Fear Street – A Trilogia

 

 

A Netflix faz um verdadeiro evento cinematográfico no campo do streaming e do Terror.

Uma trilogia filmada em simultâneo, com todos os capítulos ligados entre si (não se podem ver de forma autónoma nem em cronologia alterada).

Estamos no campo do Teen Slasher e em muito bom nível, com uma energia e frescura, que quase parece um renascer do género.

 

 

Rua do Medo – Parte 1: 1994 (2021)

 

Título original – Fear Street – Part 1: 1994

 

E assim começa a saga.

 

Shadyside, 1994.

Uma pequena comunidade que parece amaldiçoada pelo azar e pela depressão.

Um grupo de amigos adolescentes descobre que há um mal ancestral que paira na povoação e dispõe-se a pôr-lhe um fim.

Teen slasher que sabe recorrer a diversos géneros (a bruxaria, o drama de rivalidades entre comunidades, o drama de jovens à deriva), para contar uma história plena de mistério, terror e surpresas, com relevância humana e presença de emoções.

Não estamos perante os efeitos inovadores de “John Carpenter`s ´Halloween`” (todos sabemos que é impossível igualar essa obra-prima e efeito causado no género feito pelo The Master) ou transgressores de “The Texas Chainsaw Massacre” e “Last House on the Left”, mas o resultado não soa a rip-off e traz muita frescura.

 

Sim, há aqui e ali umas reminiscências de “Halloween” (o original, claro), “The Faculty”, “A Nightmare on Elm Street” (o original, claro), “It”, “It Follows” (outra lufada renovadora no campo do teen slasher) e a emblemática série “Stranger Things” (ela também renovadora e uma inteligente combinação de muitos géneros e influências).

 

Sim, é certo que não temos uma elevada presença de cinefilia nerd ou o filme a saber homenagear e rir-se do género (não estamos numa abordagem à Kevin Williamson como ele fez em “Scream”).

Sim, é certo que temos lá alguns elementos desnecessários (o preto idiota) e obrigatórios nos tempos de tolerância de hoje (o casal lésbico).

E sim, temos o que se dispensa – (alguns) personagens idiotas em atitudes mais idiotas ainda.

Mas sente-se bravura e frescura em todo o filme, embora se perceba que nada de revolucionário está a ser feito.

Atenção ao prólogo a evocar/homenagear o de “Scream”.

Qualidade na fotografia, a ter alguns momentos cromáticos a recordar o Giallo.

Bons efeitos gore (atenção ao momento em que uma cabeça entra no cortador de pão).

Boa banda sonora.

Elenco em sintonia entre si e em capaz performance, conseguindo criar uma excelente dinâmica de grupo.

Leigh Janiak mostra paixão pelo género e pode ser um bom valor em tal.

Cria um ritmo non-stop de peripécias e o poder de susto e tensão sempre ao rubro (depois da ida ao hospital, apertem os cintos).

Um reinventar do teen slasher que muito se saúda (e se necessitava).

Quase que se pode ver aqui o equivalente para este tempo ao que foi “Scream” na sua era.

 

“Fear Street – Part 1: 1994” está disponível via Netflix.

Realizadora: Leigh Janiak

Argumentistas: Kyle Killen, Phil Graziadei, Leigh Janiak, a partir dos romances de R.L. Stine

Elenco: Maya Hawke, Ashley Zukerman, Kiana Madeira, Benjamin Flores Jr., Julia Rehwaldm Fred Hechinger, Olivia Scott Welch, Elizabeth Scopel, Jordana Spiro, Kevin Waterman, Gillian Jacobs, Matthew Zuk, Charlene Amoia

 

Site – https://www.netflix.com/pt/title/81325689

 

Leigh Janiak inspirou-se em muitas das suas experiências como adolescente nos 90s.

 

Na cena inicial vê-se uma prateleira com livros de um certo Robert Lawrence. R.L. Stine é Robert Lawrence Stine.

O visual do Skull Face deriva de “Halloween Night II” de R.L. Stine.

 

 

Rua do Medo – Parte 2: 1978 (2021)

 

Título original – Fear Street – Part 2: 1978

 

E assim continuamos na saga.

Ou melhor, recuamos, para melhor compreendermos um pormenor da Part 1.

 

Shadyside, 1978.

Um grupo de jovens vai para um summer camp.

Mas eis que começam a ocorrer uns assassinatos movidos por elementos do grupo, que parecem estar a enlouquecer.

Que se passa?

Estamos mesmo em espírito de continuidade (até conhecemos as versões mais jovens de personagens que conhecemos adultos na Part 1) e explicações.

Mantém-se o tom e a energia, tendo-se um teen slasher de grande nível, agora na variante da acção se passar num summer camp.

 

Claro que se vê aqui uma derivação (bem inteligente, diga-se) do original “Friday the 13th”, mas tal não lhe retira personalidade.

A componente de bruxaria continua, agora com mais explicações face ao episódio anterior.

Elogia-se o reparo de alguns erros da Part 1 – alguns personagens idiotas e atitudes idiotas (aliás, e como castigo, esses são logo os primeiros a ser despachados).

 

E faz-se de todo aquele terror uma love story entre duas irmãs.

Bons efeitos gore (atenção à primeira machadada).

Boa banda sonora.

Elenco em boa sintonia e honesta performance.

Leigh Janiak cria boa atmosfera e mete o prego a fundo desde muito cedo (bem mais cedo do que na Part 1).

Sequela (bom, é mais prequela) de grande nível, que mantém a saga plena de vitalidade.

