Rambo III (1988)

Dado o conflito do Afeganistão (que envolvia USA v URSS), parecia ser um cenário perfeito para o Green Beret regressar à acção.

 

Rambo é convidado pelo Coronel Trautman para comandar uma equipa de elite em missões no Afeganistão, com o fim de ajudar os resistentes afegãos na luta contra a opressão soviética.

Rambo recusa, Trautman vai. Mas ele é capturado pelos soviéticos.

Rambo parte em resgate do seu amigo.

Em 1988, Rambo já é tanto personagem de Cinema e saga cinematográfica, como fenómeno. Anda pela Televisão (com uma série de animação muito divertida – que chegou a passar nos nossos ecrans) e pelo merchandising (action figures que se vendem muito bem), sendo alvo de paródias, brincadeiras, rip-offs e é força de expressão popular.

Mas muitos desejavam o regresso do herói.

Nos tempos seguintes a “Rambo: First Blood Part II”, Sly dá-se mal com o público, com a crítica e com muito mal-dizer (coisa feia, a inveja – também querem ganhar 15 milhões de Dólares por 6 meses de trabalho? façam por isso, pois foi o que Sly fez). São-lhe atribuídas culpas sobre o estado do Cinema (ohhh, não havia actioner antes de Sly e Rambo?), a presença de violência nos filmes (ohhh, não havia tal antes de Sly e Rambo?) e a atitude do executivo americano (ohhh, o que se passava na White House era culpa de Sly e Rambo?).

“Cobra” (1986) não é o blockbuster que se pretendia (mas não é o flop que muito se aclamava). “Over the Top” (1987) é um falhanço (enorme).

Perante tal, Sly convoca Rambo para uma nova missão, crente que isso lhe garante mais um blockbuster e um retomar do seu status como big movie star.

“Rambo: First Blood Part II” é uma tremenda mudança face a “First Blood” (já aqui visto) – mais action, mais espectáculo, mais pirotecnia, mais violência, mais body count e, acima de tudo, uma transformação (super-)heróica em Rambo.

Cinematograficamente é aceitável o debate, controvérsia, incómodo e desagrado.

Financeiramente, estúdio, produtores e movie star tiveram (muita$) razõe$ para ficar contente$ – estrondoso sucesso (nacional e internacional), quebra de recordes e uma popularidade incrível que fez com que o filme deixasse uma marca incontornável na pop culture, no Cinema (na década de 80 e de sempre) e até nalguns circuitos políticos dos USA (nomeadamente a ala Republicana).

Crentes que este novo rumo é que era o ideal (financeiramente falando), em pouca mudança se investiu para “Rambo III”.

Faltava o cenário/conflito adequado.

O conflito no Afeganistão era alvo de alguma notícia a nível mundial, os soviéticos estavam a levar porrada, os americanos ajudavam a tal e parecia que a nação americana se vingava da barracada que fora o Vietname.

Assim sendo, Rambo segue para o Médio-Oriente.

Isto poderia ser “Rambo II – Part II” ou “Rambo 2.5”.

Na verdade “Rambo III” parece um remake de “Rambo: First Blood Part II”.

Novamente um cenário de conflito (fora dos USA), novamente um resgate, novamente soviéticos como inimigos, novamente Rambo em formato one-man-army.

Bom, há algumas diferenças.

Umas para melhor, outras para pior.

Mas há também repetições.

Elogia-se o facto do motivo da iniciativa de Rambo não ser ele próprio (como no primeiro filme) ou os USA (como no segundo filme). Agora é por amizade ao Coronel Trautman (aliás, alguns posters enfatizavam, e bem, esse aspecto comparativo).

Elogia-se Rambo voltar a estar dedicado aos inocentes (aqui com afecto mútuo de uma criança afegã), ter (nalguns momentos) ajuda massiva (os Mujahidin) e (lá para o final) fazer parceria com Trautman no enfrentar do inimigo.

Elogia-se a tentativa de criar um tom humanitário (isso seria mais conseguido em “Rambo IV”) na narrativa.

Elogia-se a tentativa de “educar” o espectador sobre o que se estava a passar no Afeganistão.

