Mogambo (1953)

 

 

John Ford decide refazer “Red Dust” (1932, já aqui visto).

Clark Gable regressa. Juntam-se-lhe duas grandes beldades.

E o resultado é bem quente.

 

Quénia.

Victor Marswell é caçador e líder de safaris. O que poderia ser mais um safari, transforma-se num escaldante caso entre ele e duas mulheres que se deixam arrebatar por Victor e pela paisagem – Eloise Y. Kelly anda em fuga de si própria, Linda Nordley acompanha o marido, mas parece carente de afecto e paixão.

É sobre pessoas à caça/procura de animais, mas as presas são mesmo o desejo, a tensão e a libertação sexual.

Pegando-se no clássico esquema do triângulo amoroso (aqui, é um homem dividido entre duas mulheres de sensibilidade e sensualidades completamente opostas), o argumento aborda o calor da alma humana perante o desejo, o cansaço da solidão sentimental e as duvidas relacionais.

A forma de fazer tudo isto é puro entretenimento e de alto nível – há drama (o das donzelas em causa), comédia (as trocas de “galhardetes” enciumados entre as meninas, a forma como o cavalheiro gere alguns problemas criados pelas meninas), aventura (a descoberta de todo um território desconhecido) e acção (algumas peripécias vividas).

Elevado é o teor erótico dos eventos, dada a forma como o trio se relaciona e se manifesta.

No meio de tanto calor climatérico, corporal e erótico, o filme é sobre o aquecimento da alma dos três protagonistas – Victor redime-se por uma escusada morte animal, Linda redescobre o amor na desilusão/decepção da paixão, Eloise revaloriza a vida através da confissão.

Excelente fotografia (em glorioso Technicolor), a filmar magnificamente toda a paisagem africana e o calor dos corpos.

John Ford gere de forma magistral todos estes géneros, criando belíssimas imagens bem como uma tórrida atmosfera de erotismo.

O óptimo elenco ajuda, e de que maneira!!!

Clark Gable domina com a sua virilidade macho, mas sabendo entregar a devida sensibilidade.

Ava Gardner é um vulcão sentimental sempre em erupção.

Grace Kelly é uma selva de delicadeza, ávida de descoberta.

A química entre os três é ardente. O elenco secundário está ao nível do exigido.

É um dos mais eróticos filmes de sempre, resultando num must cinematográfico.

“Mogambo” é um remake de “Red Dust”. Não lhe faltam méritos (bem como ao original). Vamos ver como se mede face à versão anterior:

  • O argumento é praticamente igual, mudando apenas o ambiente profissional (de uma plantação de borracha vamos para safaris) e geográfico (do Oriente vamos para África), criando (até porque tem mais quase 30 minutos) mais eventos, o que permite um melhor desenvolvimento dos personagens, relações e emoções.
  • O original é a P&B, o remake é a cores. Tal reforça a beleza visual do remake, o que permite uma melhor visualização diurna da paisagem (vegetal e animal). O original tem muitos momentos em interiores e de noite, o remake tem mais expansão no espaço e mais momentos diurnos.
  • Nos dois filmes, o trabalho do elenco é impecável, de forte química e sabendo caracterizar bem a tensão sexual.
  • O poder erótico é imenso, nas duas versões. Talvez o original surpreenda mais, por causa da época em que é feita, sendo bem avant-garde.

 

É praticamente um empate (devido ao ardor erótico do trio protagonista de cada versão), mas “Mogambo” supera-se a “Red Dust” pela presença da cor (tão quente como o desejo dos personagens), pelas filmagens locais e por um argumento mais desenvolvido.

Mas acreditem que “Red Dust” é bem red no erotismo e merece (muito) a descoberta.

 

“Mogambo” não tem edição portuguesa. Existe noutros mercados, a bom preço.

Realizador: John Ford

Argumentistas: John Lee Mahin, a partir da peça teatral de Wilson Collison (“Red Dust”)

Elenco: Clark Gable, Ava Gardner, Grace Kelly, Donald Sinden, Philip Stainton, Eric Pohlmann, Laurence Naismith, Denis O’Dea

 

Trailer

 

Clips

 

Imagens dos bastidores

 

Orçamento – 3.1 milhões de Dólares

Bilheteira – 8.3 milhões de Dólares

 

Nomeações nos Oscars 1954 – Ava Gardner para “Melhor Actriz” (venceu Audrey Hepburn em “Roman Holiday”) e Grace Kelly para “Melhor Actriz Secundária” (venceu Donna Reed em “From Here to Eternity”).

Esteve nomeado para “Melhor Filme”, nos BAFTA 1954. Foi derrotado por “Jeux Interdits”.

Grace Kelly foi a “Melhor Actriz Secundária”, nos Globos de Ouro 1954.

Ava Gardner foi a “Melhor Actriz – Comédia”, nos Laurel 1954.

“Top 10”, pela National Board of Review 1953.

 

Remake de “Red Dust”

 

Em 1946, a MGM decide refazer “Red Dust”. Fala-se em Marilyn Maxwell como protagonista.

Em 1948, Marie McDonald é ponderada.

Em 1949, Maxwell e Gene Kelly são ponderados como protagonistas.

