Lolita (1962)

Lolita - 1962 - Poster 1

 

Vladimir Nabokov escreveu um dos romances mais controversos de sempre.

Stanley Kubrick não lhe ficou indiferente e assinou uma adaptação adequada (e igualmente controversa).

 

Humbert Humbert é professor e chega a uma povoação para um novo trabalho como académico numa faculdade.

Encontra albergue numa casa de uma viúva.

Mas a justificação passa pela jovem e cativante filha da senhora – Lolita.

A relação entre Humbert e Lolita irá levar ambos para os abismos da auto-destruição.

Lolita - 1962 - Screenshot 3

Lolita - 1962 - Screenshot 4

Lolita - 1962 - Screenshot 5

Ignorando as (desnecessárias) polémicas causadas pelo livro de Nobokov e pelo filme de Kubrick, “Lolita” deve ser visto pelo seu tema, história e virtudes cinematográficas.

Lolita - 1962 - Screenshot 1

Lolita - 1962 - Lobbycard 3

É um conto sobre a obsessão (apenas sexual?), o proteccionismo (extremo?), o ciúme (irracional?), com espaço para a (i)moralidade (afinal, o protagonista casa com uma mulher que despreza só para assegurar a proximidade com a desejada filha dela), embrulhado num imenso humor (bem negro e cínico – a cargo de um personagem secundário, bem relevante, capaz de um olhar provocador, moralizador, desviante e racional sobre os eventos e os personagens).

Lolita - 1962 - Lobbycard 2

Lolita - 1962 - Screenshot 8

Lolita - 1962 - Screenshot 9

Nem tudo é levado ao extremo, detalhe ou explícito (aí é que a polémica atingiria níveis galácticos), mas Kubrick não precisa. O seu talento e subtileza fazem tudo. E a ideia/mensagem de Kubrick e Nobokov é passada.

Lolita - 1962 - Screenshot 11

Lolita - 1962 - Screenshot 12

Lolita - 1962 - Lobbycard 5

Lolita - 1962 - Lobbycard 6

Mais certeiro que os elementos pedófilos e manipuladores é o (refinado) humor que está presente constantemente, que permite um olhar ainda mais descontraído sobre os eventos. O que acentua (ainda mais) a (i)moralidade da narrativa.

Lolita - 1962 - Screenshot 16

Lolita - 1962 - Screenshot 25

Excelente fotografia (em P&B).

Lolita - 1962 - Screenshot 10

Lolita - 1962 - Screenshot 13

Lolita - 1962 - Screenshot 24

Lolita - 1962 - Screenshot 17

Fabulosa prestação do elenco.

James Mason tem uma das suas melhores (se não mesmo a melhor) prestações da sua carreira. Humbert é comovente, mesquinho, odioso, fraco, manipulador e vítima, merecendo a nossa complacência e a nossa hostilidade. Uma interpetação que quase domina o filme.

Shelley Winters é comovente pela pureza que entrega, que só serve para ser um alvo fácil de manipulação.

Peter Sellers é hilariante e desconcertante, sempre certeiro, pertinente e irreverente nas suas lines, quase metendo o filme no bolso.

Sue Lyon faz grande domínio no filme (a excelência do elenco que a acompanha é que não lhe permite o domínio total), pela sua perversa e ardente inocência.

Lolita - 1962 - Screenshot 15

Lolita - 1962 - Screenshot 18

Lolita - 1962 - Screenshot 19

Excelente química entre Mason e Lyon, tanto nas cenas divertidas e românticas, como nas cenas mais dramáticas e tensas.

Lolita - 1962 - Screenshot 20

Stanley Kubrick dirige com o seu habitual perfeccionismo, equilibrando drama trágico e comédia negra.

Atenção a vários momentos:

  • A cena inicial e a tensão crescente – é prodigiosa a forma como Kubrick filma o espaço, organiza o encontro entre os personagens e deixa o espectador com a ideia que se passa algo mais que aquilo que é conversado, fazendo-nos sentir que algo vai explodir a qualquer momento e de forma violenta.
  • A primeira aparição de Lolita – com uma aparente e inocente simplicidade, Kubrick apresenta o “objecto de desejo” e leva o espectador e ser complacente e mesmo cúmplice com Humbert no seu despertar de desejo.
  • A ida ao drive-in e o toque de mãos – mais um exemplar momento de planeamento visual.
  • A sedução com a dança – Kubrick novamente a jogar com factor desejo e relação do espectador com Humbert.
  • A cena do divã parece vinda do burlesco – um perfeito uso de humor.
  • A conversa entre Sellers e Mason, no hotel – exemplar uso da escrita, com incrível densidade, subtilezas e duplos sentidos, ajudados pela perfeita performance dos actores.

