Desaparecida! (1938)

The Lady Vanishes - 1938 - Poster 1

Título Original – The Lady Vanishes

 

É um dos filmes finais de Hitchcock no seu Período Britânico.

E é (com toda a justiça) um dos seus títulos mais aclamados, populares e melhores.

Uma verdadeira lição de cinema de entretenimento, com (grande) estilo.

 

Europa de Leste, numa pequena povoação. Iris Henderson é jovem, rica, mimada e prestes a casar. Aproveita os últimos dias de celibato para a sua despedida de uma vida de borga. O combóio vai levá-la de volta a Inglaterra. A caminho conhece a simpática Miss Frioy, uma preceptora. Mas Miss Froy desaparece, Iris não a encontra e todos negam a sua existência. É uma conspiração ou Iris sonhou tudo?

The Lady Vanishes - 1938 - screenshot 13

Um cocktail de acção, aventura, intriga, suspense e comédia, como só Hitchcock sabe.

Mas não se pense que isto é apenas entrenimento e peripécias.

Hitchcock pega em todo o seu savoir faire cinematográfico e faz um verdadeiro luxo de entretenimento, para os olhos e o cérebro, sempre atento ao pormenor, características, rigor narrativo e técnicas cinematográficas.

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Sabe-se o quanto Hitchcock gosta de comboios (“Number Seventeen”, “The 39 Steps”, “Strangers on a Train”, “North by Northwest”) e este filme é mais uma prova, com dois terços da narrativa a passar-se em carruagens. O comboio é cenário e espaço, mas quase um personagem que cerca os personagens.

Depois há todo aquele rigor de Hitchcock, seja do ponto de vista técnico (as opções visuais), como narrativo (os personagens e os seus tiques e comportamentos)

Desde os movimentos de câmara (o plano inicial) ao recurso aos miniature effects (o que se passa nesse plano inicial), até ao uso do mudo (de onde Hitchcock é oriundo) que mostram o quanto ele sabe ilustrar situações só com recurso à imagem (a cena inicial).

Depois há a ironia (a forma como Hitchcock mostra a vida hoteleira e policial de um país de Leste), a ambiguidade sexual (o par de ingleses fanáticos de cricket), a “imoralidade” (o casal adúltero), a malícia (o vizinho a invadir o quarto da menina), o humor inesperado (a dança e música folclórica do vizinho de cima, a interrupção da explicação “açucarada” sobre cricket), o mistério (a serenata e o assassinato, a tentativa de agressão com o vaso), a atenção ao detalhe (o nome no vidro, o pacote de chá, os tacões), a caracterização visual (a forma como Hitchcock induz o espectador sobre cada personagem), a agonia (a luta lenta na “carruagem da magia”), a acção (a confrontação, cerco e perseguição final), o absurdo (a intriga parece não fazer sentido), o efeito MacGuffin (a mensagem em código) e, claro, o suspense (quem é quem, porque todos mentem, Miss Froy existe ou não, Iris diz a verdade ou é uma alucinação dela, as sucessivas reviravoltas sobre as (des)aparições de Miss Froy e as afirmações das testemunhas).

Todo um desfile da mestria de um génio dentro do género e da linguagem cinematográfica.

E com tal, “The Lady Vanishes” é uma verdadeira lição de como fazer Cinema, sem medo de ser entretido, popular, mas inteligente, cuidado e artístico.

The Lady Vanishes - 1938 - lobbycard 1

The Lady Vanishes - 1938 - lobbycard 2

The Lady Vanishes - 1938 - lobbycard 4

Como sempre em Hitchcock, actores em estado de graça. A dupla Naunton Wayne e Basil Radford é verdadeiramente desconcertante. Dame May Whitty é encantadora. Paul Lukas consegue ser simpático e maléfico. Michael Redgrave é um prodígio de ironia. Margaret Lockwood cativa e fascina.

The Lady Vanishes - 1938 - screenshot 4

The Lady Vanishes - 1938 - screenshot 10

The Lady Vanishes - 1938 - screenshot 8

Subtilmente, o filme foca a possibilidade de uma nova guerra na Europa.

(não se engana muito, pois ela começaria no ano seguinte)

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O filme cativa pelo ritmo cuidado, tenso e nunca precipitado. Envolve pelos eventos. Diverte-nos pela variedade carismática de tantos personagens.

Uma verdadeira maravilha de Cinema, no género e na obra de Hitchcock.

Provavelmente, o seu melhor filme do período britânico.

The Lady Vanishes - 1938 - screenshot 7

“The Lady Vanishes” tem edição portuguesa e a preço que apela a “desaparecer” para a prateleira do cinéfilo. A nossa edição e muitas das europeias têm os seus extras verdadeiramente vanished. Recomendo a edição da Criterion Collection, mas o preço é muito “aparecido”. Na Inglaterra saiu recentemente uma Special Edition (em DVD e Blu-Ray), com bons conteúdos, mas o preço ainda está alto.

