Cinco Anos Depois (1961)

 

 

Título original – One-Eyed Jacks

 

É o único filme realizado por Marlon Brando.

Passam 60 anos sobre tal. Um bom motivo para o revisitarmos.

Ao que parece, é um Western. Huhhh, não propriamente.

 

Rio e Dad Longworth são parceiros em assaltos a bancos. O mais recente trabalho origina distintos destinos para ambos – Dad foge com o dinheiro e Rio é preso.

5 anos depois, Rio parte no encalço de Dad, para se vingar. Rio encontra Dad, mas este agora é um respeitável cidadão e até Sheriff.

Para complicar tudo, Rio apaixona-se pela filha de Dad, a jovem e ardente Louisa.

Menos coboiada e mais melodrama (bem típico do Actor`s Studio e de Tennessee Williams).

É isto que “One-Eyed Jacks” é.

Poderia ser um Western de vingança, mas é um melodrama sobre a jornada de um homem, em busca de vingança, sim, mas também à descoberta de um motivo de redenção e perdão (sobre si próprio e sobre o inimigo), sendo também uma benção de verdade sobre um mentiroso.

É como se Elia Kazan pedisse a Tennessee Williams e a Carson McCullers para lhe escreverem um Western.

Foi pena não se ter feito uma ilustração do tempo de cativeiro de Rio (assim assistiríamos ao seu calvário – físico e emocional – e criava-se uma empatia do espectador perante o seu desejo de vingança no reencontro e gundown entre Rio e Dad) e da sua fuga (o que originaria uma boa cena de acção e suspense).

Felizmente que estas “ausências” emocionais têm uma (ligeira) “compensação” – o momento em que Rio desabafa a Louisa o que lhe vai na alma ao longo desses 5 anos.

A sub-intriga com o novo gang e a preparação do novo assalto acaba por resultar como algo desnecessária e sem qualquer adenda na narrativa, provocando até um certo prolongamento narrativo e de metragem.

Belíssima fotografia (ahhh, o VistaVision!!!), plena de cor, definição, detalhe, profundidade. Algo que a recente (e magnífica) remasterização 4K captou em todo o esplendor, após décadas de péssimas cópias, baças nas sua “cor”.

Óptimo aproveitamento da paisagem (a costa californiana).

Marlon Brando e Karl Malden num Western?

O Actor`s Studio metido em coboiadas?

Claro que a ideia dá para rir.

Mas…

Felizmente que isto não é um Western puro.

(da mesma forma que “Viva Zapata” não e um Actioner sobre uma revolução, ou “On The Waterfront” não é um Noir sobre operários, patrões e sindicatos)

O trabalho do elenco é muito bom.

Marlon Brando e Karl Malden já se conheciam e sabiam como contracenar.

Brando convence na sua vontade de vingança e na procura de alguma redenção quando apaixonado pela menina.

Malden tem uma das suas maiores interpretações, como um homem mau, mesquinho, dominador e traiçoeiro.

Ambos não são nomes habituais do Western (e o filme bem espelha isso), mas como o filme é atípico no género, o facto de ter nomes (e um argumento) atípicos do género reforça mais essa diferença.

Marlon Brando tem um bom trabalho como realizador.

Não investe num Western típico nem se dedica a set pieces (o actioner não era mesmo o terreno de Brando – tanto à frente como atrás das câmaras) – talvez o isso, o duelo final entre Rio e Dad saiba a pouco. Mas dá o devido tempo ao melodrama, aos personagens, às relações, às emoções e sentimentos, conseguindo que a paisagem se torne uma personagem e com índole romântica sobre alguns personagens.

Com a paisagem e meios técnicos ao seu dispor, elogia-se que Brando tenha conseguido criar momentos/planos de grande beleza visual:

  • o plano inicial – começamos com um Brando descontraído (em close shot) para revelar que nos encontramos num assalto (via wide shot).
  • o reencontro entre ambos – os planos dos rostos (de aproximação progressiva, com recurso a uma hábil montagem) e a expectativa criada; a conversa amigável entre ambos e a sensação ambígua.
  • A cena ao jantar, onde se sente que há algo mais do que aquilo que é conversado.
  • A intimidade nos momentos emocionais entre Rio e Louisa.
  • Os momentos isolados de Rio enquanto reflecte sobre a sua vida, decisões, passado e presente.

