O Ladrão de Bagdad (1940)

Título original – The Thief of Bagdad

Os contos de “As Mil e Uma Noites” são de eterno fascínio para a imaginação.

Para o Cinema também.

As peripécias deste ladrão já tinham inspirado um grande momento de Cinema de aventura e fantasia, com um grande Douglas Fairbanks. Foi em 1924 (já visto aqui).

Com a vantagem da cor, do som e das melhorias em efeitos visuais, eis uma nova versão.

Com produção de Alexander Korda.

 –

Bagdad.

Ahmad é o herdeiro do trono. Mas devido a um acto de traição de Jaffar, vê-se abandonado como um vagabundo.

Com a ajuda de Abu, um ladrão de rua, Ahmad procura reclamar o trono, salvar o reino e resgatar a sua amada.

É um lindo conto de “As Mil e Uma Noites”.

A adaptação muda com Douglas Fairbanks já era um esplendor visual.

Mas agora, com mais e melhores meios, e com o extra da cor, esta história ganha o poder visual que merece.

Estamos perante um belíssimo (a nível visual, emocional, humano) título do género, apostando tudo o que de melhor a tecnologia e arte cinematográfica têm para ilustrar todo o esplendor que a história permite, deixando o espectador em constante pasmo.

Temos fantasia, romance, acção, aventura, exotismo, tudo seguindo os pergaminhos clássicos do(s) género(s), em hábil e perfeita combinação.

Prodígio total na cenografia, fotografia, guarda-roupa, efeitos visuais, matte paintings.

Do primeiro ao último segundo sentimo-nos dentro de outro mundo, de um sonho, de uma fantasia, sendo cada um de nós não apenas espectador mas também personagem a viver todos aqueles acontecimentos.

Realização a várias mãos, mas isso em nada enfraquece o filme.

Ritmo vivo sem ser precipitado. Muitos eventos, mas todos coesos e bem ligados.

Bom elenco, em generosa prestação.

Conrad Veidt é sempre perfeito como vilão mesquinho e tenebroso.

Sabu era sempre querido, simpático, divertido, dedicado. E ficava sempre bem neste géneros e ambientes.

John Justin empenha-se e é honesto, embora se sinta a falta de Jon Hall ou Errol Flynn.

June Duprez é um autêntico sonho oriental.

É certo que o filme pede Jon Hall & Maria Montez, ou Errol Flynn & Olivia de Havilland, mas Justin & Duprez tomam bem conta do recado.

Um monumento de fantasia, espectáculo e poder de sonho, que ainda hoje é exemplar e referência.

Obrigatório.

“The Thief of Bagdad” não tem edição portuguesa. Existe noutros mercados a bom preço.

“The Thief of Bagdad” tem (imensos) méritos por si.

Mas é um remake.

Vamos ver como se mede face ao original de 1924:

  • Argumento – ambos seguem opções diferentes, ainda que com o mesmo objectivo (salvar a donzela); elogia-se o remake por seguir variantes novas e muito interessantes, que reforçam o drama do “herói”, criando mais personagens e dando-lhes atenção e relevância (o original centra-se apenas no ladrão).
  • Realização – viva em ambos, nunca parando de dar espectáculo e ritmo; Raoul Walsh (o realizador do original) era um mestre para action, mais do que qualquer um dos realizadores do remake.
  • Elenco – o original deixa 90% dos eventos no protagonismo de Douglas Fairbanks, actor de uma incrível destreza física e de grande carisma face à câmara, dando pouco ênfase a vilões (que praticamente não existem, são mais rivais sentimentais) e à donzela; o remake tem Sabu (que é sempre perfeito nestas lides) e envolve mais personagens (o vilão é fabuloso), com forte presença da donzela e do seu amado; é certo que John Justin nada pode contra Fairbanks, mas Sabu consegue ser um óptimo rival para essa lenda do mudo; a vilanagem de Veidt e a beleza de Duprez ajudam neste embate.
  • Visual – esplendoroso em ambos (não estamos em tempos de CGI, portanto tudo é real), com sets impressionantes, um admirável trabalho de efeitos visuais e uns matte paintings maravilhosos; o efeito COR no remake é decisivo, pois estamos num género e ambientes que muito têm a ganhar com tal.

Resultado? É quase um empate. O original foi o que começou e há a destreza que Douglas Fairbanks que é quase insuperável (até que apareceu Errol Flynn).

Mas o remake ataca com Sabu e a sua destreza e simpatia igualmente ímpares (ele nunca teve rival), a beleza fascinante de June Duprez, os efeitos visuais mais avançados (como é óbvio) e, claro, a COR, algo que realça todo o imponente poder visual do filme.

Assim sendo, vitória de “The Thief of Bagdad – versão 1940”.

Mas atenção, o original de 1924 merece (e muito) a visão e (re)descoberta.

Realizadores: Michael Powell, Ludwig Berger, Tim Whelan, Alexander Korda (sem crédito), Zoltan Korda (sem crédito), William Cameron Menzies (sem crédito)

Argumentistas: Miles Malleson, Lajos Biró, Miklós Rózsa

Elenco: Conrad Veidt, Sabu, June Duprez, John Justin, Rex Ingram

Trailer

Clips

Temas de Miklos Rozsa

Bilheteira – 1 milhão de Dólares (USA); 5 milhões de espectadores (França)

“Melhor Fotografia – Cor”, “Melhor Cenografia – Cor”, “Melhores Efeitos Especiais”, nos Oscars 1941. Esteve nomeado para “Melhor Música” (perdeu para “Pinocchio”).

