Forças Secretas (1952)

 

 

Título original – The Narrow Margin

 

Um brilhante suspense thriller, de ideia e concepção simples.

Hoje, 70 anos depois, continua a ser um exemplar exercício de Cinema.

 

Um agente da Polícia escolta uma testemunha num comboio.

Mas a bordo vai muita gente interessada em calar a mulher.

O comboio não pára, não há comunicações nem ajudas. Como fugir?

Suspense thriller em ambiente fechado e de cerco, de grande nível de tensão, pleno de twists e surpresas, assente numa incrível economia narrativa e técnica.

Com uma duração de cerca de 70 minutos, tudo flui de forma correcta, linear, simples e coerente.

Personagens simples e rapidamente apresentados, sem necessidade de os definir psicologicamente ou de os complicar.

A relação entre o polícia e a testemunha é tensa e cheia de diálogos bem acesos de ira, personalidade e ironia, que tanto parecem uma screwball mais agressiva e séria, como remete para os alicerces do futuro modelo do buddy-buddy movie (embora aqui se sinta que ambos nunca poderão ser amigos).

Há uma generosa (e bem-vinda) presença de humor (os momentos entre o polícia e a criança, os contratempos do polícia com a senhora).

Nota alta para a cenografia, o som e a fotografia.

Estamos dentro de um comboio, mas (como é óbvio) sabemos que tudo tem de ser filmado em estúdio. E é admirável o trabalho cénico, que nos faz mesmo sentir num comboio em movimento, em vagões pequenos e compartimentos apertados (reforçando-se assim o cerco crescente sobre os protagonistas).

O som é simples, mas consegue toda a sonoridade do que é estar e viajar num comboio (o som dele e o do ao redor).

A fotografia cria meticulosamente os detalhes dos jogos de luz e sombras, sejam para os momentos de suspense (o hall do prédio onde vive a testemunha, a espera do hitman, a escuridão no compartimento), sejam para dinâmica da viagem (o comboio a circular, os reflexos dos rostos e da paisagem).

O filme dá-nos uma das melhores lutas num compartimento de comboio, que quase funciona como trailer e aula para a luta (também uma das melhores) entre Sean Connery e Robert Shaw, também num compartimento de comboio, em “From Russia With Love” (1963, a segunda aventura de James Bond).

Richard Fleischer era um veterano apto para quase todo o género, em diverso tipo de produções. Movia-se bem em grandes produções (“The Vikings”, “20.000 Leagues Under The Sea”, “Fantastic Voyage”), mas sabia (e bem) andar por produções B.

Ei-lo num magnífico momento de eficácia, gerindo bem o ritmo, a tensão e o espaço.

Charles McGraw era um bom nome no campo B, sempre durão e convincente, com forte presença. Aqui mantém esse estatuto, com um personagem durão e birrento, mas que se revela de bom coração (a sua dor com a morte de um conhecido, a sua delicadeza com a senhora, a sua simpatia com o petiz).

Marie Windsor era conhecida por alguns como “A Ava Gardner da Série B”. À margem da comparação, Marie mostra presença, carisma e talento para personagens fortes.

Bom trabalho do restante elenco.

É a típica produção da RKO – simples, directa ao assunto, eficaz, entretida.

Uma pérola do género.

 

“The Narrow Margin” não tem edição portuguesa. Existe noutros mercados, a bom preço.

Realizador(es): Richard Fleischer, William Cameron Menzies (sem crédito)

Argumentistas: Earl Felton, Martin Goldsmith, Jack Leonard

Elenco: Charles McGraw, Marie Windsor, Jacqueline White, Queenie Leonard, David Clarke, Peter Virgo, Don Beddoe, Paul Maxey, Gordon Gebert, Peter Brocco

 

Trailer

 

Clips

 

No TCM

 

Orçamento – 200.000 Dólares

 

Nomeado para “Melhor Argumento”, nos Oscars 1953. Perdeu para “The Greatest Show on Earth”.

A história inicial é de Martin Goldsmith e Jack Leonard, e chamava-se “Target”.

 

É o último filme de Jacqueline White.

Para uma melhor mobilidade da equipa dentro do set, Richard Fleischer procurou que se recorresse ao método de “câmara ao ombro”.

O set estava preso, a câmara é que se mexia para dar a sensação de movimento do comboio.

Filmado em 13 dias.

 

O filme não tem música.

O segundo repórter a entrar no comboio era George Sawaya, o stuntman de Charles McGraw na cena da luta no compartimento. Era o seu primeiro trabalho.

Filmado em 1950, mas só estreou em 1952. Depois do filme estar pronto, ele foi enviado a Howard Hughes (o dono da RKO), pois ele tinha muita curiosidade em vê-lo ao ouvir boas opiniões sobre ele.

Hughes gostou do filme, mas achou que havia espaço para melhorias. Queria eliminar as cenas com Charles McGraw e Marie Windsor, e queria que fossem substituídos por Robert Mitchum e Jane Russell.

Fleischer foi chamado por Hughes para filmar cenas adicionais em “His Kind of Woman” (com… Robert Mitchum & Jane Russell). O mesmo argumentista de “The Narrow Margin” (Earl Felton) escreveu essas cenas novas.

Hughes chamou William Cameron Menzies para filmar umas cenas adicionais a “The Narrow Margin”.

Uma cena que Hughes exigiu que fosse retirada foi a que mostra o colega do protagonista a revelar-se corrupto e a indicar aos criminosos a localização da casa da testemunha e qual o comboio onde ele e o colega iam.

O filme ficou esquecido na casa do milionário. Entretanto Hughes sai da RKO e do movie business, e o filme é, finalmente, libertado para estreia.

Filmado entes de “Roadblock” (1951, considerado como um dos melhores filmes de Charles McGraw), mas estreado depois.

 

O filme foi um sucesso de público e crítica.

Na época, o filme foi considerado como “acima de B”, mas “não completamente A”.

Foi o grande sucesso da RKO nesse ano.

Foi o star vehicle de Marie Windsor. Na época havia quem se referisse a ela como “A Nova Joan Crawford”, mas ainda não tinha dado nas vistas.

Muitos fans e analistas do Film Noir consideram que os diálogos entre Charles McGraw e Marie Windsor estão entre os melhores do género.

Richard Fleischer já tinha boa reputação em produções B, mas este filme lançou-o para produções A.

 

Teria um (bom) remake em 1990 (já aqui visto), com o título de “Narrow Margin”, realizado por Peter Hyams, com Gene Hackman e Anne Archer. Hyams iria desenvolver mais o potencial actioner da intriga.

 

One comment on “Forças Secretas (1952)

  1. […] Narrow Margin” (1952, já aqui visto) já gozava de bom […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s