Explosão (1981)

 

 

Título original – Blow Out

 

Depois do exercício Hitchcockiano (derivado de “Psycho”) e Giallesco (de visível inspiração em Dario Argento) que foi “Dressed to Kill” (1980), Brian De Palma faz um outro exercício, a partir de outro cineasta e filme relevantes.

 

Jack Terry é técnico de som em Cinema.

Numa noite, em busca de novos sons, Jack grava um acidente. Mas uma audição detalhada ao evento prova-lhe que tudo foi um atentado homicida.

Jack vê-se envolvido numa teia de interesses e mistérios.

O título traz jogo de títulos e não é por acaso.

Brian De Palma sempre gostou de “refazer” grandes títulos (e momentos – a cena da escadaria de “Battleship Potemkin” de Sergei Eisenstein é refeita num momento crucial de “The Untouchables”) de grandes cineastas (nomeadamente Hitchcock – “Sisters” traz a memória de “Psycho”, “Obsession” evoca “Vertigo”, “Dressed to Kill” tem algo de “Psycho” e muito do Giallo à Dario Argento, “Body Double” traz ideias de “Rear Window” e “Vertigo”).

O autor de “Casualties of War” faz aqui o seu “Blow-Up” (1966, de Michelangelo Antonioni, que tem uma trama parecida – mas em vez de som, é sobre imagem em fotografia).

Mas também pode ser uma espécie de “The Man Who Heard Too Much” (pois, à semelhança do filme de Hitchcock com o título parecido, é sobre as peripécias de um homem, normal, que sabia demais, por ter ouvido demais).

O resultado é um elegante, fascinante e cativante conspiracy thriller, onde se joga (seguindo uma das boas regras de Hitchcock – de quem De Palma é grande fã e “imitador”) com o factor informação (ora sabemos mais nós, ora sabemos tanto como o protagonista).

Por ser um filme sobre um técnico de som cinematográfico, o filme é todo um “documentário” e ensaio sobre o som e a imagem, ilustrando muito desse processo técnico (veja-se a cena em que Jack edita os eventos que gravou).

E ainda há espaço para uma singela história de amizade e amor (atenção ao poder do choque do que se segue ao climax).

Final amargo e pessimista, que remete para uma conclusão (que “rima” com o início) plena de uma negra ironia.

Excelente trabalho nas áreas de fotografia e som (toda a cena da captura de som na natureza, os momentos que envolvem as misturas de som).

Excelente música de Pino Donaggio – romântica, tensa, misteriosa. É um dos seus melhores trabalhos.

John Travolta convence no seu stress. Nancy Allen é sempre querida. John Lithgow é perturbante. Dennis Franz diverte.

John & Nancy têm uma química muito natural e ternurenta.

Brian De Palma vinha de “Sisters” (1972), “Obsession” (1976) e “Dressed to Kill” (1980), pelo que estava em plena forma na criação de suspense e domínio visual/técnico.

E ei-lo mais uma vez elegante e fascinante no controlo do movimento da câmara e na criação de momentos incríveis (o uso do split screen, o uso da profundidade de campo, a cena da captura de som e o que se segue, o plano contínuo na sala de som, o assassinato no WC, a perseguição automobilística, a perseguição no metro, a perseguição na parada, o climax e o final) e até a saber brincar com as expectativas do espectador (a cena inicial e o seu final).

É um dos seus trabalhos e obras mais perfeitos.

Foi um (injusto) flop na época, mas tem recebido um (merecido) blow out de culto desde então.

Um fabuloso suspense thriller e um bravo momento de Arte Cinematográfica.

 

“Blow Out” não tem edição portuguesa. Existe noutros mercados, a bom preço.

Realizador: Brian De Palma

Argumentista(s): Brian De Palma, Bill Mesce Jr. (sem crédito)

Elenco: John Travolta, Nancy Allen, John Lithgow, Dennis Franz

 

Trailers

 

Clips

 

Brian De Palma sobre o filme

 

Garrett Brown sobre o filme

 

Orçamento – 18 milhões de Dólares

Bilheteira – 14 milhões de Dólares

 

Logo depois de “Dressed to Kill”, De Palma considerou vários projectos – um deles era “Act of Vengeance” (que seria depois uma produção da HBO, com Charles Bronson e Ellen Burstyn), “Flashdance” (que seria realizado por Adrian Lyne, revelando Jennifer Beals) e um argumento seu (“Personal Effects”, que daria origem a “Blow Out”).

A ideia para “Blow Out” surgiu a De Palma durante a pós-produção de “Dressed to Kill”, precisamente na fase da mistura de som.

Brian De Palma nunca escondeu que o filme se inspira em “Blow-Up”.

Numa primeira versão do argumento, os protagonistas eram mais velhos e cínicos.

“Personal Effects” – título inicial.

Al Pacino estava pensado como protagonista. Como ele estava ocupado, chamou-se John Travolta. O personagem teve de ser adaptado a Travolta (Jack Terry era mais sóbrio e obscuro).

Pacino e De Palma encontrar-se-iam em “Scarface” (1983) e “Carlito`s Way” (1993).

Travolta sugeriu Nancy Allen, pois ambos já tinham trabalhado em “Carrie” (1976, também realizador por De Palma) e tinham-se dado muito bem.

