Reviver o Passado em Brideshead (2008)

Brideshead Revisited - Film - Poster 1

 

Título original – Brideshead Revisited

 

O romance de Evelyn Waugh é um clássico absoluto da Literatura.

Já foi alvo de uma magnífica série televisiva (já aqui vista), que é hoje um clássico absoluto da Televisão.

Hollywood perseguia a adaptação cinematográfica desde a publicação do livro.

Aqui vem ela.

 

Inglaterra, anos 20.

Charles Ryder e Sebastian Flyte conhecem-se em Oxford. Charles é um filho de uma abastada família de classe média, sempre muito metódico nos seus objectivos. Sebastian vem de uma abastada família nobre, tem problemas com o álcool e uma vida algo errática.

A amizade é rápida, Charles é muito bem recebido na família de Sebastian, principalmente pela sua enigmática irmã Júlia. A atracção é mútua e a paixão nasce.

Mas Charles continua com enormes dificuldade em travar a rota de autodestruição de Sebastian.

Qual o destino de todos perante tanta adversidade?

Brideshead Revisited - Film - Screenshot 1

Nunca seria fácil.

A profundidade emocional, a densidade narrativa, a riqueza de eventos e personagens. Tudo é de tal modo vasto e detalhado no romance de Evelyn Waugh, que não é compatível com a “limitação” (refiro-me ao screen time) do Cinema.

Aliás, por alguma razão (certamente essa), Waugh andou a rejeitar os avanços de Hollywood numa adaptação (luxuosa, certamente) cinematográfica desde a criação do seu romance.

 

Mais complicado ainda, perante a (magnífica e rigorosa – tanto como produto de audiovisual de elevadíssima qualidade, como perante a devidamente erudita adaptação de tão erudito livro) série televisiva de 1981, que teve duração para tanto detalhe (afinal, estamos perante um “duelo” de uma série com cerca de 13 horas face a um filme com pouco mais de 2).

Brideshead Revisited - Film - Screenshot 2

Mas sobre esta comparação já lá irei.

 

Regressemos ao filme, pelo filme.

Brideshead Revisited - Film - Screenshot 4

Estamos em ambientes intelectuais, lúdicos, luxuosos, nobres, eruditos, religiosos.

Mas tudo é uma tragédia (no que a narrativa conta, não na forma cinematográfica, OK?).

Brideshead Revisited - Film - Screenshot 5

Tragédia de uma amizade, profunda e intensa, mas levada ao limite.

Tragédia de um homem, caído na sua infelicidade e autodestruição.

Tragédia de uma família, presa ao seus valores (inflexíveis), mas capaz de arrastar os que dela se aproximam.

Tragédia de uma mulher, autoritária e dominadora sobre os seus, mas incapaz de amá-los e salvá-los.

Tragédia de um casal, fortemente movido pelo desejo e pelo amor, mas derrotados por um destino delineado pela religiosidade.

Tragédia de sentimentos, incapazes de fazer frente a fundamentalismos religiosos.

Tragédia de um homem, só e em busca da sua oportunidade de ser feliz e viver, que paga um preço (bem alto) por tal demanda.

Brideshead Revisited - Film - Screenshot 7

A (belíssima) prosa de Evelyn Waugh consegue ter a devida tradução cinematográfica, mas (pelas regras do meio) há que ir directo ao assunto.

O argumento centra-se no essencial, mas nota-se a brusca transição nalguns momentos e a curta duração de episódios relevantes (a vida em Oxford, a estadia em Brideshead, a relação com os amigos de Sebastian, o casamento de Charles), que mereciam (e precisavam) de mais metragem (o filme seria mais rico se tivesse uma duração perto das 3 horas).

Brideshead Revisited - Film - Screenshot 9

Bons valores de produção (como sempre, nestas coisas de period time quando Made in UK), com óptimos resultados nas áreas de fotografia, cenografia e guarda-roupa.

 

Boa música de Adrian Johnston.

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Os nostálgicos tem uma belíssima e saudosa revisitação – o Brideshead do filme é o mesmo Brideshead da série televisiva.

Brideshead Revisited - Film - Screenshot 10

Brideshead Revisited

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Brideshead Revisited

O filme faz-se rechear de bons talentos, jovens e veteranos.

Michael Gambon é um Lord Marchmain perfeitamente caído numa vida boémia e isenta de sentimentos.

Greta Scacchi tem uma curta mas simpática prestação.

Emma Thompson cria uma lady Marchmain dominadora e controladora, que será pivot para a tragédia humana que afectará os seus e os em redor.

Ben Whishaw compõe um Sebastian frágil, extravagante, carente, mas sem salvação.

Hayley Atwell faz uma Julia verdadeiramente fria, sedutora, sensual, ardente, presa a convicções e incapaz de amar.

Matthew Goode é um perfeito Charles. Só, em busca da sua essência, da sua felicidade, de pessoas, de vida, de amor e de arte, ilustrando bem a sua dor perante a tragédia da perda.

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Julian Jarrold, veterano de Televisão e com algum curriculum em Cinema, dirige com eficácia e elegância.

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Brideshead Revisited - Film - Screenshot 20

“Brideshead Revisited” não deve ser visto como um Remake.

É “apenas” uma nova adaptação, ou a (tão desejada desde há décadas) adaptação cinematográfica.

