Planet of the Apes – O Planeta dos Macacos (2001)

IF

O conceito de “Planet of the Apes” é de tal modo fascinante (a nível visual e temático), que Hollywood andava já há muitos anos a tentar levar avante um remake.

Ele surgiu. Cheio de peripécias rocambolescas na sua produção.

E o resultado…

Ressente-se disso. Dando origem a uma (espectacular) “macacada”.

 

Os símios (nomeadamente chimpanzés) são usados como pilotos de testes em missões de reconhecimento espacial, daquelas para onde não convém enviar humanos.

Leo Davidson é um piloto encarregue de treinar um chimpanzé.

O aproximar de uma estranha tempestade espacial, obriga Leo a enviar, contra a sua vontade, Péricles (o dito símio) até ao coração da mesma.

Mas Péricles desaparece e Leo parte no seu resgate.

Atravessada a tempestade, Leo aterra num estranho planeta. Um planeta onde os símios governam e os humanos são escravos.

Leo consegue fugir, resgata alguns humanos e conta com a ajuda de alguns símios que acreditam na co-existência em harmonia.

O General Thade é o líder do planeta e consegue licença para exterminar todos os humanos.

A caça começa, a batalha (final) vai-se dar. Mas o planeta tem um segredo que vai abalar as crenças das duas espécies.

Planet of the Apes - 2001 - screenshot 1

O argumento do filme original é de tal modo rico, que poucas alterações sofre neste remake.

Na verdade, o argumento acaba por ser igual (um astronauta em missão espacial chega àquele planeta, descobre a realidade social, foge, tem ajuda local, uma confrontação final, a descoberta da verdade e o choque que daí surge).

O que há de novo então?

A forma como, aqui e ali, se fazem algumas variações (mais em cenas e momentos, que na dimensão do argumento) – os símios surgem mais cedo; os símios são mais rápidos, ágeis e fortes; os humanos falam; a geografia do planeta é diferente da do filme original; o final é mais próximo daquele que Boulle criou para o livro.

Surgem algumas ideias interessantes – os humanos são prendas dadas a crianças-símias como animais de estimação (embora o ideal é que sejam abandonados quando chegam à adolescência); duvida-se que os humanos tenham alma (há um símio que espreita para dentro de uma boca humana e pergunta se há uma alma ali); os símios a lavarem-se e a desinfectarem-se depois de tocarem num humano; Leo a defender que a inteligência humana torna o Homem perigoso e prejudicial ao mundo; a razão para a criação daquele planeta tem uma suprema ironia sobre o protagonista, jogando com os paradoxos espácio-temporais; há consciência ecológica (fala-se na destruição de florestas, da quase extinção de símios).

Há referência ao filme original – a travessia no deserto, algumas frases (com ligeiras variações), o uso dos espantalhos, o beijo entre os protagonistas, a tentativa de fazer um final com o mesmo poder de impacto e surpresa.

Depois de tudo misturado e provado, fica um argumento que venera o original, mas pouco consegue trazer de novo, limitando-se a fazer pequenas variações, mas que não enriquecem a narrativa. São maiores as intensões que os resultados.

E depois há o dito final. É certo que a razão para a criação do planeta até é original e provoca os maiores e mais apaixonados debates e reflexões sobre os paradoxos do tempo. Mas a cena final peca por ser rápida, precipitada e vazia de lógica, ainda que se elogie a surpresa, que até acaba por ser divertida. E depois ainda há uma interrupção brusca a uma épica batalha, com um momento digno de Série Z, que procura ser uma parábola bíblica, mas só nos leva à gargalhada.

Tal como o filme original, a história também é sobre a tragédia de um homem. Um homem de tal modo obcecado em regressar a casa e abandonar um lugar onde marcou (e pode continuar a marcar) a diferença, acaba por encontrar o seu destino/maldição na descoberta da verdade e no seu comeback.