Elogia-se o facto do filme ser uma super-produção (a mais cara de sempre, até então), com tal a ser evidenciado ao longo de toda a metragem, com look bem impressive na sua escala de espectáculo e grandiosidade.

Stallone (e produtores) joga pelo seguro (não mudar a fórmula criada no segundo filme – dado o sucesso gigantesco, ainda maior que o filme inicial, percebia-se que era esse o approach que o público queria, por isso toca a investir na lógica “mais do mesmo”), não se aproxima inteiramente do primeiro filme, mas mostra que estava atento à forma como o action hero 80s estava a mudar no final da década (Martin “Leathal Weapon” Riggs e John “Die Hard” McClane eram pessoas, com emoções e dramas, e até choravam – algo que se conseguiu para John Rambo em “First Blood”).

Mas nem tudo é devidamente explorado.

A perda de tempo em Rambo ir ao campus inimigo, fugir e depois regressar ao mesmo campus causa atropelos narrativos – essa metragem repetitiva poderia ser usada para desenvolver personagens (os Mujahidin, a criança), relações (Rambo com o miúdo, Rambo com os Mujahidin, Rambo com Trautman –  algo que a saga nunca explorou devidamente, apesar do imenso potencial narrativo para tal) e o próprio Rambo (a sua mentalidade, moralidade e consciência naquele cenário, pessoas e eventos), mas fica a intenção.

O conflito no Afeganistão estava em alta na época e o filme faz o seu devido “panfleto” pró-USA e anti-soviético.

Anos depois do Vietnam, agora são os americanos que saem vencedores e os “vermelhos” ficam com as “calças na mão” (por ironia, o regime implantado será um dos “pilares” do 9/11 – quanta gratidão!!!).

Há uma tentativa “pedagógica” de explicar o que se anda a passar por ali, os males infligidos pelos soviéticos, alguma “mensagem” política, mas a coisa acaba por ser simplista para favorecer a base dualista do actioner (bons v maus).

Há um bom uso da paisagem (sentimos o calor e a vastidão do deserto afegão), o já referido ar de mega-produção e as (boas) possibilidades narrativas presentes.

Mas depois de “Rambo II” e com as exigências de sequela, com o orçamento em campo e com as regras do género, querem-se é boas set pieces.

E nisso, o filme não decepciona.

Boa e maciça action, explosões enormes, vastos tiroteios, duelos com helicópteros e tanques.

Fiel à lógica actioner 80s, é sempre uma alegria quando vemos Rambo a despachar soviéticos.

Perante o enorme sucesso do arco & flecha(s) em “Rambo II”, tal equipamento está de volta em “Rambo III” – com mais (notáveis) recursos e usos (criativos).

Jerry Goldsmith já era o habitual compositor da saga. Depois dos excelentes scores anteriores, o veterano volta a criar uma partitura digna do bom actioner – dinãmica, épica, vibrante, tensa e heróica. Não é um score tão magnifico como o de “First Blood”, mas defende-se bem.

Sylvester Stallone continua óptimo como action hero e mostra como Rambo lhe é uma terceira pele (depois de Rocky). Parece algo adormecido a momentos, mas essa apatia ajuda na criação de um herói numa fase de vida mais cansada, céptica e farta de conflito.

Richard Crenna usa o seu screen time extra (face ao normal nos dois episódios anteriores) para dar uma dimensão heróica a Trautman, mostrando-o também como um bom brother in arms de Rambo e não apenas um seu superior.

Peter MacDonald estreia-se na realização. Já era um veterano (bem respeitado) como Second Unit Director (“The Empire Strikes Back”, “Excalibur”, ”Dragonslayer”) e conhecia a saga (teve essas funções em “Rambo II”).

Mostra bom jeito para action, mas não consegue a devida envolvência humana que o argumento até permitia (mas este também não ajuda).

Há algo de déjà vu (face a “Rambo II”), há uma tentativa de procura de novos rumos, há uma persistência de fórmula.

Mas entretém e mostra que havia muito na saga e em John Rambo para explorar. Desde que se fugisse de fórmulas e repetitismos, procurando-se seguir e desenvolver o rumo delineado no primeiro filme (Rambo, a sua personalidade, a sua psicologia).

