Sin City (2005)

 

Sin City - Poster Movie

A saga mais pecadora está de volta.

Regressemos ao “pecado original”.

 

Basin City é uma verdadeira Sin City.

Quatro contos, à volta de gente que faz a sua vida no e contra o crime.

Sin City - screenshot 1

Frank Miller é um dos mais consagrados nomes do mundo da banda desenhada. Uma verdadeira lenda viva, que trabalhou em diversos estúdios, por diversos géneros, com os mais diversos tipos de personagens, incluindo alguns dos mais relevantes super-heróis.

Com a saga “Sin City”, Miller mostra o seu amor pelo hard-boiled noir (romances e filmes) – algo que já se tinha percebido nalgumas histórias que delineou para Spider-Man, Daredevil, The Punisher e Batman.

Miller cria histórias que ilustram todo o negrume e amoralidade daquele género, apoiado num grafismo muito carregado.

Por isso, existiam muitas razões para se aguardar com expectativa este “Sin City” – o filme.

A adaptação de uma série de culto de Frank Miller, o excelente cast, a técnica utilizada para as filmagens, o facto de Miller retomar relações com Hollywood (ele ficou muito “fragilizado” com as suas tentativas em “RoboCop 2” e “RoboCop 3”), Miller como co-realizador do filme, a presença de Tarantino para realizar uma sequência, bem como todo o marketing à volta que considerava o filme como a melhor adaptação cinematográfica de bd e uma nova referência no género Cinema-BD.

Sin City - screenshot 3

“Sin City” (a bd) é uma série criada por Miller no início dos anos 90. Miller pretendia apenas fazer um título, mas o sucesso (crítico e público) foi tal que Miller continuou com mais títulos. Com histórias situadas em Basin City, que na gíria dos habitantes é referida como Sin City, Miller reformula os conceitos do film noir americano bem como toda a literatura hard-boiled evidenciada por nomes (relevantes) como Raymond Chandler, James Cain, Jim Thompson, Mickey Spillane ou Dashiell Hammett, com uma violência levada ao extremo, carregada sensualidade e um forte e contrastado grafismo a preto-e-branco. Cada volume é independente, com personagens que podem reaparecer. A protagonista da saga é mesmo a cidade, dominada pelo crime e violência, onde ninguém é inocente e todos os que querem sobreviver têm se ser mais “pecadores” que os seus inimigos. Uma cidade carregada de políticos e polícias corruptos, prostitutas, gangs em guerra e assassinos; os homens são feios, porcos e maus; as mulheres são curvilíneas e mortais; os “bons” são homens e mulheres com alguns valores que sobreviveram à podridão do sidewalk, que usam todo o tipo de métodos para derrotar os “maus”.

Miller é um homem com grande prestígio no mundo dos comics e o seu talento chamou a atenção de Hollywood. Pediram-lhe os argumentos de “RoboCop 2” e “RoboCop 3”, mas o seu trabalho foi de tal modo censurado e alterado, que Miller jurou que nunca mais venderia os seus serviços e trabalhos à Meca do cinema (para além da excepção com este “Sin City”, haveria também “Batman: Year One”, em cuja adaptação Miller trabalhou com Darren Aronofsky – o projecto ficou cancelado e deu origem a “Batman Begins”, pela mão de Christopher Nolan).

Sin City - Elijah Wood- screenshot 2

Robert Rodriguez é um realizador mexicano que deu que falar em meados dos 90`s ao fazer “El Mariachi”, inventivo filme de acção feito com meia-dúzia de dólares, mas que ganhou um enorme culto no mundo inteiro e que deu origem a duas sequelas (com maior orçamento e mais vedetas – “Desperado” e “Once Upon a Time in Mexico”). Rodriguez trabalhou com Tarantino (em “Four Rooms” – filme em episódios, onde ambos assinaram alguns – e “From Dusk Till Dawn” – escrito e interpretado por Tarantino) e teve direito a outra saga/trilogia com “Spy Kids”. Rodriguez meteu-se ainda noutra saga (“Machete”, da qual ainda se fala em trilogia).

Rodriguez revelou-se um homem apaixonado por Cinema, rápido, competente, criativo, fácil, autor de um Cinema entre o B e o Z, mas sempre muito entretido.

