Charada (1963)

 

Título original – Charade

 

Luxuoso e sedutor par numa comédia plena de enganos e mistérios.

Stanley Donen troca o musical pelo suspense, mas sabe como fazer “dançar” o espectador.

 

Regina Lampert é uma ilustre Lady da high society.

Tudo muda para ela quando sabe da morte do seu marido. Pior ainda, é quando Regina se vê perseguida por três antigos sócios do seu falecido marido, que reclamam uma parte de uma vasta fortuna.

Peter Joshua é um elegante desconhecido que lhe surge para ajudar.

Mas em quem é que Regina pode confiar?

Um dinâmico e elegante cocktail de comédia, drama, suspense, intriga, suspense e mistério, pleno de voltas e reviravoltas, com muitas surpresas à volta de todos os personagens em cena.

Ritmo vivo, que nunca dá sossego à protagonista e ao espectador.

A narrativa é uma permanente charada, onde estamos sempre em dúvida perante o que se passa e quem é quem.

Os diversos twists (surge um por quase cada 10 minutos) são divertidos e imaginativos, nunca caindo no forçado, sendo sempre lógicos.

Aos personagens (e espectador) fica a constante pergunta – onde está o dinheiro?

A solução é engenhosa e criativa, surgindo quase no fim. É mais um ardiloso pormenor narrativo que assegura o interesse do espectador e reforça a boa organização narrativa.

Excelente fotografia e um deslumbrante guarda-roupa (de Givenchy).

Envolvente e misteriosa música de Henry Mancini (“The Pink Panther”).

Stanley Donen dirige com ritmo, estilo e elegância, fazendo um bailado de surpresas, suspense e diversão.

Cary Grant e Audrey Hepburn estão em topo de forma e exibem uma química perfeita e cintilante (quando se encontram pela primeira vez, o reencontro no apartamento, o momento com o gelado, os momentos no quarto), mostrando porque tinham mesmo de trabalhar juntos um dia (pena que não tivessem havido mais).

Ele está pleno de charme (o momento no barco) e ironia (quando enfrenta os vilões), sempre com destreza nos momentos embaraçosos (a sua dificuldade quando tenta segurar uma laranja no peito de uma senhora… avantajada; o seu comportamento no chuveiro), sabendo criar uma enorme ambiguidade na sua atitude (já não víamos Grant tão dúbio desde o magnífico “Suspicion” de Hitchcock).

Grant mostra o quanto poderia ser um excelente James Bond (e chegou-se a falar dele para tal).

Ela está plena de sofisticação e glamour, sendo um constante ícone fashion, de surpreendente avanço romântico-sexual (a sua movimentação sedutora face a Grant).

Walter Matthau, James Coburn e George Kennedy conseguem ser enigmáticos e inquietantes.

Um filme admirável, que está sempre a enganar o espectador, divertindo-o com tal.

 

Uma joia do género.

 

Obrigatório.

 

“Charade” tem edição portuguesa e o seu preço anda “simples”.

Realizador: Stanley Donen

Argumentistas: Peter Stone, Marc Behm

Elenco: Cary Grant, Audrey Hepburn, Walter Matthau, James Coburn, George Kennedy, Dominique Minot, Ned Glass, Jacques Marin, Thomas Chelimsky

 

Trailer

 

O genérico

 

Clips

 

Filme

 

Main Theme de Henry Mancini

 

Orçamento – 3 milhões de Dólares

Bilheteira – 13.4 milhões de Dólares

 

Audrey Hepburn esteve nomeada como “Melhor Actriz – Comédia ou Musical”, nos Globos de Ouro 1964. Perdeu para Shirley MacLaine em “Irma la Douce”. Cary Grant esteve nomeado como “Melhor Actor – Comédia ou Musical”. Perdeu para Alberto Sordi em “Il Diavolo”.

Audrey Hepburn foi a “Melhor Actriz Britânica”, nos BAFTA 1965. Cary Grant concorreu a “Melhor Actor Estrangeiro”, mas perdeu para Marcello Mastroianni em “Ieri, Oggi, Domani”.

“Melhor Contribuição Artística”, nos David di Donatello 1964.

“Melhor Filme”, nos Edgar Allan Poe 1964.

Tentou ser “Melhor Comédia” nos Laurel 1964, mas perdeu para “Tom Jones”. Cary Grant tentou “Melhor Actor – Comédia”, mas perdeu para Jack Lemmon em “Irma la Douce”. Audrey Hepburn tentou “Melhor Actriz – Comédia”, mas perdeu para Shirley MacLaine em “Irma la Douce”.

