores Peter S. Davis e William N. Panzer viu no filme uma oportunidade de sair dos filmes B que tinham andado a produzir durante anos.

Ian Masters tratou da componente narrativa ligada à CIA, Alan Sharp tratou dos diálogos e do desenvolvimento dos personagens.

Sharp não gostou do argumento que escreveu.

Muitos estúdios não queriam trabalhar com Sam Peckinpah. Davis e Panzer arriscam com o cineasta devido ao seu prestígio.

Peckinpah detestava o romance de Ludlum e o argumento final. Mas aceitou o trabalho para voltar a ter alguma visibilidade na indústria.

Peckinpah pediu aos produtores para fazer alterações ao argumento. Os produtores aceitaram, mas depois de verem quais a alterações propostas, mudaram de ideias.

Ludlum ofereceu-se para fazer modificações e melhorias no argumento, mas nada conseguiu devido aos conflitos criativos entre produtores e cineasta.

 

Peckinpah viu semelhanças com “Straw Dogs” (1971) – ambos envolvem um cerco/ataque a uma casa e em ambos surgem animais mortos em locais da casa.

Peckinpah volta ao mundo dos espiões, depois de “The Killer Elite” (1975).

Don Siegel, amigo de Peckinpah, recomendou Lalo Schifrin para a música. Peckinpah tinha sido o second unit director para Siegel, em “Jinxed!” (1982). Já se tinham encontrado em “Invasion of the Body Snatchers” (1956, também de Siegel).

Peckinpah queria trabalhar com actores com quem já tinha trabalhado (James Coburn chegou a ser ponderado). Os produtores recusaram.

Reencontro entre Cassie Yates e Sam Peckinpah, depois de “Convoy” (1978).

Quase todo o elenco cobrou salários baixos, só pelo gosto em trabalhar com Peckinpah.

 

As filmagens ocuparam 54 dias.

Craig T. Nelson tinha pouca experiência em Cinema e sentiu-se nervoso nas cenas com John Hurt e Rutger Hauer.

Peckinpah tinha filmado algumas cenas que ele considerou como satíricas. Todas ficaram retiradas do Theatrical Cut.

Peckinpah já estava muito doente durante as filmagens. Fazia muitas pausas para descansar e dormir, mas conseguiu completar a produção.

No final das filmagens, cineasta e produtores mal se falavam.

É o primeiro personagem americano num filme americano interpretado por Hauer.

O bigode de Nelson é falso. Peckinpah não gostou de tal e passou as filmagens a chatear o actor sobre tal.

Meg Foster chegou a magoar Helen Shaver numa cena, batendo-lhe com força no maxilar.

A esposa de Chris Sarandon estava grávida durante as filmagens. Sarandon usou tal expectativa para criar tensão no seu personagem.

Christopher Starr é filho de Meg Foster e ambos interpretam filho e mãe. Sam Peckinpah trabalhou com o pai dele, Ron Starr, em “Ride The High Country” (1962, o segundo filme do cineasta).

A casa de Osterman é a antiga casa de Robert Taylor.

Cameo de Buddy Joe Hooker (o stunt coordinator) – um dos raptores.

Schifrin chegou a ir ter com um acamado Peckinpah para discutirem quais as cenas que deveriam ter música.

Peckinpah foi despedido quando se recusou a reeditar o filme, após um primeiro screening test, em Fevereiro de 1983. Os produtores tomaram conta da montagem. Muitas das alterações estão no início e no fim do filme (a fluidez das cenas) e a remoção das cenas que Peckinpah considerava como cómicas ou satíricas.

É um dos poucos filmes onde Sam Peckinpah foi despedido. Os outros foram “Convoy” (1978) e “Ride The High Country” (1962).

 

No mesmo ano surge um outro filme sobre um encontro de amigos, num fim-de-semana – “The Big Chill (1983, de Lawrence Kasdan), mas este é de teor meramente dramático.

John Hurt faz, seguidamente, dois filmes sobre vigilância alheia – este e “1984” (1984).

O filme é dedicado a Helmut Dantine.

Sam Peckinpah queria fazer um western depois deste filme.

 

O filme teve um sucesso escasso nos USA, mas teve boa carreira na Europa e no mercado doméstico.

As reacções da crítica não foram boas.

A Anchor Bay Entertainment editou uma edição especial do filme, com um comentário elucidativo, um documentário detalhado e o director`s cut (mas de fraco master, pois era o único existente) do filme, bem como o theatrical cut.

Em 2012 falou-se em Remake. Mas ainda nada avançou nem há nomes indicados.

 

Sobre Robert Ludlum:

http://www.robert-ludlum.com/

https://www.bookseriesinorder.com/robert-ludlum/

https://www.goodreads.com/author/show/5293.Robert_Ludlum

https://www.fantasticfiction.com/l/robert-ludlum/

 

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