Rodriguez é um grande fan da saga de Miller, pelo que decidiu adaptá-la. Consciente do cepticismo de Miller, Rodriguez empenhou-se. Rodou uma sequência (que no filme é o prólogo) e mostrou-a a Miller. Este ficou convencido e deu luz verde à adaptação. Rodriguez chamou o próprio Miller para co-realizar o filme (o que levou que Rodiguez fosse expulso do sindicado dos realizadores, pois este não permite co-realizações com não-realizadores) e convidou também Tarantino para dar uma perninha num dos episódios (Tarantino acabou por fazer apenas uma sequência do terceiro episódio).

Sin City - Brittany Murphy - screenshot 1

O filme trazia objectivos vários: um filme em episódios (à semelhança de “Pulp Fiction”), adaptação literal da obra de Miller (o filme seria “apenas” a conversão das pranchas de Miller para “24 imagens por segundo”), animação digital dos fundos e cenários por onde se movem os personagens (seguindo a técnica de “Sky Captain and the World of Tomorrow” – o marketing afirmava mesmo que “Sin City” era superior, neste aspecto, a “Sky Captain…”; não é isso que acontece, pois ambos, neste aspecto, estão ao mesmo nível).

 

Vários actores de Hollywood sentiram-se entusiasmados pelo projecto e Rodriguez consegue reunir um cast de sonho – Bruce Willis, Mickey Rourke, Clive Owen, Michael Clarke Duncan, Elijah Wood, Michael Madsen, Josh Hartnett, Benicio del Toro, Jessica Alba, Carla Gugino, Brittany Murphy, Jaime King e Rosario Dawson.

Guião não era necessário, pois ia-se seguir à letra a obra de Miller. As obras a adaptar seriam “The Hard Goodbye”, “The Big Fat Kill” e “That Yellow Bastard”.

 

Pecados Cinematográficos

Sin City - Marley Shelton e Josh Hartnett  - screenshot 1

Depois de um prólogo que revela toda a decadência, mortalidade, imoralidade e impossibilidade de inocência numa cidade onde não há saída (excepto através da morte), entramos na primeira história (em duas partes, a conclusão será no último terço do filme):

That Yellow Bastard

Sin City - Bruce Wilis - screenshot 1

Hartigan (um Bruce Willis com o físico e voz adequados) é o único polícia incorruptível na cidade. Prepara-se para a reforma, mas antes tem de salvar a jovem e inocente Nancy (interpretada na conclusão, por uma vulcânica Jessica Alba – depois vista como Invisible Woman em “Fantastic Four”) das mãos de um violador/assassino (um assustador Nick Stahl, que na conclusão aparece impecavelmente caracterizador como uma aberração… amarela) que é filho de uma figura importante da cidade.

Seguimos para o segundo episódio:

The Hard Goodbye

Sin City - Mickey Rourke - screenshot 1

Ilustra a violenta e sanguinária vingança de Marv (um excelente Mickey Rourke, num personagem que mais parece um decalque dele), que depois de uma noite tórrida com uma bela mulher (uma angélica Jaime King), acorda ao lado do seu cadáver, sendo injustamente perseguido pelo crime. Elijah Wood interpreta um repugnante personagem (e que muito irá mudar a sua inocente imagem criada por “The Lord of the Rings”). Carla Gugino interpreta uma fatale tentação aliada.

Sin City - Carla Gugino e Mickey Rourke - screenshot 1

Terceiro opus:

The Big Fat Kill

Sin City - Clive Owen - screenshot 1

Coloca um indivíduo (um Clive Owen a mostrar a sua destreza para o cinema de acção – e numa altura em que se falava do seu nome para incarnar James Bond) em luta contra um assassino de mulheres (um perturbante Benicio del Toro), cuja consequência será uma intensa luta de gangs. É neste episódio que temos direito à sequência realizada por Tarantino (a cena no carro), episódio que bem podia ser inteiramente por ele realizado, pois as meninas que nele intervêm parecem alunas/discípulas da personagem de Uma Thurman em “Kill BIll”. Devon Aoki, Rosario Dawson e Jaime King são algumas das beldades que dão uma (quente) ajuda.