Peter Stone concorreu a “Melhor Argumento – Comédia”, pelo Writers Guild of America 1964, mas James Poe foi preferido por “Lilies of the Field”.

Peter Stone viu o seu argumento (com o título “The Unsuspecting Wife”) rejeitado por 7 estúdios. Stone transformou o argumento em livro (com o título “Charade”). Este despertou o interesse dos… 7 estúdios em causa.

Cary Grant recusou fazer o filme, inicialmente. Com tal decisão, o estúdio ponderou ter como protagonistas Warren Beatty e Natalie Wood (os dois já tinham cativado o público em “Splendor in the Grass” – 1961, de Elia Kazan).

Cary Grant tinha 59 anos.

Audrey Hepburn tinha 34 anos.

Grant estava preocupado com a credibilidade que o argumento daria a um love affair entre um homem de quase 60 anos e uma mulher no início dos seus 30. Os argumentistas resolveram isso ao fazer com que fosse a mulher a perseguir o homem e não o contrário.

Hepburn filmou “Charade” em paralelo com “When Paris Sizzles” (1964, ao lado de William Holden).

O nome do personagem Peter Joshua vem dos dois filhos de Stanley Donen – Peter e Joshua.

Na cena do nightclub, Mel Ferrer (então marido de Audrey Hepburn) pode ser visto no fundo, a fumar.

A cena em que Regina derrama gelado no casaco de Peter baseia-se num evento real entre Audrey e Cary – ela deixou cair vinho tinto no fato dele, durante um jantar de gala.

Nessa cena, Audrey usa a expressão “assassination” e Cary usa a expressão “assassin“. Quando o filme estreia, o assassinato de John F. Kennedy tinha sido recente. Os executives do estúdio ficaram preocupados com tal e decidiram alterar tais expressões. Alguns masters mantêm as expressões originais.

Na cena do chuveiro foi acordado que Cary Grant ficaria vestido. O actor já estava a caminho dos 60s e com algum peso a mais. Mesmo assim, todos acharam que a cena ficou mais divertida da forma como foi feita.

 Cameos:

Peter Stone (argumentista) – o homem no elevador da embaixada, a falar sobre um jogo de poker; Stone dá voz ao marine à porta da embaixada, no final.

Stanley Donen – dá voz a Stone no elevador.

É o filme que marca a estreia do novo logo da Universal Pictures. Mostrava um globo terrestre mais realista. O logo duraria até “Bird on a Wire” (1990, com Mel Gibson & Goldie Hawn).

Houve quem considerasse Cary Grant como demasiado velho para ser o galã romântico no filme (arrrgh, errado).

Na época, alguém disse (e bem) que “Charade” era “o melhor filme que Hitchcock não fez”.

A revista “MAD” faria uma paródia a “Charade” – “Charades”, com Cary Grande e Audrey Heartburn, com realização de Stanley Done-In; era o #88, editado em Julho de 1964.

Terminado o filme, Cary Grant disse que “tudo o que quero para Natal é fazer um outro filme com Audrey Hepburn”. Infelizmente tal não voltou a acontecer.

Mas não faltaram oportunidades – Grant recusou estar em “My Fair Lady” (Rex Harrison foi chamado por influência de Grant) e Hepburn não pôde estar em “Father Goose” (Leslie Caron ficou em seu lugar) por estar ocupada com “My Fair Lady”. Os dois filmes são de 1964. Mas antes, já Grant tinha recusado participar em “Love in the Afternoon” (1957, de Billy Wilder, onde Gary Cooper substituiu Grant) e “Sabrina” (1954, de Billy Wilder; Humphrey Bogart substituiu Grant) – para os dois casos, Grant recusou por causa de… ser mais velho que Hepburn.

O filme entrou rapidamente no public domain, pelo que não tardaram a surgir cópias de má qualidade. Há alguns anos foi criado um novo e impecável master.

“Charade” esteve na lista de 500 filmes candidatos às “Top 100 Funniest American Movies” do American Film Institute.

 

Stanley Donen faria um “remake/rip-off” – “Arabesque”, feito em 1966, com Gregory Peck e Sophia Loren. Donen chegou a chamar Cary Grant, mas ele recusou por não gostar do argumento.

O filme teria um (abominável) remake – “The Truth about Charlie” (2002, de Jonathan Demme, com Mark Wahlberg e Thandie Newton).

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