“One-Eyed Jacks” não é um Western (nunca é demais afirmar tal). Apenas se passa nessa época (da mesma forma que “True Grit” nas versão dos Coen é uma revenge & coming of age story em tempo de cowboys).

Já se vê aqui alguma desconstrução do género. Algo que já tinha começado com John Sturges em “The Magnificent Seven” (1960), acentuar-se-ia com Sam Peckinpah (que chegou a andar no princípio de “One-Eyed Jacks”) em “Ride The High Country” (1962) e “The Wild Bunch” (1969), com a machadada final através do Western-Spaghetti (Sergio Leone com “A Fistful of Dollars” em 1964, Duccio Tessari com “A Pistol for Ringo” em 1965 e Sergio Corbucci com “Django” em 1966). A ser uma coboiada, não há aqui bons nem maus, algumas situações típicas (outlaws, assaltos a bancos, traições, vingança, shootouts) e algumas raras (a odisseia emocional do protagonista).

Por aqui passa algo de Noir – a visão da corrupção humana (o outlaw torna-se sheriff e líder comunitário, o deputy é incompetente), a pureza nos inocentes perante os acontecimentos (Louisa).

Também se mexe em temas típicos dos filmes via Actor`s Studio e do cinema liberal dos 60s – a sexualidade brusca, a hiper-protecção paternal/maternal, a rebelião sentimental.

Marlon Brando queria fazer um Western diferente e conseguiu-o. Embora “One-Eyed Jacks” não seja um puro Western.

Apesar de chegar depois de Sturges e dos seus “The Magnificent Seven” (que já começava a mudar coisas no género e a ser um título bem influente), Brando antecipa-se a Peckinpah e aos italianos, evidenciando o “declínio” do género (que qualquer género o tem).

É um “Western” diferente, para quem não gosta de coboiadas e prefere melodramas, assente nas capacidades dramáticas dos seus protagonista e numa grande beleza visual.

 

Obrigatório.

 

“One-Eyed Jacks” tem edição portuguesa e anda a bom preço. O master é antigo e não adequado à beleza visual do filme. Procure-se outras edições (noutros mercados, claro), já com a devida (e merecida) restoration.

Realizador: Marlon Brando

Argumentistas: Guy Trosper, Calder Willingham, Sam Peckinpah (sem crédito), Rod Serling (sem crédito), a partir do romance de Charles Neider (“The Authentic Death of Hendry Jones”)

Elenco: Marlon Brando, Karl Malden, Katy Jurado, Ben Johnson, Slim Pickens, Pina Pellicer

 

Trailer

 

Martin Scorsese sobre o “One-Eyed Jacks”

 

Filme

 

Orçamento – 6 milhões de Dólares

Mercado doméstico – 4.3 milhões de Dólares

 

Nomeado para “Melhor Fotografia – Cor”, nos Oscars 1962. Perdeu para “West Side Story”.

Marlon Brando  esteve nomeado para “Melhor Realização”, pelo Directors Guild of America 1962. Perdeu para Robert Wise em “West Side Story”.

O filme esteve nomeado para “Top Action Drama”, nos Laurel 1962. Perdeu para “El Cid”.

“Concha de Ouro” e “Melhor Actriz” (Pina Pellicer), em San Sebastián  1961.

“Filme a Preservar”, pela National Film Preservation Board 2018.

O livro de Charles Neider era uma variação sobre Billy The Kid.

A companhia de Marlon Brando (Pennebaker Productions) tinha pago 40.00 Dólares pelos direitos do livro de Neider.

Rod Serling (o lendário criador da mítica série “The Twilight Zone”) segue o livro de Neider. Tal é rejeitado.

Sam Peckinpah é chamado para fazer uma nova versão do argumento. Rio inspira-se em Billy The Kid. Foi isso que Peckinpah procurou fazer no seu draft do argumento.

Stanley Kubrick é chamado como realizador.

Kubrick queria Spencer Tracy como Dad Longworth. Brando não concordou.