Sin City - Rosario Dawson - screenshot 1

Para o fim, a conclusão de “That Yellow Bastard”, alguns anos depois, com Hartigan a tentar salvar a única inocência daquela cidade decadente.

Sin City - Bruce Wilis e Jessica Alba - screenshot 1

O último minuto de filme fecha o ciclo iniciado com o prólogo.

Sin City - Alexis Bledel e Josh Hartnett  - screenshot 1

É visível que Miller aprecia o film noir americano, que Rodriguez é fã de “Sin City” (a bd), que foi feito um excelente trabalho na animação das pranchas da série, mas… falta-lhe uma alma. Aquela que caracteriza O verdadeiro film noir.

“Sin City” (o filme) “só peca” por excesso de fidelidade à bd e ausência de conteúdo e essência (como existia no film noir). Estão lá os ingredientes básicos do filme negro, mas estão de forma “apenas” excessivamente visual. É certo que alguns dos últimos trabalhos (em bd) de Miller não primavam pela densidade emocional e psicológica dos personagens, por isso ao adaptar-se o seu trabalho deveria acrescentar-se o que está em falta. É por isso que obras como “Superman”, “Batman”, “Spider-Man” e “Hulk” são obras referenciais na adaptação de bd ao cinema (sendo também excelentes pérolas cinematográficas), porque não se limitaram a dar animação à fonte onde se baseiam. Desenvolveram os argumentos, os personagens têm consistência e densidade, os actores estão bem adequados aos personagens.

Aqui, fica “apenas” a ilustração (ainda que fantástica, fascinante e excitante – atenção ao contraste P&B e da luz e sombras, bem como a presença, nada acidental, de cores primárias) a 24 imagens por segundo das pranchas e da alma visual do género, os actores (talentosos e filmados com estilo, mas estamos longe dos grandes rostos do género) a declamarem os diálogos (longe do poder hipnótico, tentador e excitante dos grandes títulos do género), os homens com uma pose de duro, mau, com aspecto sujo (embora todos eles estejam excelentes nos personagens que incarnam, mas mais não lhes é pedido que o lado físico), e as mulheres com muito sex-appeal (destaque merece Jessica Alba, pois consegue personificar a inocência numa cidade que não permite a sua existência – na sua primeira aparição parece um anjo de luz num cenário negro, podre, sendo compreensível porque o detective a quer salvar e atingir a sua redenção).

Que esse era o principal objectivo de Rodriguez e Miller, não há dúvida, e nesse aspecto, o filme está plenamente/perfeitamente conseguido. Mas com algo mais, conseguia-se um filme verdadeiramente notável, no que seria um verdadeiro must do film noir.

Quase todos os episódios se caracterizam por uma falta de contraste entre os protagonistas e os seus antagonistas (defendemos o ponto de vista dos primeiros porque foram vítimas de uma injusta violência, mas eles nada têm de recomendáveis). São notórias as influências de Spillane e Thompson. Em matéria de influência literária, o mais perfeito é o episódio “That Yellow Bastard”, pois consegue com os personagens de Hartigan e Nancy mostrar que ainda há alguém incorrupto e límpido na cidade. Talvez o melhor e o mais lírico de todos, que parece retirado de um conto de Chandler.

Sin City - screenshot 5

Para os que procuraram a glória do film noir no panorama actual, procurem-na nos Irmãos Coen (“Blood Simple”, “Miller`s Crossing”, “The Big Lebowski”, “The Man who wasn`t there”), em David Mamet (“House of Games”, “The Spanish Prisoner”, “Heist”, “Spartan”) ou numa ou noutra pérola recente (“L.A. Confidential”, “Dark Blue”, “Road to Perdition” e “A History of Violence”).

Sin City - Elijah Wood- screenshot 1

Mas não me entendam mal. “Sin City” é um filme cheio de méritos (e nas suas virtudes é mesmo um marco e um título de referência), sendo também um muito irresistível pecado cinéfilo. Se nos deixarmos levar pelas imagens e pelos objectivos primários de Rodriguez e Miller, o filme é um deleite. Desfrutemos, pois, deste saboroso pecado.

“Sin City 2” ficou logo planeado, visando a adaptação de “A Dame to kil for” (é isso que nos chegou às salas na semana passada).

