O Ano do Dragão (1985)

Year of the Dragon - Poster 1

 

Título original – Year of the Dragon

 

Michael Cimino esteve em alta com “The Deer Hunter” (1978).

Mas o seu nome logo foi afogado com o (gigantesco) flop de “Heaven`s Gate” (1980).

Eis o seu implacável comeback.

 

Chinatown, Nova Iorque.

A zona anda ao rubro com as acções da Tríade local, comandada pelo jovem e ambicioso Joey Tai.

Stanley White, duro e veterano Capitão da Polícia, entra em cena para desbaratar o crime local.

O confronto será brutal, com fortes e trágicas consequências para os dois lados.

Year of the Dragon - screenshot 1

Year of the Dragon - screenshot 2

Para além das suas (muitas) qualidades enquanto policial sobre a luta contra o crime organizado, “Year of the Dragon” arrasta também nuances muito particulares e brilhantes.

 

Todo o argumento assenta em duelos:

  • duelo de visões e atitudes dentro da Polícia (White é activo face à passividade dos seus superiores).
  • duelo de alianças (White dá-se bem com alguns dos anciãos de Chinatown)
  • duelo de estabilidade emocional, sentimental e relacional – White tem o casamento no caos e inicia um affaire; Tai uma vida mais sólida.
  • duelo de atitude social – White cria quezílias com todos; Tai faz bem pela comunidade.
  • duelo de atitude familiar – White deixa a esposa para segundo plano, face ao trabalho; Tai trata do negócio, mas sempre com sentido e presença familiar.
  • duelo interior – White quebra-se perante a sua vulnerabilidade e confessa a sua total solidão; Tai é um homem com uma harmonia mais visível.

Year of the Dragon - screenshot 3

Year of the Dragon - screenshot 4

Depois, o filme tem muita atenção a certos detalhes:

  • “lições” de História dos USA à volta da presença e relevância dos chineses.
  • o contraste entre o nome de White (branco, em Inglês) e a sua atitude/visual – o cabelo é branco, White é racista (mesmo até com a sua ascendência – ele é polaco), procura a vitória sobre o inimigo (amarelo) como compensação/vingança pela derrota no Vietname.
  • o cuidado com a decoração dos interiores e a imensidão da arquitectura (interior e exterior).
  • a contrastar com o festim visual (cor, roupa, decors), há um festim de violência (massacres, execuções, decapitações, mutilações, tiroteios e explosões).

Year of the Dragon - screenshot 13

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Como policial sobre confrontação, claro que aquele que opõe os duelistas chega a um ponto onde tudo explode – o filme tem 40 minutos finais absolutamente arrasadores, culminando num duelo final onde só um pode sobreviver.

 

Argumento sólido e blindado, que é um verdadeiro modelo para o género, pela forma como concilia caracterização dos personagens, as devidas emoções, retrato realista dos ambientes em cena, sem negligenciar o entretenimento.

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Mickey Rourke tem uma interpretação absolutamente fabulosa, plena de raiva e dor. É uma das suas melhores performances, que só seria superada em “The Wrestler” (2008).

John Lone dá excelente réplica, com um vilão subtil, sofisticado e hábil.

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Michael Cimino dirige com estilo, elegância, mestria, sabendo dar o punch necessário que a narrativa exige.

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“Year of the Dragon” foi um dos melhores filmes de 1985.

É também um dos melhores filmes da década e um dos melhores policiais de sempre (até porque, infelizmente, Hollywood já perdeu a habilidade de fazer policiais deste nível).

 

Obrigatório.

 

“Year of the Dragon” tem edição portuguesa e anda a bom preço.

 

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Realizador: Michael Cimino

Argumentistas: Oliver Stone, Michael Cimino, a partir do romance de Robert Daley

Elenco: Mickey Rourke, John Lone, Ariane, Leonard Termo, Raymond J. Barry, Caroline Kava, Eddie Jones, Joey Chin, Victor Wong, Dennis Dun

 

Trailer

 

Orçamento – 24 milhões de Dólares

Bilheteira – 18 milhões de Dólares

 

Year of the Dragon - Poster 4

“Melhor Filme”, nos Prémios Joseph Plateau 1986.

Esteve nomeado para “Melhor Filme Estrangeiro”, nos César 1986. Perdeu para “The Purple Rose of Cairo”.