 

Vê-se muitíssimo bem.

 

“Rambo III” tem edição portuguesa e está a bom preço. A edição é parca em extras. Procure-se as Special Edtion noutros mercados, que existem e a bom preço, contando também com novo master (já há em 4K). Existe pack com os três primeiros filmes.

Realizador: Peter MacDonald

Argumentistas: Sylvester Stallone, Sheldon Lettich, a partir dos personagens criados por David Morrell

Elenco: Sylvester Stallone, Richard Crenna, Marc de Jonge, Kurtwood Smith, Spyros Fokas, Sasson Gabai

 

Trailer

 

Clips

 

A banda sonora de Jerry Goldsmith

 

Orçamento – 63 milhões de Dólares

Bilheteira – 53 milhões de Dólares (USA); 189 (mundial)

Mercado doméstico – 28 milhões de Dólares

 

“Melhor Música”, nos BMI Film & TV 1989.

“Pior Actor” (Sylvester Stallone), nos Razzie 1989. Esteve nomeado para “Pior Filme”, mas “Cocktail” (com Tom Cruise) foi preferido. Richard Crenna ia ser o “Pior Actor Secundário”, mas Dan Aykroyd foi o vencedor por “Caddyshack II”. Peter MacDonald concorreu a “Pior Realizador”, mas Blake Edwards e Stewart Raffill foram os escolhidos por, respectivamente, “Sunset” e “Mac and Me”. “Pior Argumento” também esteve a concurso, mas “Cocktail” foi o vencedor.

Harry Kleiner (“Bullitt”, “Red Heat”) escreveu uma primeira versão do argumento, mas Stallone rejeitou-a. Nada se sabe sobre essa storyline.

David Morrell chegou a trabalhar numa versão do argumento. A trama envolvia missões humanitárias no Afeganistão, com Rambo e Trautman a ajudarem nessa área, mas depois a meterem-se em aventuras contra os soviéticos. Parte destas ideias seriam usadas por Morrell na novelização do filme.

Russell Mulcahy (“Highlander”) ia ser o realizador. Ainda começou as filmagens, mas conflitos criativos com Stallone puseram-no fora de cena. Duas cenas sobraram filmadas por Mulcahy – Rambo no mosteiro e a captura de Trautman.

Peter MacDonald era um prestigiado Second Unit Director e teve essas funções em “Rambo II”. Ia mantê-las em “Rambo III”. Stallone chamou-o para ser o realizador.

É o primeiro filme de MacDonald como realizador.

Victor Banerjee tinha sido convidado a participar, mas recusou.

Regresso de Jerry Goldsmith à saga. Goldsmith compôs os scores dos três primeiros filmes.

Working title – “Full Circle: First Blood – Part III”.

Filmado em Israel, Tailândia, Paquistão e Arizona.

Após algumas semanas de filmagens, muita gente da crew foi despedida ou decidiu ir embora.

A história dos Directors of Photography:

  • Gerry Fisher era o primeiro – saiu por se sentir mal com o calor excessivo do local das filmagens.
  • Michael Seresin era o segundo – saiu com Russell Mulcahy.
  • Ernest Day foi o terceiro – passou para Second Unit Director (MacDonald ia ter essa função, mas passou a realizador)
  • John Stanier foi o quarto – ele tinha vindo como assistente de Seresin e ficou como o DP

Na época, foi o filme mais caro de sempre.

O salário de Sylvester Stallone foi um Gulfstream Jet de 12 milhões de Dólares. O seu “rival” Arnold Schwarzenegger pediu algo parecido para “Terminator 2” (1991).

Rambo usa o colar que lhe foi “dado” por Co (Julia Nickson), a sua aliada em “Rambo II”.

O filme mostra as cicatrizes que Rambo ganhou nos dois filmes anteriores.

O cavalo de Rambo foi usado como o cavalo de Indy em “Indiana Jones and the Last Crusade” (1989).

O templo tailandês é verdadeiro. Tal como se vê no filme, estava em restauro. Muitos dos monges vistos eram monges verdadeiros e viviam no mosteiro. Os monges foram pagos para aparecerem.