Nomeado para “Melhor Produção Dramática – Longa-Metragem”, nos Hugo 1941. Perdeu para “Fantasia”.

Nomeado para “Melhor Filme”, em Veneza 1946. Perdeu para “The Southerner”, de Jean Renoir.

Música de Miklós Rózsa.

Montagem de Charles Crichton (futuro grande nome da british comedy nos 40s e 50s).

Cenografia de Vincent Korda.

Os direitos da história pertenciam a Douglas Fairbanks. Alexander Korda teve de negociar bem a produção desta nova nova versão.

A certo momento, ponderou-se a possibilidade do filme ser um musical. Três canções são ouvidas no filme, mas existiram letras para muitas mais.

Vivien Leigh era a favorita como Princesa. Mas ao ser eleita para “Gone With the Wind” (1939), Alexander Korda deu preferência a June Duprez, uma actriz ainda em ascensão.

Henry Fonda foi pensado como Jaffar.

A. Korda queria Jon Hall (que faria uma maravilhosa parceria com Maria Montez, em muitos filmes de aventura e fantasia – dois deles derivavam de “As Mil e Uma Noites”, sendo “Arabian Nights” e “Ali-Baba and the 40 Thieves” – 1942 e 1944) como Ahmad. Hall teve de recusar devido ao começo do seu contrato com a Universal.

Primeiro filme de John Justin (foi escolhido pela sua semelhança com Hall).

William Cameron Menzies já tinha sido o cenógrafo na versão com Douglas Fairbanks.

Ludwig Berger foi o primeiro realizador e ele seleccionou o seu amigo, o compositor Oscar Straus, para compor a música. Mas as opções musicais de Miklós Rózsa foram consideradas mais adequadas ao filme.

Berger cedo entrou em conflito criativo com A. Korda por causa do tom do filme. Berger queria uma fantasia lírica a P&B, Korda queria um épico a cores. Vincent Korda já tinha feito vários storyboards a cores.

Michael Powell realizou a cena do génio, na Cornualha.

Tim Whelan filmou as cenas de acção.

Menzies e os Korda terminaram as filmagens.

Começou a ser filmado em Inglaterra, mas devido à guerra as filmagens mudaram para Hollywood. Sabu já tinha crescido um pouco com estes atrasos e muita da sua footage já filmada teve de ser filmada novamente.

As filmagens em Hollywood meteram em acção o código Hays. Como tal, as meninas não podiam andar muito decotadas.

A. Korda queria filmar algumas cenas em África. Mas devido à guerra, tal ficou cancelado e as filmagens tiveram de se adaptar – recorreu-se ao Arizona.

Powell e muita da sua equipa teve de abandonar a produção quando esta se mudou para Hollywood. A. Korda tinha prometido a Winston Churchill que este disporia de bons profissionais para criação de filmes-propaganda.

Devido aos atrasos e mudança de locais de filmagens, o filme teve um aumento do orçamento.

Segundo Powell, as filmagens começaram sem um guião final. Este ia sendo elaborado à medida da evolução das filmagens.

É o primeiro filme a recorrer ao blue screen.

O filme usa um novo método, denominado chroma key, para substituição do denominado traveling matte. Era o método para se filmar os actores e cenários de fundo e fazer uma clara separação visual.

Os cavaleiros que libertam o mercado na chegada da Princesa eram interpretados por mulheres. Naqueles tempos era difícil encontrar homens como extras, pois muitos estavam mobilizados nas forças armadas.

Cameo de Miles Malleson (um dos argumentistas) – o Sultão de Basra.

O filme foi um grande sucesso nos USA e na Europa. Foi o maior sucesso de Alexander Korda nos USA.

“Aladdin” (a animação da Disney) é muito influenciado por “The Thief of Bagdad”.

O jogo “The Prince of Persia” também recorre a muitas influência de “The Thief of Bagdad”.

Está na lista “Great Movies” de Roger Ebert.

É o filme preferido de Francis Ford Coppola.

Martin Scorsese é um grande fã do filme.

Scorsese e Coppola fazem um comentário ao filme na edição da “Criterion Collection”.

3 comments on “O Ladrão de Bagdad (1940)

  1. […] em 1940 (já aqui vista), com o mesmo título, realizado por Ludwig Berger, Michael Powell, Tim Whelan, Alexander […]

  2. Oscar Padilha da Fonte diz:

    O ladrão de Bagdad de 1940, foi o primeiro filme que assisti na minha vida.Foi quando eu tinha 7 anos, no cinema Art-Palacio, no Recife. Hoje quase 80 anos depois, toda vez que revejo esse filme, é um novo encanto. É verdadeiramente um filme Inesquecível.SABU, está insuperável, com uma atuação soberba, ninguém poderia substituí lo. John Justin, o rei Ahmed, em sua estreia no cinema, está muito bem.June Duprez é só beleza.Conrad Veidt, como o vilão jaffar, como sempre, um grande ator e os efeitos especiais em sua maioria surpreendem, principalmente no ano de sua produção, 1940.Nota 10.RECOMENDO. INESQUECIVEL.

    • hussardo diz:

      É, de facto, o filme da infância de muita gente e que nos faz regressar à infância.
      Um modelo de produção e de Cinema de aventura, fantasia e escapismo como já não se faz.
      Pena.
      Mas ficam (eternamente) clássicos destes.

      Obrigado pela visita e comentário.

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