A MGM aposta no remake por causa da cor. Outros remakes do estúdio, também a cores, foram grandes sucessos (“King Solomon’s Mines” em 1950, “Quo Vadis” em 1951, “The Prisoner of Zenda” em 1952).

Stewart Granger ia ser o protagonista (tinha protagonizado dois remakes para a MGM – “King Solomon’s Mines” e “The Prisoner of Zenda”), mas a MGM preferiu Clark Gable.

Gable estava relutante em fazer um remake de “Red Dust”. Mas viu-se obrigado a tal, devido aos flops de “Across the Wide Missouri” (1951) e “Lone Star” (1952).

Era o terceiro filme de Gable a cores, depois de “Gone With The Wind” (1939) e “Across the Wide Missouri” (1951).

Deborah Kerr e Lana Turner foram ponderadas para serem as duas ladies do filme.

Shelley Winters e Patricia Neal são ponderadas.

Maureen O’Hara e Lauren Bacall foram consideradas para Eloise Y. Kelly. Ava Gardner foi escolhida.

Maureen O’Hara ia protagonizar, mas a MGM queria Ava Gardner. O`Hara e Ford já tinham bom curriculum juntos (fizeram vários filmes juntos, com John Wayne). Tal imposição pode explicar o comportamento do cineasta para com Gardner durante as filmagens.

Gardner estava relacionada com Frank Sinatra. Acredita-se que o cantor moveu influências na escolha da actriz.

Gene Tierney era a preferida para ser Linda. Desistiu do projecto devido a problemas pessoais. Grace Kelly foi então escolhida.

Reencontro entre Clark Gable e Ava Gardner, depois de “Lone Star”.

John Ford não tinha visto “Red Dust”, mas gostou do argumento e da ideia de filmar em África.

Em 1951 tudo fica definido – “Mogambo” é o título, vai ser filmado em África, John Ford é o realizador, Sam Zimbalist é o produtor (que também produziu “King Solomon’s Mines”) e tem como protagonista Clark Gable (protagonista de “Red Dust”).

Para assegurar que o elenco estava moreno, Ford pediu-lhes para apanharem sol antes das filmagens.

Filmado no Congo e no Quénia.

As filmagens em estúdio foram na Inglaterra, nos estúdios da MGM, em Borehamwood, Hertfordshire.

A MGM contratou segurança para cast & crew, devido ao perigo de um grupo terrorista na zona. Nada aconteceu.

O primeiro dia de filmagem estava sempre a ser “tapado” por um balão que aparecia no enquadramento de uma cena de amor entre Clark Gable e Ava Gardner.

Gable e Ford não se entenderam nas filmagens. Gable não gostava da forma como Ford tratava Gardner, o cineasta achava o actor já velho para o personagem.

Gable adoeceu nas filmagens. Frank Sinatra (na época, envolvido com Ava Gardner) apareceu no set e preparou vários jantares, de gastronomia italiana. Ford confessaria anos depois que só permitiu a presença de Sinatra no set por causa dos jantares que ele preparava.

Ao fim de cada dia, Gardner tomava banho, assistida por um rapaz local. Representantes do governo britânico pediram à actriz para não se despir perante os indígenas locais. Ava riu-se de tal e “desfilou” nua pelo campo.

Gardner estava grávida durante as filmagens e passou mal devido ao calor. Teve de ser internada e teve um aborto.

Gardner estava surpreendida por Ford não a tratar como uma movie star e não lhe dar muitas indicações.

O assistant director John Hancock morreu num acidente de jipe.

Surgiu um romance entre Clark Gable e Grace Kelly. Mas tudo parecia correr bem por parte da actriz e da sua mãe. Chegou-se a falar em casamento e Gable ter-se-á assustado com a ideia e deixou a Kelly. Kelly procurou ajuda em Gardner, que lhe disse que tal comportamento era normal em Gable.

Apesar do elevado orçamento, quase todo o filme foi filmado em estúdio.

Apesar da publicidade dizer que “Mogambo” significa “O Maior”, na verdade a palavra não tem significado. O produtor Sam Zimbalist teve a ideia para o título a partir de uma manipulação semântica no nome de um famoso club de Hollywood – “Mocambo”.

Muitos dos actores que apareciam em tronco nu tiveram de fazer depilação ao peito.

O filme inclui membros de várias tribos.

Alguns eventos no filme inspiram-se em eventos ocorridos nas filmagens – um leopardo chegou a aparecer na tenda de Ava Gardner, ela aleijou-se com uma faca ao cozinhar.

Num momento, Ava Gardner é empurrada por um bebé elefante. Ford não parou de filmar. A cena ficou intacta e é uma das mais divertidas do filme.

A censura em Espanha não permitiu o adultério da história. Assim, Linda e Donald passaram de casal para irmãos.

O filme foi um enorme sucesso, de público de crítica.

É a única nomeação aos Oscars de Ava Gardner.

One comment on “Mogambo (1953)

  1. […] filme teria um remake em 1953 (já aqui visto) – “Mogambo”, de John Ford, com Ava Gardner (que pega na personagem de Jean Harlow) e […]

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