O personagem Masoud (interpretado por Spyros Fokas) é uma referência a Ahmad Shah Masoud, reputado líder da resistência afegã contra os soviéticos e contra os Taliban. Masoud chegaria a Ministro da Defesa do Afeganistão.

Na filmagem de uma cena, Stallone quase que era decapitado por uma hélice de helicóptero.

A faca de Rambo é diferente das usadas nos dois filmes anteriores – é maior.

É o segundo filme onde Rambo combate soviéticos (o outro foi “Rambo II”).

Ao longo do filme não aparece uma única mulher.

Body Count: 162.

Um primeiro cut mostrava uma conversa mais longa entre Rambo e Griggs, sobre a impossibilidade de um resgate oficial a Trautman.

O mesmo cut mostrava um final diferente – Rambo decide juntar-se aos resistentes afegãos e fazer assim o seu full circle de vida, encontrando uma causa pela qual se bater.

MacDonald queria fazer de Rambo um personagem vulnerável, simpático e divertido. O realizador assume o seu falhanço.

O filme foi alvo de muitos cortes no Reino Unido.

O filme gerou controvérsia em muitos países pelo elevado nível de violência.

Chegou a constar do “The Guinness Book of World Records”, com 221 actos de violência, 70 explosões, 162 mortos.

O filme estreia na época em que Mikhail Gorbachev abre a União Soviética ao mundo (a Perestroika), as tropas soviéticas saem do Afeganistão (reconhecendo a derrota), Reagan e Gorbachev apertam mãos, este até dá um beijinho a Nancy Reagan (a First Lady), Mrs. Reagan e Mrs. Gorbachev são simpáticas uma com a outra, Reagan fica encantado com Mrs. Gorbachev. O filme ressentiu-se disso, face ao público. O Afeganistão já não era “moda”, os soviéticos já não eram maus e o filme soa a algo subversivo face ao clima de então. Foram algumas das explicações encontradas para os “baixos” valores de bilheteira (em comparação com “Rambo II”, claro; “Rambo III” acabou por compensar financeiramente, mas com números totais e proporcionais inferiores ao filme anterior e ao filme em si).

Segundo MacDonald, na época das filmagens os soviéticos ainda estavam no Afeganistão. Na época da estreia, já estavam a retirar. Esta desactualização do contexto que o filme aborda pode ser uma explicação para o sucesso inferior do filme.

O filme sofreu uma alteração depois do 9/11. No final do filme, é feito um agradecimento/dedicação aos Mujahidin pela sua coragem contra os soviéticos. Depois dos atentados de 2001, tal agradecimento/dedicação seria politicamente incorrecto – tal movimento guerrilheiro fomentou esse acto terrororista. Assim sendo, mudou-se para um agradecimento/dedicação ao povo afegão.

David Morrell escreveu uma novelização do filme. A história é diferente – Rambo e Trautman lideram uma equipa de ajuda humanitária. Morrell escreve assim de acordo com ideias narrativas iniciais, onde até ele participou.

O filme gerou vários videogames.

“Hot Shots! Part Deux” seria um (delirante) spoof a “Rambo III”. Richard Crenna também participa nesse filme, compondo uma paródia ao Coronel Trautman. Crenna contou com o apoio de Stallone.

É o último filme de Richard Crenna (Coronel Sam Trautman) na saga. O actor faleceu em 2003. Alguns planos do seu rosto seriam mostrados em “Rambo” (2008; o quarto episódio) e esse filme é dedicado a ele.

É o terceiro filme preferido de Stallone, dentro da saga “Rambo”

(nos episódios 1 a 4)

Sobre David Morrell:

http://www.davidmorrell.net/

https://www.goodreads.com/author/show/12535.David_Morrell

https://davidmorrell.net/books/

https://www.fantasticfiction.com/m/david-morrell/

https://rambo.fandom.com/wiki/David_Morrell

https://www.thriftbooks.com/a/david-morrell/218404/

https://crimereads.com/david-morrell-preparing-for-crisis-and-finding-inspiration/

One comment on “Rambo III (1988)

  1. […] III” (já aqui visto) – feito em 1988, realizado por Peter MacDonald, com Sylvester Stallone, Richard Crenna […]

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