Exterminador Implacável – Destino Sombrio (2019)

 

Título original – Terminator: Dark Fate

 

“The Terminator” é uma das melhores sagas do Cinema.

Verdadeiro prodígio de action & stunts, é também notável no uso de efeitos visuais (desde practical effects de uma incrível eficácia até uns visual effects inovadores e impressionantes) e de robótica (há grandes achievements nessa área), aliado a uma poderosa narrativa sobre os males da Tecnologia e o facto do Homem ser o criador da sua destruição.

 

Tudo começou em 1984 (numa produção modesta), com sequelas em 1991 (na época, o filme mais caro de sempre, com uns impressionantes e inovadores efeitos visuais que tudo mudaram no Cinema; é ainda a “Capela Sistina” das sequelas e do Sci-Fi Actioner), 2003, 2009 e 2015 (um misto de reboot, remake e homenagem aos dois primeiros episódios).

 

James Cameron ficou com o seu (bom) nome ligado à saga (escreveu, produziu e realizou os dois primeiros episódios) e não parou de inovar, tecnologicamente, o Cinema.

Arnold Schwarzenegger encontrou uma segunda pela que lhe assentou na perfeição – criar uma máquina assassina indestrutível e imparável, sem emoções ou remorsos.

Schwarzie só esteve de fora no episódio 4, Jim limitou-se aos primeiros dois.

 

Eis o episódio que retoma a saga a partir do episódio 2.

James Cameron, Arnold Schwarzenegger e Linda Hamilton estão de volta.

 

Décadas passaram desde que se evitou “O Dia do Julgamento”.

Sarah Connor continua em fuga, em luta contra todo o Terminator que ainda surja no seu caminho.

O seu rumo cruza-se com uma jovem latina que é muito procurada pelos Terminators.

Sarah entra em campo e inicia uma nova batalha para evitar o (novo) fim da Humanidade.

35 anos depois de ter começado, 28 anos depois da primeira sequela, a saga “Terminator” regressa às (boas) mãos do seu criador James Cameron.

 

Cameron “apenas” produz e assina a story.

Mas a sua marca é visível constantemente.

“Terminator: Dark Fate” esquece os episódios seguintes a “T2” (“Terminator 3: Rise of the Machines”, “Terminator: Salvation” e “Terminator: Genisys”), sendo a continuidade directa a “Terminator 2” (tal é logo mostrado no início, onde se recorda um momento desse episódio, com um pequeno episódio seguinte – prodigiosos os efeitos de performance capture onde todo o veterano actor é rejuvenescido).

 

Esclareça-se que “T2” é mesmo o ponto final no círculo narrativo do conceito delineado por Cameron.

Este novo episódio “limita-se” a fazer um prolongamento. Algo que “Terminator 3” também fez, mas eliminando uma personagem central e adicionando outros (uma liberdade justificável e aceitável, que conseguiu encontrar coerência narrativa).

Mostrando que Cameron tinha fechado a linha narrativa nesse filme, o filme encontra (com alguma lógica) a razão para um novo “apocalipse robótico” (afinal tudo acontece porque o Homem nunca aprende com os erros do passado e comete sempre os mesmos).

Isto permite criar novos eventos, novas explicações (que, certamente, serão mais aprofundadas nas sequelas – a acontecerem), novos personagens.

E onde fica Sarah Connor?

Fica como a personagem trágica da saga, da luta contra o Apocalipse, ícone da salvação do Futuro, mas eternamente condenada à memória da tragédia, da violência, da morte, da esperança e da resistência, sendo uma espécie de mentora para Dani e uma ajuda consciente para Grace.

A organização narrativa segue a do costume na saga (a chegada dos dois enviados do Futuro, poucas certezas sobre quem é quem e o que querem fazer, o quotidiano da vítima, o encontro, o confronto, a perseguição, as explicações, o duelo final).

E é aqui que se encontram os Mas do filme.