Lolita - 1962 - Screenshot 26

Uma visão séria e divertida, crítica e amoral, sobre um tema (ou muitos temas) complexo(s) e sempre polémico(s).

 

Obrigatório.

 

“Lolita” tem edição portuguesa e anda a bom preço.

Lolita - 1962 - Screenshot 23

Realizador: Stanley Kubrick

Argumentista: Vladimir Nabokov, a partir do seu romance (“Lolita”)

Elenco: James Mason, Shelley Winters, Sue Lyon, Peter Sellers, Lois Maxwell, Cec Linder

 

Trailer

 

Clips

 

Entrevista com Sue Lyon

 

Orçamento – 2 milhões de Dólares

Bilheteira – 9.25 milhões de Dólares

Mercado doméstico – 3.7 milhões de Dólares

 

Lolita - 1962 - Poster 18

Nomeado para “Melhor Argumento Adaptado”, nos Oscars 1963. Perdeu para “To Kill a Mockingbird”.

Sue Lyon foi a “Jovem Promissora”, nos Globos de Ouro 1963. James Mason foi nomeado para “Melhor Actor – Drama”, mas perdeu para Gregory Peck em “To Kill a Mockingbird”. Shelley Winters foi nomeada para “Melhor Actriz – Drama”, mas perdeu para Geraldine Page em “Sweet Bird of Youth”. Peter Sellers tentou “Melhor Actor Secundário”, mas Omar Sharif levou a melhor em “Lawrence of Arabia”. Stanley Kubrick procurou ser o “Melhor Realizador”, mas foi derrotado por David Lean em “Lawrence of Arabia”.

James Mason foi nomeado para “Melhor Actor Britânico”, nos BAFTA 1963. Peter O’Toole, em “Lawrence of Arabia”, foi o eleito.

“Lolita” faz parte do pack “Stanley Kubrick: The Masterpiece Collection”. Esse pack esteve nomeado para “Melhor Colecção DVD/Blu-Ray”, nos Saturn 2015. O pack “Halloween” foi preferido.

“Lolita” faz parte do pack “Stanley Kubrick: The Masterpiece Collection”. Venceu nos Saturn 2012, para “Melhor Colecção DVD”.

Stanley Kubrick esteve nomeado para “Melhor Realizador”, pelo Directors Guild of America 1963, mas perdeu para David Lean em “Lawrence of Arabia”.

O filme concorreu ao “Leão de Ouro” em Veneza 1962. “Ivanovo Detstvo” (de Andrei Tarkovsky) e “Cronaca Familiare” (de Valerio Zurlini) foram preferidos.

Lolita - 1962 - Poster 8

Stanley Kubrick e James B. Harris (que já tinham uma boa parceria realizador/produtor – “The Killing”, “Paths of Glory”) compraram os direitos do livro de Vladimir Nobokov em 1958.

Kubrick comprou os direitos cinematográficos sobre o livro de Nobokov com o salário de “Paths of Glory” e com a indemnização de não ser o realizador de “One-Eyed Jacks” (que seria realizado por Marlon Brando).

Lolita - 1962 - Screenshot 14

Charles Boyer foi sugerido como Humbert. Boyer aceitou, mas depois recusou.

Laurence Olivier foi sondado, mas os seus managers recusaram.

Kubrick pensou em Peter Ustinov, mas depois mudou de ideias.

Harris sugeriu David Niven, que aceitou mas depois recusou por recear perda de patrocínios no seu TV show “Four Star Playhouse” (1952-1956).

Marlon Brando e Rex Harrison foram considerados como Humbert.

Errol Flynn foi considerado como Humbert Humbert, mas ele faleceu antes das filmagens.

Cary Grant foi sondado, mas recusou e com muita indignação.

