Hannibal

Hannibal - TV Series - Poster 1

É uma série televisiva que me traz aqui, mas é derivativa (mais ou menos) de um filme.

“Hannibal” desenvolve (com muitas possíveis variações) os eventos que são descritos num par de conversas no filme “Manhunter” (do qual já aqui falei quando da estreia da série) e no romance “Red Dragon”.

A série apresenta-nos Will Graham, um psycho killer profiler muito especial – Graham consegue recriar todos os eventos que ocorreram numa crime scene e entrar na mente de um psicopata assassino. Por isso, o FBI recorre a ele para identificar um serial killer que anda à solta. Tal leva-o a andar sempre no limiar da loucura, em busca da fuga para a racionalidade e incapaz de descortinar onde é o sonho e a realidade. Para o ajudar e controlar, o FBI põe-no em parceria com o Dr. Hannibal Lecter, um reputado psiquiatra. A parceria dá resultado (muitos assassinos são capturados devido à joint venture de talentos), mas Graham fica de tal modo mentalmente perturbado, devido às atrocidades que descobre e combate, que questiona mesmo a sua sanidade e até que ponto não será ele também um assassino e autor de alguns dos crimes que investigou. Paralelamente, Lecter revela-se um homem perigoso, de agenda misteriosa, pela forma como manipula mentalmente Graham e todos ao seu redor, conseguindo mesmo que Graham seja suspeito de crimes. Será Graham um assassino ou apenas um “psicótico” profiler? E como provar a sua inocência, a existir?

“Hannibal” é uma das grandes propostas televisivas de 2013. Muito honra o legado cinematográfico do personagem, rivalizando muito bem com “Manhunter” e “The Silence of the Lambs” (entendamo-nos, são os melhores filmes sobre Lecter), superando idiotices como “Hannibal” (o filme), “Red Dragon” (o inútil remake de “Manhunter”) e “Hannibal Rising”.

Para além de ser um notável e muito bem contado serial killer thriller, a série propõe uma verdadeira viagem à mente humana e à loucura.

Bons meios de produção, notável trabalho de fotografia e muita estilização em belas, enigmáticas e perturbantes imagens (que fariam a delícia de Kubrick).

Hugh Dancy está excelente como Graham, ilustrando-o como um “psicopata” ao serviço do Bem e como um homem em permanente ameaça de entrar em coma e/ou raiva psicótica. Mas (como seria óbvio), não consegue eclipsar o fabuloso William L. Petersen em “Manhunter”. Petersen compôs um Graham mais viril, mas sempre prestes a rebentar e em permanente luta pela vitória da sanidade dentro da sua mente. O Graham de Petersen também cativa mais o espectador pela sua emotividade (veja-se o momento em que ele “confessa” ao filho que é um “psicopata”) e estabilidade emocional (é casado). Por outro lado, Petersen também consegue ser mais elegante (os fatos de Hugo Boss muito ajudam) face a um Hugh Dancy que parece um street bum.

Nota alta também para Mads Mikkelsen. Este dinamarquês (que conseguiu o estrelato como vilão em “007 – Casino Royale”) cria um Lecter fascinante, elegante, galante (vejam-se os momentos com os seus convidados à mesa e com a sua psiquiatra, interpretada com grande sentido de frieza e sensualidade por Gillian Anderson, actriz perita em caça a psicopatas – foi Scully em “The X-Files” e está em alta na perturbante série britânica “The Fall”, cuja Season 2 já vem a caminho), misterioso, manipulador e inquietante. Mikkelsen afasta-se dos caminhos delineados por Brian Cox (“Manhunter”) e Anthony Hopkins (“Silence of the Lambs”, “Hannibal”, “Red Dragon”) e cria um Lecter que se afirma como um verdadeiro Diabo a manipular todo o humano que lhe surge na mão como instrumento para o Mal e para a Morte. Dêem-lhe tempo e Mikkelsen bem pode ser considerado como o melhor Lecter de sempre.

Laurence Fishburne (habituado a caçar assassinos depois da sua participação em “CSI: Las Vegas”, onde substituiu… William L. Petersen – giro como tudo anda ligado, não?) dá-nos a sua habitual segurança como Jack Crawford.

Outros personagens que surgem no livro e no filme têm a sua participação, com este e aquele a mudar de sexo, permitindo uma conseguida ambiguidade na sexualidade da interacção entre os personagens. Muito interessante a forma como os argumentistas conseguiram, em diversos episódios e momentos, usar diálogos, frases e expressões de “Manhunter” e “Red Dragon” (o livro).

Todos os episódios são de um forte grafismo na exposição da violência (os corpos exibidos como anjos, onde as “asas” são criadas a partir da pele das costas; a “abertura” do maxilar; a “explicação” do que é uma “gravata colombiana”; a visão clara de uma operação à barriga).

Como se sabe, Lecter é um perito em culinária. Embora os seus pratos tenham sempre um visual deslumbrante (e ele explica do que constam), quando se assiste à preparação não se admirem se ficarem com nojo perante carne.

“Hannibal” é altamente restrita a adultos e pessoas com estômagos (e mentes) fortes.

A primeira temporada dura 13 episódios. É certo que a meio deixa a sensação de estar a marcar passo e a limitar-se a ser mais um psycho serial killer crime scene investigation show of the week (e assim entrar em concorrência com as magníficas “Profiler” e “Millennium”) e que alguma “palha narrativa” deveria ser eliminada, mas a série recupera força na fase final da temporada, devido aos desequilíbrios de Graham e ao jogo (apenas conhecido pelo espectador) de Lecter.

A Season 1 termina com um implacável cliffhanger psicológico e moral, que deixa grandes expectativas perante a Season 2. Embora, por muitas voltas que dêem, já sabemos que a série tem de terminar com o inevitável (e violento) embate (físico) entre Graham e Lecter e assim sermos direccionados para “Manhunter”/”Red Dragon”.

Resta só esperar que, ao contrário do que costuma acontecer nas séries americanas, os autores saibam até onde devem esticar a corda.

Mas de momento, “Hannibal” é uma proposta imperdível e altamente recomendável. Seja enquanto produto de género, seja como um recontar das origens de dois dos personagens mais emblemáticos e fascinantes do final do Século XX, no mundo literário, cinematográfico e, agora, televisivo.

Site – http://www.nbc.com/hannibal/

AXN PT – http://www.axn.pt/programas/hannibal

(canal onde a série é exibida, em Portugal)

Trailer

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s