Planet of the Apes - 2001 - screenshot 3

Apesar da pobreza do argumento, felizmente que isto é um Tim Burton film. Portanto, temos, como é habitual no Cinema do cineasta, um deleite visual em estado de perfeição. A cenografia é do seu amigo Rick Heinrichs, o guarda-roupa é da notável Colleen Atwood, a fotografia do grande Philippe Rousselot (“Constantine”), o make-up vem do genial Rick Baker (“An American Werewolf in London”). Como sempre, a música (bem poderosa) vem do sempre excelente Danny Elfman, eterno colaborador de Burton.

Burton usa todo o seu domínio da técnica cinematográfica para nos mostrar um mundo bizarro, como se fosse um twist aberrante a contos de fadas.

Fiel ao estilo de Burton, há o habitual isolamento social do seu protagonista. Muito interessante é o facto de Leo ter como principal amigo apenas o chimpanzé Péricles (em determinado momento, Leo diz “vou buscar o meu chimpanzé” e “nunca mande um chimpanzé fazer o trabalho de um homem”).

O elenco é excelente, mas com um trabalho desequilibrado. No óptimo, temos Tim Roth a assustar com um odioso personagem, Helena Bonham Carter comove com tanto altruísmo, Paul Giamatti diverte com tanta malandrice. Mas pelo tosco temos Mark Wahlberg com ar de perdido, a fazer uma representação em Bruce Willis style, sempre de respiração ofegante e com um olhar de lado em permanente emergência como se o mal do mundo lhe fosse cair em cima a todo o momento; Estella Warren é bonitinha, mas anda completamente desorientada, como que em busca do caminho para a passerelle mais próxima.

Planet of the Apes - 2001 - screenshot 2

“Planet of the Apes – versão 2001” não é uma mediocridade, mas está longe, anos-luz de distância, do poder do filme original (e até de algumas das sequelas) e do poder que poderia/deveria ter. E bem longe (a galáxias-luz) das obras-primas fantasistas que Burton nos habitua.

No fundo, é uma versão mais actioner, luxuosa e espectacular que o filme original, venerando de tal modo o original, que se esqueceram de fazer algo de novo e fresco, limitando a fazer pequenas adendas em cenas que se repetem do original.

“Planet of the Apes – versão 2001” está no nosso Mercado e já anda a bom preço. Alguns dos mercados europeus já têm também a bom preço a edição de 2 discos, algumas das edições contam com legendas em Português.

 

Realizador: Tim Burton

Argumentistas: William Broyles Jr., Lawrence Konner, Mark Rosenthal, segundo o livro de Pierre Boulle

Elenco: Mark Wahlberg, Helena Bonham Carter, Tim Roth, Michael Clarke Duncan, Paul Giamatti, Estella Warren, Cary-Hiroyuki Tagawa, David Warner, Kris Kristofferson

 

Orçamento – 100 milhões de Dólares.

Receitas – 180 (USA); 362 (mundial).

Planet of the Apes - 2001 - screenshot 4

Trailer

 

Alguém explica o final

 

Planet of the Apes - 2001 - screenshot 5

Nomeado para “Melhor Filme de Ficção Científica”, nos Prémios Saturn 2002. “A.I. – Artificial Intelligence” superou-o.

“Melhor Música (para Danny Elfman), nos Prémios BMI 2002.

“Melhor Artista de Make-Up” (Rick Baker), nos Prémios para Artistas de Make-Up e Caracterização 2002.

“Prémio Especial – Make-Up” (para Rick Baker), pela Sociedade de Críticos de Las Vegas 2002.

Tim Roth esteve nomeado para “Melhor Vilão”, nos Prémios MTV para Cinema 2002. Denzel Washington em “Training Day” foi preferido.

“Pior Remake ou Sequela”, “Pior Actor Secundário”(Charlton Heston), “Pior Actriz Secundária” (Estella Warren), nos Razzie 2002.

Planet of the Apes - 2001 - screenshot 6
Tim Roth recusou participar em “Harry Potter and the Sorcerer`s Stone” para participar no filme de Burton.

O elenco assinou contratos para participação numa sequela (que visava explicar a cena final). Mas tudo ficou cancelado (apesar de ser um sucesso de público, o filme foi arrasado pela crítica).

