O Falcão Ataca de Novo (1991)

 

Título original – Hudson Hawk

 

No Verão de 1991, este foi o “bombo de festa”.

Arrasado pela crítica (mesmo antes do filme estrear), ignorado pelo público (foi um enorme flop nas bilheteiras) e premiado nos Razzies.

Mas o filme é assim tão mau? N Ã O.

30 anos depois, vamos devolver a este simpático larápio a sua honra roubada.

 

Eddie “Hudson Hawk” Hawkins é um hábil larápio, a terminar a sua pena de prisão, disposto a levar uma vida honesta.

A pressão e chantagem de uns antigos rivais e inimigos, leva Hawk e o seu amigo Tommy “Five Tone” a roubar umas peças que permitem recriar uma antiga máquina de Leonardo da Vinci.

O objectivo do uso de tal engenho é criar o caos financeiro no mundo.

Hawk, Tommy e uma misteriosa agente do Vaticano vão enfrentar uma série de vilões e interesses.

Pegando-se no género heist movie, usa-se tal como desculpa para seguir um modelo de burlesco, non-sense, sentido narrativo anárquico, com algo de acção pelo meio.

Há o esforço (bem cinéfilo, diga-se) de ser procurar recriar um certo modelo de comédia de grande espectáculo como se fazia nos 60s, do burlesco mudo 20s e o non-sense 70s e 80s, bem como todo o tom e ritmo de um cartoon digno de Tex Avery ou Chuck Jones.

Ainda se goza a CIA (com a ideia de pegar em putos que nada percebem sobre História e Mundo), com arquétipos da saga 007 (os vilões, o seu plano, o henchman), mas acima de tudo goza-se (abertamente) com o actioner e as suas convenções (algo que “Last Action Hero” também faria dois anos depois – sendo também massacrado pela crítica e nas bilheteiras).

Inteligente, divertido e original resulta o uso de canções como cronómetro nos assaltos, o que remete tais momentos ligeiramente para o musical.

Bons meios de produção.

Por lá anda a bela fotografia de Dante Spinotti e os miniature effects de Derek Meddings (“Space:1999”).

Michael Lehman vinha do prestígio ganho por “Heathers” (1989, uma conseguida comédia negra, que faz um twist perverso às comédias teen da época, principalmente às de John Hughes).

Mas isso não significa que Lehman tenha a devida destreza visual e cinematográfica para um projecto desta envergadura, onde tanto estava pretendido e tantos eram os ingredientes.

Dirige com eficácia, não cai no mau gosto ou estupidez, dá ritmo e algum espectáculo, mas percebe-se que não tem o poder que o filme exige.

John Landis ou Joe Dante davam jeito aqui, em vez de um realizador meramente tarefeiro, ainda que profissional.

O elenco é majestoso.

Todos percebem em que tipo de filme estão e divertem-se com tal.

Bruce Willis (ainda na fase em que mostrava que tinha gosto em representar) confirma todos os seus dotes de comediante, Danny Aiello dá-lhe boa réplica e cria boa sintonia, Sandra Bernhard e Richard E. Grant partem a loiça toda como vilões. Donald Burton cria um  henchman verdadeiramente bondiano. James Coburn brinca com a sua virilidade heróica. Andie MacDowell é sempre um belo e feliz sorriso.

Uma sucessão louca e non-stop de acção e humor, cuja anarquia surgiu muito avant garde, num filme que se ri constantemente de si próprio e de vários géneros.

 

Obrigatório.

 

“Hudson Hawk” não tem edição portuguesa. Existe noutros mercados a bom preço.

Realizador: Michael Lehmann

Argumentistas: Bruce Willis, Robert Kraft, Steven E. de Souza, Daniel Waters

Elenco: Bruce Willis, Danny Aiello, Andie MacDowell, James Coburn, Richard E. Grant, Sandra Bernhard, Donald Burton, Don Harvey, David Caruso, Andrew Bryniarski, Lorraine Toussaint, Burtt Harris, Frank Stallone, Carmine Zozzora

 

Trailer

 

Clips

 

Bruce Willis e Robert Kraft sobre “Hudson Hawk”

 

Orçamento – 65 milhões de Dólares

Bilheteira – 17 milhões de Dólares (USA); 97 (mundial)

 

Nomeado para “Pior Filme da Década”, nos Razzie 2000. Perdeu para “Showgirls” (não exageremos – quer num caso, quer no outro).

“Pior Filme”, “Pior Realizador”, “Pior Argumento”, nos Razzie 1992. Bruce Willis esteve nomeado para “Pior Actor” (Kevin Costner foi o eleito, por “Robin Hood: Prince of Thieves”), Richard E. Grant ia ser o “Pior Actor Secundário” (Dan Aykroyd foi preferido por “Nothing But Trouble”), Sandra Bernhard queria a “Pior Actriz Secundária” (Sean Young foi escolhida por “A Kiss Before Dying”). Muito exagero nestes prémios e nomeações, pois havia bem pior nesse ano.

