Arabesco (1966)

 

 Título original – Arabesque

 

“Charade” (1963) foi tão bem sucedido, que Stanley Donen resolveu tentar refazê-lo, aqui e ali com uma variante.

Novamente com um par de sonho, charme e elegância.

 

David Pollock é um prestigiado perito em hieróglifos árabes.

É procurado por um milionário para decifrar o que é dito num arabesco encontrado. O professor logo descobre que tal é alvo de muita gente interessada, disposta a tudo, até matar.

Mas alguma ajuda parece vir da sensual e misteriosa Yasmin Azir.

Mas com tantas voltas e reviravoltas, traições e suspeitas, em quem confiar?

Talvez seja um remake (não assumido) ou um ripoff (descarado) de “Charade”.

Talvez tenha muito de dejá vu face a essa pérola de comédia e mistério com Cary Grant e Audrey Hepburn.

Talvez se limite a baralhar e dar de novo (se no “original”, era a mulher a vítima da alhada e o homem cheio de mistérios, aqui é o homem que fica metido em sarilhos e a mulher é plena de surpresas).

Mas nada disso interessa.

“Arabesque” nada tem de indecifrável.

É um grande entretenimento, rocambolesco, imparável, dinâmico, divertido, elegante e sempre a surpreender o espectador com todos os twists & turns da narrativa (mais do que os “Charade”, mas não tão  surpreendentes, OK? – aliás, a certa altura o argumento parece ser mais as reviravoltas à volta de personagens do que os eventos, ou mesmo o rumo destes face às surpresas).

Por contraste a “Charade” (onde se privilegiava a intriga), “Arabesque” é mais actioner.

Só faltou mesmo (pois era isso que existia em “Charade”) um vilão mais ardiloso e assustador (o que fica é bem refinado, na melhor tradição do vilão jamesbondesque), bem como o factor surpresa na sua identidade (desde cedo sabemos logo quem é o main villain).

Bom luxo na produção – a fotografia (que muito sai beneficiada no master recente), cenografia (a casa do milionário árabe), o belo guarda-roupa feminino é de Christian Dior (tal como em “Charade”, a presença de um relevante costureiro), a música de Henry Mancini (“The Pink Panther”, também vindo de “Charade”) cria mistério e elegância, o genérico inicial é da autoria de Maurice Binder (que criou muitos da saga 007, tabém vindo de “Charade”).

Gregory Peck sai-se muito bem como o indivíduo circunspecto metido em circunstâncias que não consegue controlar, conseguindo meter o mais descontraído humor no meio da action & suspense, antecipando assim o tom que Roger Moore daria a James Bond.

Sophia Loren está lindíssima, avassaladora (atenção à sua entrada em cena), quente (ela a experimentar sapatos) e dominadora (a forma como tenta dissuadir uma sentinela).

A química entre os dois é muito boa.

Stanley Donen diverte-se e diverte-nos.

Um excelente cocktail de acção, aventura, intriga, mistério, thriller conspirativo, comédia e romance.

Um clássico do género, ainda que ligeiramente inferior ao filme que o inspira.

 

Obrigatório.

 

“Arabesque” tem edição portuguesa e anda a bom preço.

Realizador: Stanley Donen

Argumentistas: Julian Mitchell, Stanley Price, Peter Stone (como Pierre Marton), a partir do romance de Gordon Cotler (“The Cypher”)

Elenco: Gregory Peck, Sophia Loren, Alan Badel, Kieron Moore , Carl Duering, John Merivale

 

Trailer

 

Sophia Loren no filme

 

Main Theme de Henry Mancini

 

Orçamento – 4.8 milhões de Dólares

Mercado doméstico –  5.8 milhões de Dólares

 

“Melhor- Fotografia”, nos BAFTA 1967.

“Melhor Actriz – Internacional”, nos Prémios Bambi 1967.

Henry Mancini esteve nomeado para “Melhor Música para Filme”, nos Grammy 1967. Perdeu para Maurice Jarre com “Doctor Zhivago”.

Gregory Peck esteve nomeado para melhor “Action Performance”, nos Prémios Laurel 1967. A seu lado gente ilustre – Sidney Poitier (“Duel at Diablo”), James Coburn (“In Like Flint”), Dean Martin (“Matt Helm: Murderers’ Row”). O vencedor foi Lee Marvin (por “The Professionals”).

O filme teve vários argumentistas, cada um a dar uma nova versão do argumento. Há o rumor que todos os dias o argumento era alvo de reescritas.

Segundo Stanley Donen, gastou-se cerca de 400.000 Dólares só com os argumentistas. Donen achou que cada nova reescrita só piorava o argumento. Christopher Challis (o director of photography) disse a Donen que o ideal seria fazer um filme visualmente apelativo para que o público não se apercebesse das incongruências narrativas.

Peter Stone  foi chamado para melhorar os diálogos. Stone era o argumentista de “Charade”, reencontrando-se assim com Donen.

 

Donen queria voltar a trabalhar com Cary Grant, depois de “Charade” (o que seria o reencontro entre Grant e Sophia Loren, depois de “The Pride and the Passion” e “Houseboat”). Grant recusou, pois não gostou do argumento.

Donen também pensou em recusar depois da recusa de Grant, mas adorou a ideia de trabalhar com Gregory Peck e Sophia Loren (entretanto já confirmados).

É o primeiro filme do prestigiado stuntman Vic Armstrong.

Working titles – “Crisscross” e “Cipher”.

Donen achou o argumento algo incompleto. Para compensar, filmou com ângulos e movimentos de câmara algo estranhos. Era a forma de Donen esconder do espectador algumas gafes narrativas, deixando que o espectador se distraísse com o estilo visual do filme.

O personagem de Gregory Peck foi escrito a pensar em Cary Grant (protagonista de “Charade”). Quando Peck se viu algo atrapalhado em conseguir ter piada ao dizer uma line, virou-se para Donen e pediu-lhe que ele não se esquecesse que Peck não era Grant (pois, de facto, assim é).

Sophia Loren chegou a pedir 20 pares de sapatos.

Donen teve um prazo de filmagens apertado, devido às agendas de Gregory Peck e Sophia Loren.

Peck tinha um problema muscular numa perna, devido a um acidente a andar a cavalo. Numa cena onde ambos correm, Peck chegou a pedir e Loren para que ela abrandasse o ritmo, senão parecia que era ela em socorro a ele (a cena pretendia traduzir exactamente o oposto).

Apesar de envolver árabes, nenhum actor do cast que os interpreta é dessa nacionalidade.

O filme tem um momento que envolve o deitar gotas nuns olhos. Esse momento foi oferecido à Divisão Oftalmológica da Escola Médica Johns Hopkins Medical, para efeitos de pesquisa.

Depois deste filme, Gregory Peck parou por três anos, para se dedicar a uma causa humanitária, de luta contra o cancro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s