Le Deuxième Souffle

Le Deuxième Souffle - Lino & Daniel

E eis a descoberta de mais duas preciosidade do Cinema, nos meus “passeios” cinéfilos.

O Polar ao seu melhor, com dois fabulosos exemplos.

Le Deuxiéme Souffle – O Segundo Fôlego (1966)

Le Deuxième Souffle - 1966 - Poster 1

“Gu” escapa da prisão. Reencontrado com antigos compinchas e com a sua eterna chama, Gu é contratado para uma enorme golpada. No seu encalço está o Comissário Blot. Mais que um conflito entre dois homens nos lados opostos da lei, todos os eventos que se vão desenrolar vão levar ambos a confrontarem a ética particular de cada um face a um meio onde tal é apenas uma palavra.

 

Jean-Pierre Melville é considerado (correctamente) como o Pai da Nouvelle Vague. Mas é, acima de tudo, Le Maitre du Polar. Este género é exclusivo do cinema francês (pode-se dizer que é o equivalente do Film Noir americano – embora tal expressão tenha sido criada pelos analistas cinéfilos franceses – para o cinema francês), mas Melville ficou com a paternidade total (“Le Samourai”, “Le Cercle Rouge”, “Le Doulos”).

Fiel ao estilo que sempre tratou com mestria, Melville dirige com “lentidão”, frieza, distância, mas um olhar clínico, cirúrgico e detalhado sobre os meandros do crime (desde os ambientes, às planificações, execuções e consequências). Mas também sempre com uma forte presença da psicologia e moralidade dos protagonistas, homens com fortes convicções éticas em permanente confronto com meios e tempos onde tal é desprezado em pró da ganância e traição.

Como sempre em Melville, presença de uma violência seca, mas brutal, impecavelmente filmada (vejam-se as confrontações finais).

Melville nunca faz comentários nem moralismos sobre o que filma, mas deixa considerações ao espectador face à atitude de alguns personagens (veja-se o final).

Fantástico Lino Ventura (com toda aquele dureza cheia de classe, que só ele sabia criar) face-a-face a um estupendo Paul Meurisse.

Obra-prima.

Embora (ligeiramente) “inferior” a “Le Samourai” e “Le Cercle Rouge” (este é ainda, e sempre, a obra máxima de Melville).

 

Melville tentou fazer “ Le Deuxième Souffle” dois anos antes.

Baseado no romance “Un Règlement de Comptes”, de José Giovanni. Giovanni é um importante escritor de romances noir e foi adaptado ao cinema por várias vezes. Giovanni também chegou a realizar filmes.

 

Trailer

 

 

Le Deuxiéme Souffle – O Segundo Fôlego (2007)

Le Deuxieme Souffle - 2007 - Poster 1

Remakes não são exclusivos de Hollywood. O cinema francês também usa, algumas vezes, tal “técnica”.

Desta vez, o clássico de Melville é alvo de uma modernização por parte de Alain Corneau, um veterano e mestre do Polar (“Police Python 357”, “Le Choix des Armes”).

A história é praticamente igual. Estamos nos anos 60. Gu Linda sai da prisão e procura sossego na companhia da sua amada Manouche. O convite a uma grande golpada parece irresistível para as suas capacidades. A perseguição do Comissário Blot, polícia da velha guarda, e uma série de traições dos seus cúmplices, vão levar Gu a uma confrontação derradeira, principalmente pela sua honra.

 

Corneau tem consciência que é impossível fazer melhor que Melville. Por isso, inteligentemente, segue uma abordagem (visual e emocional) diferente.

Corneau filma a cores e carrega na saturação de algumas cores primárias (amarelo, vermelho, verde), assemelhando-se ao tom cromático de alguma bd, dando ao filme uma estética única. A violência é mais explícita (o original era muito contido, ainda que intenso), mas nunca cai no extremo e no mau gosto, graças a uma estilização que recorda a forma como ela é encenada no cinema oriental (não é difícil verem-se influências de John Woo e Johnnie To – “por acaso”, dois cineastas ligados à violência e ao mundo do crime, cuja divulgação internacional muito foi ajudada pelos circuitos cinéfilos franceses) até mesmo a alguns momentos do cinema de Scorsese. Ao tom frio do filme original, Corneau opõe com um romantismo algo terminal.

Daniel Auteil está muito competente (mas sem aquela classe de duro que tinha Lino Ventura), mostrando-nos um Gu violento, cansado, mas íntegro. Eric Cantona é uma surpresa na sua viril lealdade. Michel Blanc muito humano como Comissário. Cativante (como sempre) está uma esbeltíssima Monica Bellucci (loira – e que fatal que ela fica), intensa na sua devoção sentimental.

Le Deuxieme Souffle - 2007 - Image 4

Outra obra-prima.

“Gérard ao Desespero Feminino” (Monica Bellucci), nos Gérard du Cinema 2008.

“Melhor Filme” e “Melhor Actriz” (Monica Bellucci), nos Brutus 2008.

 

Alain Corneau conheceu José Giovanni. Falaram frequentemente do filme de Melville e Giovanni sempre achou que o dito título não era um grande filme, devido ao tom frio da parte emocional e sentimental do argumento. Há mais de 30 anos que Corneau ambicionava fazer este filme.

Corneau procurou enfatizar algumas áreas existentes no livro que foram esquecidas no filme de Melville (a carga romântica na relação Gu-Manouche e a mentalidade do Comissário Blot).

Giovanni foi sempre favorável à escolha de Auteuil. Curiosamente, e apesar de serem amigos, Giovanni nunca concordou com a escolha de Lino Ventura para Gu, pois considerava-o demasiado duro.

Monica Bellucci decidiu pintar o seu cabelo loiro para ter um visual mais adequado a um ambiente de gangsters.

 

Trailer

 

Os dois filmes são inéditos (a sério??? que “surpresa”!!!) no mercado doméstico português. O filme de Melville ainda chegou às nossas salas. O de Corneau não teve direito a esse “luxo”.

 

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