Chegou-se a sugerir Olivia Newton-John para co-protagonista (ela tinha trabalhado com Travolta em “Grease”, em 1978), mas De Palma recusou.

Julie Christie, Natalie Wood, Stella Stevens e Dyan Cannon foram consideradas como Sally, se Jack fosse mais velho.

Brian De Palma & Nancy Allen eram um casal, na época.

Reencontro entre Brian De Palma, John Travolta e Nancy Allen, depois de “Carrie”.

Reencontro entre Brian De Palma com várias pessoas, com quem voltaria a trabalhar –  Nancy Allen (depois de “Carrie” e “Dressed to Kill”), Dennis Franz (depois de “Dressed to Kill” em 1980, “The Fury” em 1978, a caminho de “Body Double” em 1984), John Lithgow (“Obsession” em 1976, a caminho de “Raising Cain” em 1992), Vilmos Zsigmond (o DP de “Obsession” em 1976), Paul Hirsch (o editor de “Hi, Mom!” em 1970, “Sisters” em 1972, “Phantom of the Paradise” em 1974, “Obsession”, “Carrie”, “The Fury”) e Pino Donaggio (a música de “Carrie”, “Home Movies” em 1979, “Dressed to Kill”, “Body Double”).

De Palma acreditava conseguir fazer o filme com um orçamento de 3 milhões de Dólares. Mas a presença de John Travolta fez encarecer o filme (o actor vinha dos sucessos de “Saturday Night Fever” e “Grease”, pelo que a sua cotação estava em alta).

Como é frequente no seu Cinema, De Palma faz imenso uso do split-focus diopter lens.

Muitas das filmagens decorreram de noite.

John Travolta sofreu de insónia durante as filmagens. Isso ajudou-o na caracterização e interpretação do seu personagem.

A cena aquática foi filmada num tanque de água, com um carro lá dentro. Nancy Allen estava dentro do carro e sempre assustada.

 

Toda a cena inicial foi filmada com Steadicam. As mãos do assassino na faca são as de Garrett Brown, o operador de câmara e inventor do Steadicam.

É o primeiro filme onde Brian De Palma recorre ao Steadicam.

O argumento do filme tem analogias com o caso Watergate e o assassinato de John Fitzgerald Kennedy.

A cena em flashback sobre o agente de polícia infiltrado deriva de uma ideia que Brian De Palma tinha para o filme “Prince of the City”. De Palma ia realizar esse filme, mas devido a uma série de eventos (atrasos na pré-production, avanço da produção de “Dressed to Kill”), o cineasta ficou de fora do projecto. De Palma ia realizar, com Robert De Niro como protagonista (o que marcaria um reencontro entre os dois, depois de “Greetings” e “Hi, Mom!”). Acabou por ser com Treat Williams e realizado por Sidney Lumet.

A cena da parada precisou de 11 câmaras, 1.000 extras, 25 stuntmen e vários carros dos Bombeiros e Polícia de Philadelphia.

Alguma da footage da cena da parada foi roubada e teve de ser refilmada. Vilmos Zsigmond já não estava disponível, pelo que László Kovács ficou responsável pela Fotografia.

Num momento, o personagem de Dennis Franz está a ver “Murder a la Mod” (1968, um dos primeiros filmes de Brian De Palma). Era para se mostrar “Dementia 13” (1963, um dos primeiros filmes de Francis Ford Coppola), mas Roger Corman (o produtor do dito filme) pediu dema$iado pelos direitos.

Num momento, Jack menciona que trabalha num filme com o título “Bordello of Blood”. Tal filme existia enquanto projecto. Era escrito por Bob Gale & Robert Zemeckis ainda nos 70s (conta a história de detective privado que, durante uma investigação, é direccionado para um bordel de vampiros). O filme seria feito em 1996.

Só Brian De Palma quis manter o final como ficou. Nancy Allen, Paul Hirsch (o editor) e John Travolta procuraram que o final fosse diferente.

Apesar da distante reacção do público, a crítica foi bastante entusiasta.

Acredita-se que o flop pode ser explicado pelo final. Fosse o final outro, há quem acredite que o filme poderia conseguir 60 a 80 milhões de Dólares nas bilheteiras.

Também há quem defenda que era um filme demasiado negro para o Verão (foi na época em que estreou).

O tempo tem sido justo para com o filme, que tem recebido um forte estatuto de cult movie.

 

O flop do filme prejudicou a carreira de John Travolta. O actor demorou na recuperação dela e em obter bons argumentos e filmes sérios.

Brian De Palma considera que o score de Pino Donaggio é um dos seus melhores.

Em França, o filme foi dobrado. O personagem de John Travolta ficou com a voz de Gérard Depardieu.

Quentin Tarantino é grande fã do filme.

Tarantino gostou do filme e da performance de John Travolta. Tal foi decisivo para o cineasta escolher o actor para “Pulp Fiction” (1994) e esse filme foi decisivo para o relançar de carreira de Travolta.

Tarantino usou um dos temas de Donaggio para o filme (“Sally and Jack”) em “Death Proof”.

Tarantino tem “Blow Out” na sua lista de TOP 3 de filmes favoritos – os outros são “Rio Bravo” e “Taxi Driver”.

Tarantino considera “Blow Out” como o melhor filme de Brian De Palma.

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