O Beijo Fatal (1955)

Kiss Me Deadly - Poster 1

 

Título original – Kiss Me Deadly

 

Mickey Spillane e o seu detective Mike Hammer tornaram-se favoritos do Hardboiled Noir.

Eis a melhor das adaptações.

 

Mike Hammer, detective privado especialista em divórcios, dá boleia a uma mulher que vagueia pela estrada, em fuga. A rapariga é morta e Hammer quase que segue o mesmo destino.

Disposto a compreender o que se passou, Hammer pega nas poucas pistas que tem e investiga. E encontra uma conspiração mais destrutiva do que alguma vez pensou. 

Kiss Me Deadly - screenshot 1

Será este o primeiro (e único) Film Noir nuclear e/ou apocalíptico? Tudo indica que sim.

Mas já lá vamos.

Kiss Me Deadly - screenshot 2

Kiss Me Deadly - screenshot 3

Na sua estrutura base, o argumento segue uma clássica detective story, bem labiríntica, plena de mistérios e falta de pistas, com o protagonista a agarrar-se a tudo o que pode e encontra para conseguir encontrar pistas.

Kiss Me Deadly - screenshot 4

Kiss Me Deadly - screenshot 5
O espectador, tal como Hammer, sabe (exactamente) o mesmo.

Kiss Me Deadly - screenshot 6

Muito interessante resulta a visão amoral/imoral de Hammer – é mostrado (pela Polícia) como um detective low-life que usa a sua secretária para seduzir os maridos das suas clientes e criar a ideia que eles são infiéis, permitindo que o detective ganhe uma (choruda) comissão pela indemnização do divórcio.

(era algo raro mostrar-se um Private Detective de fraca conduta moral)

Kiss Me Deadly - screenshot 14

É no último acto que o filme revela o seu efeito MacGuffin e a narrativa ganha contornos surpreendentes, tenebrosos e apocalípticos.

Fala-se muito (ou nada?) sobre uma certa mala e o seu conteúdo, e aí só podemos (nós e Hammer) especular. E é nesse aspecto que o filme aborda (subtilmente) o nuclear (um tema que já começava a ser moda na época, dento da sociedade, política, cinema, televisão, literatura, bd e ciência), culminando num final assustador e surpreendente (na verdade houve dois à escolha e um é bem atípico e apocalíptico).

Kiss Me Deadly - screenshot 15

É precisamente por esta componente narrativa final e pelo seu desfecho que “Kiss Me Deadly” ganhou a reputação de ser um Film Noir nuclear/apocalíptico.

Se é apenas um truque narrativo para tornar a história mais fascinante ou usar tal ideia para dar ao filme um ar de parábola apocalíptica (fala-se em Pandora e na esposa de Lot), só os autores saberão, com espaço para a opinião de cada espectador.

Mas resulta, tem impacto e dá ao filme (principalmente à medida que caminhamos para o final e cada vez mais surge um maior interesse na mala e possibilidades sobre o seu conteúdo) um tom pouco habitual no género (e, desde então, nunca imitado ou igualado).

Kiss Me Deadly - screenshot 10

A momentos, o filme tem um look terrorífico (as torturas, os raptos, a aparição sinistra do vilão – que nunca é visto).

Kiss Me Deadly - screenshot 11

Kiss Me Deadly - screenshot 12

Kiss Me Deadly - screenshot 13

Fiel ao estilo dos romances de Spillane, o tom é duro e bem violento (pode-se dizer que o filme até é muito avant-garde nesse aspecto), devidamente machista e misógino.

 

Por outro lado, dá-se relevo à densa relação entre Mike e Velda (a sua secretária). A certo momento:

  • Mike diz a Velda – “you´re never around when I need you.
  • Velda responde a Mike – “you never need me when I´m around.

Kiss Me Deadly - screenshot 8

Excelente fotografia, bem negra e contrastada.

Kiss Me Deadly - screenshot 9

Ralph Meeker compõe um Mike Hammer em perfeita sintonia com os livros (duro, heróico, violento, machista, misógino e conquistador). Praticamente que antecipa o estilo que Daniel Craig daria a James Bond. Meeker torna-se o melhor Mike Hammer de sempre.

Boa prestação do restante elenco.

Kiss Me Deadly - screenshot 16

Kiss Me Deadly - screenshot 17

Kiss Me Deadly - screenshot 18

Robert Aldrich dirige com vigor, criando uma atmosfera sempre misteriosa, estranha e assustadora.