Há um certo modelo repetitivo da narrativa (volta a ser um duelo entre protector e perseguidor à volta de um ser humano que será decisivo no futuro e salvação da Humanidade – novamente uma mulher, à semelhança de “The Terminator”; tal como em “Terminator 2”, o perseguidor é um Terminator bastante evoluído; tal como em “T2” as criaturas em duelo são não-humanas; tal como em “Terminator 3”, uma das facções em conflito é uma mulher, sendo agora ela do lado dos bons; ao menos “Terminator: Salvation” procurou fazer diferente – em eventos e personagens). Afinal, todas estas décadas depois, era de esperar algo mais renovador, não?

Para “ajudar” há a resolução fácil e simplista de no prólogo se eliminar um personagem central da saga (afinal, era um dos propulsores dos eventos dos dois primeiros episódios).

Por outro lado, não deixa de parecer um déjà vu face ao conceito narrativo da (excelente) série televisiva “Terminator: The Sarah Connor Chronicles” (2008-2009; grande erro foi não a concluírem). Esta é que é a verdadeira e legítima continuação face a “T2” – mostrou o quotidiano de Sarah & John, a constante presença de muitos e variados Terminators (de características e visuais diferentes – assumindo a coragem de deixar a saga fugir ao rosto de Arnold Schwarzenegger), a aparição de uma misteriosa corporação que podia ser geradora de uma nova geração de Terminators e de um novo Apocalipse. O facto deste novo filme ter entre os argumentistas o criador dessa série não será alheio a tal, certamente.

Lamenta-se que a explicação para este novo Apocalipse seja algo rápida e muito simples, fugindo da complexidade apresentada nos dois primeiros episódios.

Calma.

Há vários Mas, mas há também muitos OKs.

“Terminator: Dark Fate” pode ser visto como um reboot da saga, pois o episódio consegue ser (ligeiramente) autónomo, exigindo pouco conhecimento dos episódios anteriores.

É certeira a criação de um novo pesadelo (a História mostra que o Homem repete frequentemente os mesmos erros), e os novos personagens são muito interessantes (a enorme juventude e inocência de Dani, a humanidade avançada de Grace).

Apesar da repetição narrativa, há muito e bom espectáculo a ver, com novidades visuais.

Efeitos visuais absolutamente incríveis (embora não tão inovadores como os de “Terminator 2” – afinal, foi este filme que abriu as portas a todo o universo CGI que governa muito do Cinema actual) – as transformações do Rev-9, o rejuvenescimento de dois personagens no prólogo.

Set pieces verdadeiramente avassaladoras, que são um must de espectáculo, ritmo, destruição e adrenalina (a perseguição na auto-estrada, o duelo no avião).

Destaque para um (inteligente e pertinente) aspecto narrativo-humano-geográfico – muita da acção passa-se no México e a salvadora da Humanidade é mexicana.

Não sei se tais pormenores são por acaso, mas dado o “estado das coisas” nos USA modernos não me parece descabida a ideia do filme trazer um “recado” (ao contrário de “Rambo 5” – onde os mexicanos são uma cambada de pandejos motherfuckers -, este novo “Terminator” não fará as alegrias de Donald Trump).

Tim Miller tinha mostrado jeito e imaginação no irreverente “Deadpool”.

Neste novo “Terminator”, Miller confirma o seu jeito para o actioner, criando magníficas cenas de acção, bom ritmo, tensão constante e conseguindo uma tenacidade brutal entre todos os personagens e um sentido de emergência que não se viam nos episódios seguintes a “T2” (apesar de vários méritos em cada um deles).

James Cameron mostra o seu dedo nos personagens (vincados, com mulheres aguerridas), no argumento (o Homem a ser sempre autor da sua destruição, a humanização da Máquina) e no (elevado) sentido de espectáculo.

Gabriel Luna consegue criar uma calma bem temível como Terminator (agora modelo Rev-9). Recorda o impecável Robert Patrick como T-1000 em “Terminator 2”.

Mackenzie Davis mostra boa destreza como action heroine, sabendo quando revelar emoções e fraquezas humanas. Fosse ela a única no filme, ela bem o dominaria.

Natalia Reyes dá uma delicadeza imberbe. Recorda algo de Linda Hamilton em “The Terminator”.

Linda Hamilton praticamente controla o filme. Está quase como em “T2”, mas agora ainda mais cínica, lutadora, destrutiva e mesmo odiosa.