Kubrick também ponderou Henry Fonda como Dad.

Brando ou Kubrick (não está claro quem) dispensa Peckinpah e chama-se Calder Willingham para uma nova elaboração do argumento. Willingham também é despedido (em princípio, pelo produtor Frank Rosenberg) e Guy Trosper é chamado para uma nova versão.

Kubrick sai de cena a duas semanas do começo das filmagens. Não há grandes informações sobre o porquê – há quem diga que Brando o despediu, há quem diga que Kubrick se interessou mais por “Lolita” (1962).

Brando decide assumir a função de realizador.

Brando não era fã do Western e queria fazer um que alterasse completamente os seus arquétipos.

As filmagens começaram em Dezembro de 1958 e terminaram no Outono de 1960.

Ao fim de 5 dias de filmagens, a produção já estava com atrasos.

Brando chegava a estar horas a ver as ondas do mar, à espera das mais dramáticas.

Brando exigiu estar bêbado para uma cena em que o seu personagem estava bêbado.

Muita gente apontou a falta de experiência de Brando como realizador. Ele chegou a filmar seis vezes mais footage que o necessário e normal. Algumas das suas hesitações e indecisões levaram a que o estúdio tomasse conta da produção e fizesse uma remontagem ao filme. Há “anedotas” que indicam que Branco olhava pelo lado errado do viewfinder, sendo corrigido pelo Director of Photography.

O orçamento inicial era e 1.8 milhões de Dólares. O orçamento subiu imenso porque Brando gastou imensa película VistaVision (que era muito cara).

O argumento final pouco tem a ver o do romance literário que o inspira.

Apesar de interpretar a mãe de Pina Pellicer, Katy Jurado só tinha mais 10 anos.

A sela que Brando usa foi usada por Eli Wallach em “The Magnificent Seven” (1960).

O primeiro cut durava cerca de 5 horas.

Brando chegou a considerar chato o processo de montagem.

Cansado da acção demorada de Brando, o estúdio decide remontar o filme, filmar cenas adicionais e alterar o final. Este foi filmado quase um ano depois da conclusão da principal photography.

O final inicial dava um destino diferente a Louisa, no tiroteio entre Rio e Dad.

141 minutos – duração do cut final.

Na época, Brando não ficou contente com o resultado final do filme.

Anos depois, Brando considera o filme como um dos seus preferidos.

 

O filme falhou nas bilheteiras.

Brando assinou um contrato com a Universal, na esperança de conseguir alguma recuperação da sua pessoa no box office. Os filmes que se seguiram foram “The Ugly American” (1963), “Bedtime Story” (1964, ao lado de David Niven), “The Appaloosa” (1966), “A Countess from Hong Kong” (1967, de Charles Chaplin, com Sophia Loren) e “The Night of the Following Day” (1969, com Richard Boone e Pamela Franklin). Todos foram flops.

 

Terceira e última parceria entre Marlon Brando e Karl Malden – “A Streetcar Named Desire” (1951), “On the Waterfront” (1954) e “One-Eyed Jacks” (1961), são os filmes. Os dois primeiros são assinados por Elia Kazan.

É o único filme americano de Pina Pellicer.

É o último filme da Paramount em VistaVision.

 

“One-Eyed Jacks” é o nome de um bordel na série televisiva “Twin Peaks”. Num episódio da série criada por David Lynch, há uma conversa entre Donna Hayward e Audrey Horne – Audrey a pergunta a Donna se ela conhece o filme “One-Eyed Jacks”, ao que Donna responde ao perguntar se não é um Western com Marlon Brando.

O segundo álbum dos Spear of Destiny intitula-se “One-Eyed Jacks”.

Em 1961, Johnny Burnette criou uma canção chamada “The Ballad of the One-Eyed Jacks”.

 

Está nos “1001 Movies You Must See Before You Die” de Steven Schneider.

O filme caiu no public domain rapidamente, o que originou muitas cópias de péssima qualidade. Em 2016,  Martin Scorsese, Steven Spielberg e a The Film Foundation restauraram o filme para 4K. Tal restauro foi mostrado em Cannes 2016.

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