Kiss Me Deadly - screenshot 19

Kiss Me Deadly - screenshot 20

Um dos mais estranhos, fascinantes, sinistros e perfeitos Film Noir de sempre.

 

Clássico e obra-prima total.

 

Obrigatório.

 

“Kiss Me Deadly” não tem edição portuguesa, mas existe noutros mercados, a bom preço. 

Kiss Me Deadly - screenshot 21

Realizador: Robert Aldrich

Argumentista: A.I. Bezzerides, a partir do romance de Mickey Spillane

Elenco: Ralph Meeker, Albert Dekker, Paul Stewart, Juano Hernandez, Wesley Addy, Marian Carr (como Marion Carr), Mort Marshall, Fortunio Bonanova, Strother Martin, Jack Elam, Jack Lambert, Maxine Cooper, Cloris Leachman, Gaby Rodgers

 

Trailer

 

Orçamento – 410.000 Dólares

Bilheteira – 726.000 Dólares (USA); 226.000 Dólares (resto do mundo)

 

Kiss Me Deadly - Poster 3

“Filme a Preservar”, pelo National Film Preservation Board USA 1999.

Kiss Me Deadly - Poster 4

Robert Aldrich assinou contrato para a realização do filme sob a condição que teria liberdade total.

Victor Saville é o produtor do filme. Saville era o produtor de vários filmes que adaptavam romances de Mickey Spillane com Mike Hammer – “I, The Jury” (1953), “Kiss Me Deadly” (1955), “My Gun is Quick” (1957, que ele co-realizaria, com pseudónimo). “The Long Wait” (1954) seria realizado por ele, adaptava um romance de Spillane, mas era protagonizado por outro personagem.

 

Primeiro filme de Cloris Leachman e Maxine Cooper.

 

Filmado em menos de três semanas.

Kiss Me Deadly - Backstage

É o primeiro de três filmes de Aldrich em que alguém chora no genérico inicial.

Kiss Me Deadly - Promo Photo 1

O filme teve direito a dois finais:

  • 1) O que se vê no cut oficial.
  • 2) O outro é mais curto que o oficial, sendo mais apocalíptico. Este final consta nos extras de algumas edições DVD.

O segundo final passou a ser o definitivo pouco tempo depois da estreia do filme (quando o filme foi exibido na RTP, há muitos anos, era esse final que se mostrava). Talvez por causa disso, haja quem descreva “Kiss Me Deadly” como “the definitive, apocalyptic, nihilistic, science-fiction film noir of all time”.

Só em 1997 é que o filme sofreu uma reedição e ficou com o final original.

Kiss Me Deadly - Poster 6

A “Kefauver Commission”, uma unidade federal que visava denunciar e destruir formas de corrupção e manipulação moral, atacou “Kiss Me Deadly” como um filme muito perigoso para a juventude americana. Aldrich moveu-se e iniciou uma campanha sobre a livre expressão dos realizadores de cinema americano.

 

Ernest Laszlo (o Director of Photography do filme) considera que “Kiss Me Deadly” é o seu melhor trabalho.

 

Filmes como “Repo Man”, “Ronin”, “Pulp Fiction”, “Guardians of the Galaxy” e “Southland Tales” homenageiam “Kiss Me Deadly” devido ao pormenor da mala.

Está nos “1001 Movies You Must See Before You Die”, de Steven Schneider.

Kiss Me Deadly - Book Cover 1

O livro de Mickey Spillane centra-se numa conspiração da Máfia. O filme elabora uma mais complexa à volta de outras questões. O filme também dá uma imagem mais dura, violenta e imoral de Mike Hammer. Spillane nunca gostou do argumento do filme.

Kiss Me Deadly - Book Cover 2

Mickey Spillane tem títulos editados em Portugal. Aconteceu nas colecções “Vampiro” (de formato de bolso, e dedicada aos grandes romances do género) e “Vampiro Gigante” (de tamanho maior, onde se fazia uma colecção por escritor). Já são uma raridade nas lojas.

 

Sobre Mickey Spillane:

https://www.goodreads.com/author/show/50948.Mickey_Spillane

http://www.thrillingdetective.com/trivia/spillane.html

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/07/17/AR2006071700990.html

https://www.mysterytribune.com/the-ultimate-guide-to-mickey-spillane-books-movies-and-mike-hammer/

https://www.goodreads.com/series/57435-mike-hammer

https://www.biography.com/people/mickey-spillane-9490694

Kiss Me Deadly - Poster 7

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