Nomeado para “Pior Filme”, nos The Stinkers Bad Movie 1991. “Nothing But Trouble” foi o preferido.

Robert Kraft conheceu Bruce Willis durante um concerto, num nightclub em Greenwich Village. Willis, sentado na audiência, começou a tocar harmónica. Kraft chamou-o ao palco e surgiu uma boa amizade entre ambos.

Kraft criou a canção “The Hudson Hawk”. Willis viu nela potencial para uma história para um filme.

 

Willis reconhece que o argumento rouba ideias de muitos filmes.

Em versões prévias do argumento, o terceiro acto passava-se no Kremlin.

 

Danny Aiello era a escolha preferida de Willis para Tommy. Danny e Bruce já se conheciam há muitos anos e queriam trabalhar juntos.

Michael Lehmann foi escolhido por Willis e Joel Silver, pois ambos gostaram de “Heathers”.

A personagem Minerva Mayflower não constava do argumento. Lehmann sugeriu a personagem e Audrey Hepburn para a interpretar. As negociações com a actriz não avançaram.

Joss Ackland foi considerado como Darwin Mayflower.

Willis procurou Famke Janssen, depois de a ver num spot comercial. Famke ainda fez uma audition, mas não foi escolhida. Mas ambos trabalhariam juntos em “Once Upon a Time in Venice” (2017).

Isabella Rossellini ia ser Anna Baragli. Mas com os atrasos no começo das filmagens, a actriz teve de sair para começar outros projectos já agendados. Maruschka Detmers foi então escolhida como substituta, mas saiu ao fim de uns dias de filmagens, devido a dores nas costas. Andie MacDowell foi então convocada.

Jost Vacano era o director of photography inicial. Mas com os atrasos no começo das filmagens, Vacano saiu. Dante Spinotti foi escolhido como substituto.

 

Reencontro entre Joel Silver (produtor) e Bruce Willis (actor), depois de “Die Hard” (1988) e “Die Hard 2” (1990). Reencontra-se-iam em “The Last Boy Scout” (1991).

Reencontro entre Michael Lehmann (realizador) e Daniel Waters (argumentista), depois de “Heathers” (1989).

Reencontro entre Michael Kamen (músico) e Joel Silver (produtor), depois de “Lethal Weapon” (1987) e “Lethal Weapon 2” (1989), “Die Hard” (1988) e “Die Hard 2” (1990), “Action Jackson” (1988), “Road House” (1989). Ainda se cruzariam para “The Last Boy Scout” (1991), “Lethal Weapon 3” (1992) e “Lethal Weapon 4” (1997).

 

Filmado em Nova Iorque, Roma, Londres, Los Angeles e Budapeste.

O argumento tinha todos os dias novas alterações, com Willis a trazer novas ideias.

O filme procurava homenagear as comédias com Bing Crosby e Bob Hope, feitas nos 40’s e 50’s.

Richard E. Grant e Sandra Bernhard deram-se muito bem e ainda hoje são amigos.

Bruce Willis e Michael Lehmann tiveram muitos conflitos criativos.

O som das algemas vem dos filmes da saga “Flint”, protagonizada por James Coburn.

Coburn interpreta um agente com nome de George Kaplan. E o mesmo nome do agente secreto (falso) de “North by Northwest” (1959).

Os agentes de Kaplan têm nomes derivados de doces e barras de cereais – Almond Joy, Butterfinger, Kit Kat e Snickers.

A cena da Brooklyn Bridge foi filmada on location, de noite. Muitos habitantes da cidade estavam presentes.

A voice over é de William Conrad. Esta seria a sua última participação num filme.

Foi o último filme da TriStar Pictures, enquanto autónoma. Depois juntar-se-ia à Columbia Pictures. Dado o flop do filme, a Sony teve de re$gatar a Tristar. Tristar, Columbia, depois com United Artists, MGM e Sony, formaram a Sony Pictures Entertainment. Mas já tudo mudou com a compra recente da MGM/United Artists pela Amazon.

 

Acredita-se que uma possível explicação para o flop foi a forma errada como o estúdio promoveu o filme. Fê-lo como se ele fosse um actioner (aproveitando o facto de Bruce Willis vir dos dois tremendos blockbusters do género que foram “Die Hard” e “Die Hard 2”, em 1988 e 1990) e não uma comédia.

O mercado doméstico foi generoso, com o filme a conseguir ser rentabilizado.

O tempo deu um pequeno estatuto de cult movie ao filme.

 

Até hoje, é o único filme de Bruce Willis onde ele tem o crédito no argumento.

Na época de promoção a “12 Monkeys” (1995), Willis afirmou que gostaria de viajar no Tempo e evitar que “Hudson Hawk” avançasse na produção.

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