 

Pequemos, senhores.

Sin City - Jaime King - screenshot 1

Realizadores: Robert Rodriguez, Frank Miller e Quentin Tarantino

Argumentista: Frank Miller, a partir das suas graphic novels

Rodriguez é um verdadeiro homem-orquestra. Também assina a música (ao lado de ilustres como John Debney e Graeme Revell), a fotografia e a montagem.

Elenco: Jessica Alba, Devon Aoki, Alexis Bledel, Powers Boothe, Rosario Dawson, Benicio Del Toro, Michael Clarke Duncan, Carla Gugino, Josh Hartnett, Rutger Hauer, Jaime King, Michael Madsen, Frank Miller, Brittany Murphy, Clive Owen, Mickey Rourke, Marley Shelton, Nick Stahl, Elijah Wood, Josh Hartnett, Makenzie Vega, Bruce Willis

 

Orçamento – 40 milhões de Dólares.

Bilheteiras – 74 (USA); 158 (mundiais).

 

Site – http://www.miramax.com/movie/frank-millers-sin-city/

Sin City - screenshot 7

“Melhor Filme de Acção/Aventura/Thriller”, “Melhor Actor Secundário” (Mickey Rourke), “Melhor Lançamento em DVD”, nos Prémios Saturn 2006.

“Prémio Especial”, pela Associação de Críticos de Austin 2006.

“Melhor Música” (para Graeme Revell), nos Prémios BMI 2005.

“Grande Prémio Técnico”, em Cannes 2005. Esteve nomeada para a “Palma De Ouro”.

“Melhor Actor Secundário” (Mickey Rourke), pela Associação de Críticos de Chicago 2006.

“Melhor Caracterização”, no Festival de Hollywood 2005.

“Prémio do Público – Melhor Actor Internacional” (Mickey Rourke), nos Prémios Irlandeses para Cinema e Televisão 2005.

“Performance mais Sexy” (Jessica Alba), nos Prémios Cinema MTV 2006.

“Melhor Actor Secundário” (Mickey Rourke), “Melhor Fotografia”, “Melhor Montagem”, pela Sociedade de Críticos Online 2006.

“Melhor Montagem” e “Melhor Caracterização”, pela Sociedade de Críticos de Phoenix 2005.

“Melhor Cenografia”, pela Sociedade de Críticos de San Diego 2005.

“Filme Mais Original, Inovador e Criativo”, pela Associação de Críticos de St. Louis 2005.

Sin City - screenshot 2

Rodriguez considera que o filme não é uma adaptação, mas sim uma tradução.

John Debney e Graeme Revell foram recomendados por Hans Zimmer. Zimmer tinha sido convocado por Rodriguez, para assinar a música. Zimmer estava já comprometido para “Batman Begins”.

Cameo de Frank Miller – é o padre.

As espadas usadas pelas meninas do terceiro episódio são as mesmas que foram usadas em “Kill Bill – Volume 1”. Tarantino insistiu.

Brittany Murphy aparece nas três histórias. As suas cenas foram filmadas num único dia.

Apesar do guião focar a nudez da sua personagem, Jessica Alba recusou-se a aparecer despida.

Robert Rodriguez compôs um tema musical em “Kill Bill – Volume 2”. Cobrou 1 Dólar. Tarantino disse que retribuiria o favor. Assinou a cena de “Sin City” e cobrou… 1 Dólar.

Todos os efeitos de som foram feitos nos estúdios de Rodriguez, que ficam mesmo em frente à sua casa.

Uma cena entre o Yellow Bastard e Nancy seria tão gráfica e violenta como a equivalente da bd. Rodriguez decidiu atenuar o tom.

Dois carros têm como matrícula “LEV 311”. É uma referência a Lynn Varley, esposa de Miller, cujo aniversário é a 11 de Março.

No episódio “The Big Fat Kill”, o protagonista usa uma táctica que os Espartanos usaram contra os Persas. Tal batalha foi ilustrada em “300”, cuja autoria é de… Frank Miller.

Sin City - screenshot 6

As Graphic Novels

http://www.barnesandnoble.com/s/?series_id=214148

 

Sobre Frank Miller

http://moebiusgraphics.com/

http://frankmillerink.com/

 

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