Arnold Schwarzenegger continua em forma para o seu mais emblemático personagem. Temos de esperar por ele (o filme consegue gerir muito bem essa expectativa) e quando entra em cena reserva um par de surpresas (que até brincam com a imagem e atitude da criatura).

É a saga “Terminator” a devolver algum do seu melhor (em matéria de espectáculo, ritmo, tensão, personagens, urgência da situação), mas com algo de déjà vu (não deixa de parecer uma actualização/modernização mix de “The Terminator” e “Terminator 2”, com alguns laivos de “Terminator: The Sarah Connor Chronicles”).

Um grande espectáculo de acção e FX, com algumas ideias narrativas, que permite (algum) optimismo no futuro da saga (há aqui bom potencial narrativo, sendo necessário e urgente que se leve a saga por outros caminhos – lembrem-se do que se contou em “Terminator: The Sarah Connor Chronicles”, que explorou muitas e criativas áreas).

 

Muito recomendável.

 

“Terminator: Dark Fate” está nas nossas salas.

Realizador: Tim Miller

Argumentistas: James Cameron, Charles H. Eglee, Josh Friedman, David S. Goyer, Justin Rhodes, Billy Ray, a partir dos personagens criados por James Cameron e Gale Anne Hurd

Elenco: Linda Hamilton, Arnold Schwarzenegger, Mackenzie Davis, Natalia Reyes, Gabriel Luna

 

Orçamento – 185 milhões de Dólares

Bilheteira (até agora) – 34 milhões de Dólares (USA); 129 (mundial)

 

“Melhor Elenco”, no CinemaCon 2019.

Em 1984, James Cameron e Gale Anne Hurd eram marido e esposa. Cameron vendeu os direitos de “The Terminator” (e as possibilidades de sequelas) a Hurd por um par de Dólares. Os dois divorciaram-se algum tempo depois, mas mantiveram parceria profissional para “Terminator 2”. Cameron decidiu sair da saga e dedicar-se a outros projectos. Hurd continuou como produtora dos filmes seguintes. Pelas leis americanas, algumas décadas depois Cameron fica com direitos de volta (quer os quisesse ou não). Inicialmente, Cameron pensou em vendê-los, dá-los ou ignorá-los (Cameron só quer estar envolvido na saga “Avatar” – episódios 2, 3, 4 e 5 a caminho entre 2021 e 2025). Mas Cameron acha que o actual estado dos USA e do mundo lhe merecem um comentário e ele quer fazê-lo através da saga “Terminator”.

Segundo Cameron, este novo filme é sequela directa a “Terminator 2”, ignorando todos os eventos vistos em “Terminator 3”, “Terminator Salvation” e “Terminator: Genisys”, bem como a série televisiva “Terminator: The Sarah Connor Chronicles” (que fazia uma continuidade face a “T2”). Cameron nunca foi contra esses trabalhos, mas acha que não funcionam no seu conceito da saga.

Segundo Cameron, este novo filme é o primeiro capítulo de uma nova trilogia.

Um dos argumentistas é Josh Friedman – Friedman é o autor da série “Terminator: The Sarah Connor Chronicles” e um dos argumentistas das sequelas de “Avatar” (todas realizadas por James Cameron).

Os directores de casting procuraram uma actriz mexicana de 18 anos para interpretar Dani Ramos. Natalia Reyes foi a eleita, mas é colombiana e tem 31 anos.

Mackenzie Davis volta a participar na sequela de um clássico da Sci-Fi – ela também foi vista em “Blade Runner 2049” (2017).

Brett Azar volta a ser o body double de Arnold Schwarzenegger, quando este é mais jovem. Já o mesmo tinha acontecido em “Terminator: Genisys”, com Azar nas mesmas funções.

Por várias vezes nas filmagens, Linda Hamilton ria-se ao disparar armas. Tim Miller teve de impor seriedade.

A acção passa-se em 2022.

Depois de “Terminator 3”, é o primeiro episódio da saga a ter a classificação R. Os dois episódios anteriores eram PG-13.

O filme ia estrear em Julho de 2019, mas foi adiado para não competir com o forte concorrente actioner que é “Fast & Furious: Hobbs & Shaw”. Mesmo assim, “Terminator: Dark Fate” vai enfrentar um outro forte actioner – o reboot de “Charlie`s Angels”.

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