Mark Wahlberg aceitou participar após cinco minutos de conversa com Tim Burton. Wahlberg recusou o personagem que iria para Matt Damon em “Ocean`s 11”. Wahlberg recusou aparecer vestido de forma semelhante a Charlton Heston no filme original, pois não queria que o público se lembrasse dos seus tempos de modelo de roupa interior masculina.

Cameos de actores do filme original – Charlton Heston (o pai do General Thade) e Linda Harrison (a mulher que vai com Wahlberg, quando são transportados para a cidade).

Terminado o filme, Burton e Helena Bonham Carter iniciaram a sua relação sentimental.

Rick Baker é tão fan do filme original, que chegava a mascarar-se de macaco e a pregar sustos aos espectadores de um drive-in onde o filme era exibido.

Rick Baker - Planet of the Apes - 2001 - backstage 1

Tim Burton afirmou sempre que este filme não seria um remake mas sim um “re-imaginar”.

Burton tem medo de macacos. Por isso, mudou o General Thade de um gorila branco para um chimpanzé, pois Burton acha que um chimpanzé é mais assustador.

Paul Giamatti inspirou-se em W.C. Fields, para a sua interpretação.

No original, Charlton Heston tem a seguinte line – “Take your stinking paws off me, you damned dirty ape!”. Nesta nova versão, Michael Clarke Duncan diz o seguinte a Mark Wahlberg – “Take your stinking hands off me, you damn dirty human!”. No original, Heston diz “Damn you! God damn you all to hell!”. Nesta versão, Heston diz “Damn them! Damn them all to hell!”.

Burton queria criar um personagem semelhante a Cornelius (Roddy McDowell, na saga origina) e queria deixá-lo ao seu amigo Paul Reubens (com quem trabalhou no seu primeiro filme “Pee-Wee`s Big Adventure”).

Queria-se um romance entre o personagem de Wahlberg (humano) e a de Carter (símia), que até visaria uma cena de sexo entre ambos. Mas a Fox (estúdio produtor) rejeitou tal ideia. Burton optou por deixar tudo em estado platónico.

Título do filme durante a produção – “The Visitor”.

Cameo de Rick Baker. Quando os humanos são transportados para a cidade, três macacos são vistos. Baker é o do meio.

O final do filme segue de perto o final do livro de Pierre Boulle.

Um final pensado foi o de Leo chegar à Terra, aterrar no Yankee Stadium e assistir a um jogo de baseball onde os jogadores eram… símios. Tal cena foi sugerida por um executivo da Fox. Na época, o projecto estava nas mãos de Philip Noyce (realizador) e Terry Hayes (argumentista). Hayes entregou o argumento sem essa cena. Como tal, foi despedido. Perante tal, Noyce decidiu sair de cena. Burton ponderou essa cena, mas foi rejeitada por questões de orçamento.

Heston era, na altura, o Presidente da National Rifle Association (uma associação que defende o uso de armas pelo cidadão e a venda liberal de armas). Surgiu o rumor que Wahlberg e Roth, fortes activistas contra a venda liberal de armas nos USA, exigiram (via contrato) passarem o mínimo de tempo na presença de Heston.

Até à chegada de Burton, muitos foram os realizadores convocados. Adan Rifkin, Sam Raimi, Oliver Stone, Phillip Noyce, Chuck Russell, Chris Columbus, Roland Emmerich, Michael Bay, Peter Jackson, James Cameron e os irmãos Albert & Allen Hughes.