Venha a Part 3 para concluir. E só se espera o melhor.

 

“Fear Street – Part 2: 1978” está disponível via Netflix.

Realizadora: Leigh Janiak

Argumentistas: Zak Olkewicz, Leigh Janiak, Phil Graziadei, a partir dos romances de R.L. Stine

Elenco: Gillian Jacobs, Matthew Zuk, Kiana Madeira, Benjamin Flores Jr., Olivia Scott Welch, Sadie Sink, Brandon Spink, Chiara Aurelia, Marcelle LeBlanc, Eden Campbell, Ted Sutherland, Emily Rudd, McCabe Slye, Ryan Simpkins, Jordana Spiro, Jeremy Ford, Fred Hechinger, Elizabeth Scopel

 

Site – https://www.netflix.com/pt/title/81334749

 

É o segundo capítulo da saga, mas foi o último a ser filmado.

 

O “Camp Nightwing” refere-se ao campo do livro “Lights Out”.

Várias referências a David Bowie – ouvem-se as canções “The Man Who Sold the World” e “Space Oddity”, o cão tem o nome de Major Tom (o protagonista de “Space Oddity”), há um personagem chamada Ziggy (referência a “Ziggy Stardust”).

Os criadores da música Marco Beltrami e Brandon Roberts homenageiam scores de clássico do terror – “The Omen” (a leitura do livro), “Alien” (a descoberta do ninho, na caverna), “Friday the 13th” (Ziggy caída no campo).

 

 

 

Rua do Medo – Parte 3: 1666 (2021)

 

Título original – Fear Street – Part 3: 1666

 

E assim se conclui a trilogia.

Agora com todas as respostas e soluções.

 

Estamos em 1666, numa pequena povoação.

Sarah Fier é uma jovem dedicada e bem vista na comunidade.

Mas devido a um estranho evento, Sarah vê-se acusada de bruxaria e condenada.

Mas ela jura vingança.

Era o capítulo que faltava, para assim se compreender todos os porquês e ter-se uma resolução definitiva para a Part 1.

 

Assim sendo, esta Part 3 é misto de prequela dos episódios anteriores e sequela a ambos.

Saímos do campo do teen slasher e entramos no campo do terror satânico, nos tais ambientes de bruxaria que tanto se evocou nas Part 1 e Part 2.

 

Resulta bem a abordagem paranóica à volta do Mal, do satanismo e bruxaria, mas a justificação para tudo mais parece um panfleto de tolerância ao lesbianismo (uma área por onde muitas séries de streaming se movem na actualidade).

 

Tal não faz o filme descambar totalmente, mas acaba por ser leitmotiv algo tosco.

 

Felizmente que a explicação faz um twist, bem engendrado e que nos leva a rever as Part 1 e Part 2 por outro prisma.

E quando o filme entra na actualidade, reencontra-se com o seu melhor das Parts anteriores e mete prego a fundo em matéria de sustos e peripécias.

Boa reconstrução de época.

Música adequada.

 

Leigh Janiak volta a criar boa atmosfera, conseguindo dividir o filme em duas partes distintas – uma primeira mais assente em medo e paranóia, sem desfile de gore e peripécias assustadoras, mas com a segunda a ser bem dinâmica.

 

Decisão inteligente de ter o elenco dos dois episódios anteriores em cena (mas em personagens diferentes).

Mantém-se a performance correcta e a boa sintonia. Na primeira metade, a sintonia é diferente dado o tipo de personagens, relações e eventos.

Conclusão correcta (ainda que não isenta de uns errozitos) para uma trilogia Teen Slasher bem marcante, renovadora, refrescante e energética no género.

 

“Fear Street – Part 3: 1666” está disponível via Netflix.

Realizadora: Leigh Janiak

Argumentistas: Phil Graziadei, Leigh Janiak, Kate Trefry, a partir dos romances de R.L. Stine

Elenco: Kiana Madeira, Elizabeth Scopel, Benjamin Flores Jr., Randy Havens, Julia Rehwald, Matthew Zuk, Fred Hechinger, Michael Chandler, Sadie Sink, Emily Rudd, Olivia Scott Welch, McCabe Slye, Ashley Zukerman, Jordana Spiro, Jeremy Ford, Charlene Amoia, Mark Ashworth, Ryan Simpkins, Gillian Jacobs

 

Site – https://www.netflix.com/pt/title/81334750

 

É o terceiro capítulo da saga, mas foi o segundo a ser filmado.

 

Num momento, uma personagem mostra vários livros pendurados no peito – são muitos da saga “Fear Street”.

 

R.L. Stine visitou o set nas filmagens.

 

 

“Fear Street” não marca pontos pela inovação (nisso, outros títulos que chegaram primeiro foram mais certeiros), mas isso não era pedido.

Mas o que saga consegue é, de facto, uma capacidade de renovação, plena de criatividade e paixão, qualidade técnica e narrativa, bom nível nas interpretações e realização, com personagens que nos cativam e nos fazem preocupar, sendo estes e as suas emoções e relações mais importantes que os (muitos e bons) sustos dados e vividos.

Marca (muitos e bons) pontos em tudo isso, obriga a concorrência a ter atenção e mudar algumas das suas regras e formas, e pode mexer no movie business à sua volta dentro do género (Jason Blum, fica atento).

 

E o tempo dirá se “Fear Street” se torna um clássico. É bem possível que sim.

 

Sobre R.L. Stine

http://rlstine.com/

https://www.goodreads.com/author/show/13730.R_L_Stine

https://www.bbc.com/news/newsbeat-57663046

 

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