Ritual de Guerra (1971)

 

Título original – The Beguiled

 

Don Siegel & Clint Eastwood formam uma das mais relevantes parcerias Realizador/Actor do Cinema.

Colaboraram em 5 filmes (o mais famoso é “Dirty Harry”).

Este é o terceiro.

Whoa!!! E que filme… bizarro!!!

 

Um soldado da União, ferido, surge às portas de um colégio feminino.

As meninas fascinam-se pelo homem, o homem vê ali um “harém” ávido de prazeres, que ele (bem) manipula para seu benefício.

Mas a manipulação maior virá de quem menos se espera.

Com resultados trágicos.

O que pode acontecer numa casa cheia de mulheres (algo imberbes perante o mundo e a vida) com um só homem?

Eis um filme que explora tal possibilidade.

De forma bem psicológica, erótica, sexual, perversa e psicótica.

Guerra, isolamento, traumas, sexualidade reprimida, frustrações sexuais, desejo, feminismo, domínio.

É todo um festival psicológico/psiquiátrico, de crises afectivas, de pulsões e tensões sexuais, de conflitos (extremos) entre Homem e Mulher.

Atenção a duas cenas:

  • à cena da amputação – nada se mostra, mas tudo se depreende, e o espectador sente (bem) a dor.
  • A crueldade verbal, emocional, psicológica e física no jantar final (antes, durante e depois).

Final brutal, digno de várias leituras, que convida o espectador a tomar partido por uma das facções ou tentar compreender ambas.

Excelente fotografia (o início em sepia e a mudança gradual).

Don Siegel, mais habituado a viris actioners, muda de registo e cria uma atmosfera pesada, surreal, sinistra, fazendo um filme único e inclassificável.

Não se inibe de algum espírito art house no tratamento visual a alguns momentos.

Clint Eastwood contraria a sua imagem macho  (já o tinha feito em “Play Misty for Me”, feito no mesmo ano, que marca a estreia de Eastwood como realizador; é um “Fatal Attraction” avant la lettre), ao compor um personagem manipulador, mesquinho, falso, cobarde e vítima.

Impecável prestação das meninas, com destaque para Geraldine Page (bem felina e defensora), Elizabeth Hartman (bem delicada) e Jo Ann Harris (bem ardente).

É mesmo um dos mais bizarros, complexos, perturbantes e violentos (psicologica e fisicamente) filmes de sempre, sempre difícil de compreender e classificar totalmente, mas de permanente fascínio.

 

Obrigatório.

 

“The Beguiled” não tem edição no nosso mercado. Existe noutros, a bom preço.

Realizador: Don Siegel (como Donald Siegel)

Argumentistas: Albert Maltz (como John B. Sherry), Irene Kamp (como Grimes Grice), Claude Traverse (sem crédito), a partir do romance de Thomas Cullinan (“The Painted Devil”)

Elenco: Clint Eastwood, Geraldine Page, Elizabeth Hartman, Jo Ann Harris, Darleen Carr, Mae Mercer, Pamelyn Ferdin, Melody Thomas Scott,

Peggy Drier, Patricia Mattick

 

Trailer

 

John Landis sobre o filme

 

Bilheteira – 1 milhão de Dólares

 

Clint Eastwood leu o livro em 1966, por sugestão do produtor Jennings Lang. Clint adorou o livro e viu potencial para um filme onde poderia mudar de imagem.

Albert Maltz escreveu a primeira versão do argumento. Não foi do total agrado (tinha um happy ending, que não agradou a Don Siegel e a Clint Eastwood), pelo que Claude Traverse foi convocado para fazer alterações. Traverse ficou sem crédito e Maltz pediu para lhe mudarem o nome.

Eastwood tinha consciência do risco em interpretar o personagem, que era um loser, face aos heróis que interpretava até então.

Jeanne Moreau era a escolha de Siegel para a personagem de Martha, mas o líder da Universal, Lew Wasserman, opôs-se fortemente. Geraldine Page foi escolhida.

A Universal queria que as filmagens decorrem no Disney Studios Ranch, mas Siegel preferiu filmar em Baton Rouge, Louisiana, na Ascension Parish: The Ashland-Belle Helene Plantation, uma construção de 1841, com alguma importância.

As filmagens duraram 10 semanas.

Siegel proibiu as meninas de usarem maquilhagem. Algumas delas contornaram essa vontade, o que deixou Siegel chateado.

Durante as filmagens, Eastwood realizou o seu primeiro “filme” – uma featurette sobre Siegel – “The Beguiled: The Storyteller”.

Clint Eastwood e Jo Ann Harris estavam envolvidos sentimentalmente, na época.

Clint Eastwood e Don Siegel tiveram de se impor perante os executives da Universal, no sentido de manter o destino final do protagonista.

“Pussy-footing Down at the Old Plantation” e “On One I Walked” – foram títulos ponderados pela Universal.

 

Albert Maltz volta a escrever um argumento para Don Siegel e Clint Eastwood – já o tinha feito em “Two Mules for Sister Sara” (1970), que também envolveu uma alteração no argumento.

Segundo Siegel, o filme foi (muito) mal promovido pela Universal Studios, que o promoveu como um actioner (género onde Eastwood era popular, na época; um dos posters do filme mostrava Eastwood com uma arma, sugerindo que haveria action no filme).

O filme teve uma má recepção nos USA (público e crítica).

O filme teve uma excelente recepção em França, onde chegou a ser proposto para Cannes. Apesar de Eastwood e Siegel estarem encantados com a ideia, os produtores recusaram. A crítica francesa considerou “The Beguiled” como um dos melhores filmes de Eastwood e uma das suas melhores interpretações.

Eastwood tinha um longo contrato com a Universal, mas o actor ficou ressentido com a forma como o estúdio tratou o filme. Eastwood deixaria o estúdio em 1975, depois de “The Eiger Sanction”. Eastwood voltaria à Universal só em 2008, com “Changeling”. Eastwood está desde há várias décadas ligado à Warner Bros.

É o filme preferido de Don Siegel, dos que ele realizou.

Segundo Quentin Tarantino, este filme é o mais próximo que Don Siegel esteve de um filme art house.

 

É o terceiro de 5 filmes, fruto da colaboração entre Don Siegel e Clint Eastwood – “Coogan’s Bluff” (1968), “Two Mules for Sister Sara” (1970), “The Beguiled” (1971), “Dirty Harry” (1971) e “Escape from Alcatraz” (1979).

Sofia Coppola faria uma nova adaptação do romance de Thomas Cullinan. O filme é de 2017, também se intitula “The Beguiled” (já aqui visto) e tinha no elenco Colin Farrell, Nicole Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning. O filme foi a Cannes 2017 e foi premiado (Coppola ganhou a “Melhor Realização” e o filme tentou a “Palm d`Or”).

Trailer

 

One comment on “Ritual de Guerra (1971)

  1. […] Beguiled” (1971, já aqui visto) já tinha um certo estatuto (pela sua estranheza como filme, por ser algo completamente […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s