The Lady Vanishes - 1938 - screenshot 9

Realizador: Alfred Hitchcock

Argumentistas: Sidney Gilliat, Frank Launder, a partir do livro de Ethel Lina White (“The Wheel Spins”)

Elenco: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, Dame May Whitty, Cecil Parker, Linden Travers, Naunton Wayne, Basil Radford, Mary Clare, Catherine Lacey, Philip Leaver

The Lady Vanishes - 1938 - screenshot 14

Trailer –

 

Filme –

 

Em HD 720p

 

Em resolução standard e com legendas em “português”

The Lady Vanishes - 1938 - screenshot 1

“Melhor Realizador”, pelos Críticos de Nova Iorque 1939.

The Lady Vanishes - 1938 - Backstage 2

Inicialmente intitulado “The Lost Lady”, seria realizado por Roy William Neill e com filmagens na Jugoslávia. Quando as autoridades locais descobriram que o filme não dava uma boa imagem delas, expulsaram a equipa. Hitchcock é chamado e faz alterações no argumento (nomeadamente o início e final).

É o primeiro filme de Michael Redgrave. Redgrave era uma rising star no Teatro e estava algo relutante em aceitar passar para o Cinema, mas foi convencido por John Gielgud (outra grande figura do Teatro, com curriculum em Cinema, que já tinha trabalhado com Hitchcock – “Secret Agent”). Redgrave e Hitchcock não se deram bem – o actor queria ensaiar muito e o cineasta preferia a improvisação e a espontaneidade.

The Lady Vanishes - 1938 - Backstage 1

É o primeiro filme de Catherine Lacey.

Lilli Palmer foi considerada por Hitchcock para ser protagonista.

Vivien Leigh chegou a fazer testes para ser protagonista.

Margaret Lockwood era grande fã dos contos e heroínas da escritora Ethel Lina White.

O filme tem algumas diferenças face ao livro. Neste, Miss Froy é raptada pois pensa-se que ela sabe algo (embora ela ache que nada sabe) sobre as autoridades locais (a cidade onde se inicia a acção); Iris sente-se mal devido a longa exposição solar; o combóio nunca pára; não há tiroteio final; a dupla Charters & Caldicott não tem equivalente no livro, pois foram criados prepositadamente para o filme.

Hitchcock disse a Peter Bogdanovich que a ideia do filme se baseia numa lenda sobre uma senhora inglesa que viaja com a filha até à Grande Exposição Mundial no Palace Hotel de Paris, no final de 1880s. A senhora adoece, a filha percorre Paris em busca de um remédio. Quando regressa, não há mãe, ninguém a viu e até o quarto onde estavam foi modificado. No final, sabe-se que a senhora tinha peste bubónica, teve de ser retirada, tudo teve de ser limpo e não se podia dizer a verdade para evitar o pânico na cidade.

É um dos filmes preferidos de Orson Welles, que chegou a vê-lo cerca de 11 vezes.

François Truffaut chegou a afirmar que este era o seu filme preferido de todos os de Hitchcock, considerando que era o que melhor representava o trabalho do cineasta.

Charters & Caldicott (Basil Radford e Naunton Wayne) tornaram-se personagens tão populares, que chegaram a reaparecer noutros filmes. “Night Train to Munich” (de 1940, também com grande parte da acção a decorrer num comboio, também com Margaret Lockwood, escrito pela mesma dupla de argumentistas de “The Lady Vanishes” – já aqui falei deste filme), “Millions Like Us” (de 1943, escrito pela mesma dupla), “Crook’s Tour (de 1941, vindo de um serial da radio BBC) e “Secret Mission 609”. O remake de 1979 manteria os personagens (interpretados por Arthur Lowe e Ian Carmichael). Em 1985, os dois personagens reaparecem numa série da BBC, chamada Charters & Caldicott – Robin Bailey e Michael Aldridge eram os protagonistas.

Sobre Charters & Caldicott – http://www.chartersandcaldicott.co.uk/

The Lady Vanishes - 1938 - screenshot 11

Foi um enorme sucesso nas bilheteiras, pondo fim a um ciclo de três flops consecutivos (“Secret Agent”, “Sabotage”, “Young and Innocent”).

Cameo de Alfred Hitchcock – perto do final, na estação Victoria, é ele o homem de casaco preto e a fumar, que abana os ombros. The Lady Vanishes - 1938 - Poster 2

One comment on “Desaparecida! (1938)

  1. […] aqui falei (e muito bem) de um e do […]

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