Em 1960, James Mason é convidado por Kubrick, mas o actor recusa devido a compromissos com a Broadway. Mason acaba por recusar o trabalho no palco e aceita o filme.

Mason foi sempre a primeira escolha de Kubrick e Harris.

Lolita - 1962 - Lobbycard 4

Kubrick escolheu Peter Sellers depois de o ver em “The Battle of the Sexes” e de ouvir o seu álbum “The Best of Sellers”.

Lolita - 1962 - Lobbycard 1

Kubrick queria Joey Heatherton como Lolita, mas o seu pai recusou.

Hayley Mills (grande estrela da Disney, desde criança) foi sondada como Lolita, mas foi recusada. Atribuiu-se a recusa ao pai (John Mills, um actor já consagrado), mas soube-se depois que a recusa veio de Walt Disney.

Jill Haworth foi considerada como Lolita, mas Otto Preminger (que a tinha sob contrato) recusou.

Sandra Dee (actriz muito popular na época em comédias teen) foi considerada com Lolita, mas s sua mãe recusou.

Brigitte Bardot foi sugerida como Lolita, por parte dos produtores.

Beverly Aadland (na época, namorada de Errol Flynn), Tuesday Weld, Jenny Maxwell, Christine Kaufmann, todas foram consideradas como Lolita.

Lolita - 1962 - Promo Photo - Sue Lyon

Kubrick descobriu Sue Lyon na série “Letter to Loretta” (1953-1961) e ficou impressionado pela dimensão do seu peito face à sua idade (13 anos). Achou que o contraste entre idade e físico poderia resultar em “Lolita”. Sue tinha 15 anos aquando das filmagens e 16 quando o filme estreou.

Curiosamente, três anos antes, Sue tinha interpretado uma jovem que procura ter um affair com um professor. Foi no episódio “Letter to Loretta: Alien Love” de “The Loretta Young Show”.

Cerca de 800 raparigas fizeram auditions para Lolita.

Lolita - 1962 - Poster 23

Kubrick queria Bernard Herrmann como autor da música, mas ele recusou.

Lolita - 1962 - Poster 6

Nobokov é chamado para escrever a adaptação cinematográfica do seu livro. O seu argumento era de 400 páginas.

Kubrick e Harris reescreveram o argumento.

Kubrick falou com John Trevelyan, líder do British Board of Film Censors, sobre como contornar os elementos do livro que eram susceptíveis de censura. Trevelyan sugeriu a Kubrick que ele fizesse um filme “no tom de uma tragédia grega”.

Lolita - 1962 - Poster 9

Devido às exigências do MPAA, o argumento teve de atenuar muitos aspectos no livro, para evitar cerrada censura e fortes controvérsias.

A sexualidade entre Humbert e Lolita é mais explícita no livro, mas mais implícita no filme.

A Censura não permitia qualquer alusão a questões de pedofilia. Lolita teve de mudar a idade (tinha 12 no livro, passou a 14 no filme), foi eliminada uma cena onde Humbert contempla uma fotografia de Lolita enquanto ele está na cama com a mãe dela.

Lolita - 1962 - Poster 11

Passado nos USA, filmado na Inglaterra.

É o primeiro filme que Kubrick produz de forma independente, em Inglaterra.

Kubrick pediu a Shelley Winters para ler o livro de Nabokov. Winters era apoiante de John F. Kennedy. Quanto este viu a actriz a ler o livro durante um comício, JFK pediu a ela que tapasse a cover.

Durante as filmagens, Kubrick ponderou despedir Winters.

Sellers criou a voz do seu personagem Clare Quilty inspirado na voz de Kubrick.

Kubrick filmou todas as cenas com Sellers com duas ou três câmaras. O actor improvisou muito, quase tudo se filmou num só take e o cineasta assegurou a captura de vários ângulos.

Lolita - 1962 - Poster 15

Mason apercebeu-se durante as filmagens que Sellers estava a “roubar” o filme. Mason diria depois que teria sido melhor escolha ter ficado com o personagem de Sellers.

Lolita - 1962 - Backstage - Stanley Kubrick and Sue Lyon

Sue ia andar a cavalo todos os dias. Kubrick pedia-lhe para ela não se magoar no rosto.