Teve várias nomeações (???) para os Razzie 1986 – “Pior Filme” (“perdeu” para “Rambo: First Blood – Part II”), “Pior Realizador” (Michael Cimino foi “derrotado” por Sylvester Stallone em “Rocky IV”), “Pior Actriz” (Ariane “perdeu” para Linda Blair em “Night Patrol”), “Pior Argumento” (o “vencedor” foi “Rambo: First Blood – Part II”), “Pior Actriz Estreante” (Ariane foi “derrotada” por Brigitte Nielsen em “Red Sonja” e “Rocky IV”).

Year of the Dragon - Poster 2

Michael Cimino já tinha sido abordado diversas vezes no sentido de adaptar ao Cinema o romance de Robert Daley, mas tinha recusado sempre.

 

Cimino e Oliver Stone conheceram-se na pré-produção de “Midnight Express” (1978; Stone era o argumentista). Cimino tinha sido convidado para realizar, mas recusou devido a “The Deer Hunter”. Quando foi convidado para “Year of the Dragon”, Cimino chamou Stone para o ajudar no argumento.

 

Clint Eastwood (que já tinha trabalhado com Cimino – “Magnum Force” e “Thunderbolt & Lightfoot”, de 1973 e 1974; Cimino escreveu ambos e estreou-se na realização com o segundo) e Paul Newman foram sondados como protagonista, mas recusaram. Nick Nolte e Jeff Bridges (que já tinha trabalhado com Cimino – “Thunderbolt & Lightfoot” e “Heaven`s Gate”) também foram ponderados.

Cimino viu Mickey Rourke em “The Pop of Greenwich Village” (1984, de Stuart Rosenberg, com Daryll Hannah e Eric Roberts) e ficou muito bem impressionado. Rourke foi então chamado. Rourke já tinha trabalhado com Cimino em “Heaven`s Gate”.

Joan Chen foi abordada, mas Cimino preferiu Ariane, devido a seu look meia-americana, meia-chinesa. Cimino não queria uma actriz com ar demasiado oriental.

Year of the Dragon - screenshot 6

Os exteriores eram filmados em North Carolina. Os sets eram tão realistas, que até Stanley Kubrick se deixou enganar.

As filmagens também passaram por Nova Iorque, Toronto, Vancouver e Bangkok.

O apartamento de Tracy não é um set. Foi mesmo filmado no interior de um apartamento, cujo interior foi criado de propósito para o filme.

Year of the Dragon - screenshot 10

Oliver Stone reduziu o seu salário na esperança que Dino De Laurentiis (produtor de “Year of the Dragon”) lhe produzisse “Platoon”. De Laurentiis recusou. Curiosamente, “Year of the Dragon” foi um flop e “Platoon” (que Stone faria com outro estúdio e produtores) seria um sucesso. Tal flop foi decisivo para De Laurentiis se retirar do Cinema. De Laurentiis e Cimino ainda fariam mais um filme juntos (“The Sicilian”), pleno de confusões logísticas e artísticas que resultou no mesmo – flop total de público e crítica.

 

Michael Cimino teve autorização para o final cut, mas teve de fazer concessões no final. A line final que se ouve não é a que é dita por Rourke. A line original era ‘Well, I guess if you fight a war long enough, you end up marrying the enemy.‘. A line que se ouve é `You were right and I was wrong. I’d like to be a nice guy. But I just don’t know how to be nice. ´.

Ao contrário do que lhe era já reputação, Cimino conseguiu terminar as filmagens dentro do orçamento previsto.

 

Primeiro filme de Dennis Dun.

John Lone, Victor Wong e Dun reencontrar-se-iam em “The Last Emperor” (1987, de Bernardo Bertolucci).

Dun e Wong reencontrar-se-iam em “Big Trouble in Little China” (1986) e “Prince fof Darkness” (1988), ambos de John Carpenter.

 

O protagonista é o Capitão Stanley White. No genérico final descobre-se que o “Technical Police Consultant” é um certo… Stanley White.

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Apesar da (merecida) reavaliação que o filme tem tido desde então, na época o filme recebeu muitas más críticas.

Na época de estreia, o filme foi alvo de violentos protestos da comunidade chinesa americana. Esta não gostou da forma como era mostrada no filme.

Cimino defendeu o seu filme, dizendo que ele fala de racismo mas não é racista.

 

O “Cahiers du Cinéma” considerou “Year of the Dragon” como o terceiro melhor filme de 1985.

É um dos filmes preferidos de Quentin Tarantino.

Melanie Chisholm (uma das Spice Girls) inspirou-se em “Year of the Dragon” para o video de “Too Much”.

 

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