Devido à “regra” da duração da metragem (e sabe-se que a Miramax meteu-se no processo de montagem final e retirou muita coisa – parece que o cut inicial era de 150 minutos, com um cut final de 130, havendo um Director`s Cut de 133) o filme tem de ir directo ao assunto, escolher os eventos mais relevantes, cortar personagens e focar-se nos centrais.

Mas este é o “azar” de qualquer filme que adapte ou já tenha tido como antecessor uma série televisiva (“The Saint”, “Mission Impossible”, “The Fugitive”, “The Twilight Zone”, “Wild Wild West”, “Maverick”, “The Avengers”).

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Mas há boas coisas a destacar no filme face à série.

O filme nunca procura imitar ou fazer melhor, mas consegue inteligentes variações (Julia partilha momentos com Charles e Sabastian; as conversas entre Charles e Lady Marchmain), adendas (os motivos de Charles para se aproximar de Sebastian e dos Marchmain) e modificações (o final é diferente do criado no livro e na série), sendo mais aberto na exploração da sexualidade (homo para Sebastian; hétero para Charles & Julia, onde é forte a carga de desejo e tensão criada por tal).

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Há uma vencedora no filme, face à série – Hayley Atwell faz-nos esquecer Diana Quick. Não que Diana seja má actriz, tenha tido uma má interpretação ou seja feia; mas Hayley tem um encanto, beleza e sensualidade absolutamente arrebatadoras, conseguindo fazer compreender o fascínio & desejo de Charles por Julia.

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Uma muito correcta (e luxuosa) adaptação de um clássico da Literatura, que traduz a essência da obra de Evelyn Waugh e a sua profundidade emocional, embora (por razões óbvias e já referidas) não consiga abordar todo o detalhe humano e emocional do material original.

 

Muito recomendável.

 

“Brideshead Revisited” tem edição portuguesa e anda a bom preço. O filme tem várias edições europeias, a bom preço também.

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Realizador: Julian Jarrold

Argumentistas: Andrew Davies, Jeremy Brock, a partir do romance de Evelyn Waugh

Elenco: Matthew Goode, Ben Whishaw, Hayley Atwell, Emma Thompson, Michael Gambon, Felicity Jones, Greta Scacchi, Anna Madeley, Patrick Malahide, Richard Teverson, Joseph Beattie, Roger Walker, Mark Field, Rita Davies, Ed Stoppard, Geoffrey Wilkinson, James Bradshaw, Jonathan Cake

 

Site – http://www.bridesheadrevisited-themovie.com/

 

Trailer

 

Making of

 

Entrevistas

 

Matthew Goode

 

Matthew Goode & Hayley Atwell

 

Ben Whishaw

 

Julian Jarrold

http://nycmovieguru.com/julianjarrold.html

 

A banda sonora

 

Orçamento – 20 milhões de Dólares

Bilheteira – 6 milhões de Dólares (USA); 13.5 (mundial)

 

Brideshead Revisited - Film - Poster 2

David Yates ia ser o realizador, mas foi chamado para “Harry Potter and The Order of The Phoenix” (2007; Yates ficaria na saga até ao fim).

Enquanto Yates estava designado, o elenco tinha Paul Bettany, Jennifer Connelly e Jude Law como protagonistas (respectivamente, com os personagens de de Charles, Julia e Sebastian). Chatsworth House, no Derbyshire, ia ser a Mansão Brideshead.

Brideshead Revisited - Film - Poster 3

Filmado no Verão de 2007, num dos Verões mais chuvosos de sempre na Inglaterra.

As cenas passadas em Oxford foram lá filmadas e recorreu-se a estudantes locais como extras.

 

Emma Thompson ameaçou abandonar a produção se os produtores continuassem a insistir para que Hayley Atwell perdesse peso.

 

O final do filme é diferente do criado para o livro e para a série televisiva.

 

À semelhança da série televisiva de 1981, Castle Howard voltou a ser a Mansão Brideshead.

Sobre Castle Howard:

https://www.castlehoward.co.uk/

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O (excelente) romance de Evelyn Waugh tem edição portuguesa, através da editora Relógio D`Água. Outros romances de Waugh estão editados pela mesma editora.

 

Sobre o livro:

https://www.commonwealmagazine.org/brideshead-revisited-revised

 

John Gielgud (que interpreta o pai de Charles, na série televisiva) a ler o audiobook de “Brideshead Revisited”:

 

Sobre Evelyn Waugh:

http://www.doubtinghall.co.uk/

https://www.britannica.com/biography/Evelyn-Waugh

https://www.goodreads.com/author/show/11315.Evelyn_Waugh

https://www.theguardian.com/books/evelynwaugh

https://www.thriftbooks.com/a/evelyn-waugh/199691/

https://www.penguin.co.uk/authors/8754/evelyn-waugh.html

https://evelynwaughsociety.org/about-evelyn-waugh/

https://blog.bookstellyouwhy.com/a-brief-guide-to-evelyn-waugh

https://www2.le.ac.uk/projects/evelyn-waugh/about/bio

https://www.theparisreview.org/interviews/4537/evelyn-waugh-the-art-of-fiction-no-30-evelyn-waugh

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One comment on “Reviver o Passado em Brideshead (2008)

  1. […] livro seria alvo de uma adaptação cinematográfica (já aqui vista) em […]

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