Os óculos em forma de coração que Lolita usa só são vistos nos posters e fotos promocionais.

Lolita - 1962 - Poster 7

Oswald Morris (o director of photography) e Kubrick tiveram um forte desentendimento. Tudo porque algumas imagens do filme chegaram à imprensa, sem conhecimento do cineasta. Descobriu-se que foi um assistente do laboratório fotográfico que vendeu algumas fotos. Kubrick nunca pediu desculpas a Morris e este jurou nunca mais trabalhar com ele.

Lolita - 1962 - Poster 10

No livro, Lolita é morena. No filme, Lolita é loira.

O personagem Clare Quilty tem uma presença mais expandida no filme, face ao livro.

Na cena inicial, Humbert pergunta “Are you Quilty?“, ao que Quilty responde “No, I’m Spartacus. You come to free the slaves?” – referência a “Spartacus” (1960), o filme anterior de Kubrick.

O jogo de ping-pong entre Quilty e Humbert foi sugerido por Sellers.

Kubrick contraria uma das regras da época – começa o filme pelo final da narrativa.

Num momento, Lolita está a ver “The Curse of Frankenstein” (1957), no momento em que Christopher Lee surge. Sue Lyon e Lee contracenariam em “End of the World” (1977).

Cameos:

  • Stanley Kubrick – na cena inicial, quando Humbert abre a porta da casa e se vê o interior, o cineasta “foge” de cena.
  • James B. Harris – é Brewster.

 

Um dos finais ponderados mostrava Humbert e Lolita casados num Estado onde tal era permitido (casamento de menores). Este final foi criado para acalmar a Censura.

Lolita - 1962 - Screenshot 21

Sue não foi à première em Junho de 1962, pois era demasiado nova para ver o filme. Só o pode ver em Setembro do mesmo ano.

Kubrick preparou um screening para Nabokov. Este manifestou-se contente com o resultado do filme, tecendo elogios ao realizador e ao elenco.

Lolita - 1962 - Poster 24

Apesar de ter o seu nome creditado como argumentista, Nabokov viu a sua versão do argumento completamente alterada. Mesmo assim, Nobokov gostou do filme, mas lamentou tanto tempo gasto e perdido em algo que não foi usado.

Anos depois, Kubrick afirmaria que não teria feito o filme se soubesse da controvérsia que ele gerou.

James Mason e Stanley Kubrick ficaram grandes amigos. Não voltaram a trabalhar juntos, mas Mason visitou o set de “The Shining” (1980).

Nabokov gostou de Sue Lyon como Lolita (achou-a mesmo a actriz ideal). Mas anos depois, Nabokov afirmaria que Catherine Demongeot seria uma melhor opção.

Lolita - 1962 - Poster 12

Para David Lynch, “Lolita” é o seu favorito dos filmes de Kubrick.

Está nos “1001 Movies You Must See Before You Die”, de Steven Schneider.

A edição da “Criterion Collection” é a única aprovada por Kubrick, pois mantém os dois aspect ratio que o cineasta usou (1.33 e 1.66). As restantes edições são todas em 1.66.

Lolita - 1962 - Poster 21

Devido ao filme e ao livro, “Lolita” passou a ser uma designação dada a meninas menores de grande emancipação sexual.

Lolita - 1962 - Poster 20

“Lolita” seria alvo de uma nova adaptação cinematográfica, em 1997 (já aqui vista). Realizada por Adrian Lyne, com Jeremy Irons, Melanie Griffith e Dominique Swain. Foi considerado mais fiel ao livro de Nobokov, mas não teve tão boa aceitação da crítica e do público. Tal como o filme de Kubrick, também teve sérios probemas com a Censura e gerou muita controvérsia.

Lolita - 1962 - Poster 4

“Lolita” tem edição portuguesa no nosso mercado livreiro.

 

Sobre Vladimir Nobokov:

https://www.goodreads.com/author/show/5152.Vladimir_Nabokov

https://www.britannica.com/biography/Vladimir-Nabokov

https://www.libraries.psu.edu/nabokov/bio.htm

 

Lolita - 1962 - Poster 2

One comment on “Lolita (1962)

  1. […] (1962; já aqui visto) já estava estabelecido como um clássico do Cinema e uma adaptação definitiva e suprema […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s