  • Rifkin queria fazer uma sequela directa ao filme original e até se propunha, dada a sua experiência no cinema independente, a fazer um filme barato mas com bom aspecto. Inspirado em “Spartacus”, a história mostraria o apogeu do Império dos Macacos, tecendo o seu declínio com uma revolta liderada por um homem (descendente do personagem de Heston). Tom Cruise e Charlie Sheen foram ponderados como protagonista. O título seria “Return to the Planet of the Apes”. A 10 dias do começo da pre-production chegam novos executivos, nascem conflitos criativos e tudo fica cancelado.
  • Peter Jackson entra em cena e com a parceria de Fran Walsh (e sua esposa e habitual co-argumentista) cria uma história passada no Renascimento. Focar-se-iam impérios de humanos e macacos, arte e o choque de inteligência entre ambos. Roddy McDowell iria regressar à saga, mas com um novo personagem. Mas o executivo com que Jackson tem de lidar não é fan da saga e rejeita muitas das ideias. Jackson e Walsh saem de cena e dedicam-se a “Heavenly Creatures”.
  • Oliver Stone entra em cena. Stone prefere ficar como argumentista e executive producer. O argumento visava a descoberta de antigos macacos evoluídos, criando-se assim uma parábola religiosa sobre a evolução. Haveria também viagens no tempo (até ao passado), onde se descobre uma realidade de humanos (atrasados) face a macacos (evoluídos). Os macacos têm um segredo sobre um vírus que pode destruir os humanos, mas um par de cientistas descobre uma mulher (de nome Eva) que pode ser a chave (genética) para a nova evolução humana. Stone convoca Terry Hayes. O Presidente da Fox adora a ideia e já pensa em sequelas, merchandising, séries televisivas e spin-offs. Arnold Schwarzenegger é chamado para protagonista. Para além de Sam Raimi, pensa-se também em Chuck Russell e Phillip Noyce. Noyce é chamado. Stone convoca os serviços de make-up do igualmente genial Stan Winston. Mas novos conflitos criativos surgem entre autores e executivos. Como alguém disse – “Hayes escreve ´The Terminator`, a Fox quer ´The Flintstones`” (???). Um executivo quer transformar o argumento numa comédia (?????) – queria que os símios procurassem quem lhes ensinasse baseball; o viajante do futuro seria o professor deles. Hayes não cumpre os requisitos do executivo e é despedido. Noyce vai embora por solidariedade.
  • Chris Columbus entra em cena. Columbus convoca Sam Hamm para o argumento (ambos estavam ligados a um possível “Fantastic Four”, projecto que nunca arrancou). Procura-se conjugar os elementos da franchise antiga, pegar em ideias do livro de Boulle que tinham ficado de fora, dando uma roupagem moderna. Um símio vem até ao nosso planeta largar um vírus que consegue dizimar a Humanidade. Uma cientista vai até ao planeta de origem para conseguir um antídoto. Descobre um planeta regido por símios, que visam a caça e destruição de humanos. Terminada a missão da cientista, regressa à Terra, mas muito tempo já passou e esta passou a ser um Planeta dos Macacos. Schwarzenegger ainda está em cena, mas a Fox tem problemas com o argumento. Columbus sai de cena.
  • Roland Emmerich é ponderado.
  • James Cameron é chamado para argumentista e produtor. Cameron quer pegar em ideias do filme original e da primeira sequela. Com o sucesso de “Titanic”, Cameron decide tirar “férias”.
  • Jackson volta a ser sondado e tenta-se retomar o seu projecto. Mas Jackson recusa a participação de Schwarzenegger e Cameron, pois receia não ter controlo sobre o filme. Sendo assim, sai de cena. Schwarzie e Cameron idem.
  • Michael Bay é convocado, mas recusa.
  • Apesar do possível cancelamento de “The Lord of the Rings”, Jackson recusa retomar o projecto devido à morte de McDowell.
  • Os Irmãos Hughes entram em cena, mas já estão comprometidos para “From Hell”.
  • William Broyles, Jr. é chamado para o argumento é-lhe oferecido total controlo sobre o trabalho. O argumento chama a atenção de Burton, que vê uma oportunidade de reinventar o conceito e não de refazê-lo. Um novo argumento é feito, mas obriga a um orçamento elevado.
  • Lawrence Konner e Mark Rosenthal entram em cena para uma nova versão do argumento, que conseguisse minimizar custos. O argumento sofre permanentes alterações, mesmo durante as filmagens.
  • Stan Winston estava convocado mas abandona por conflitos criativos. Entra em cena Rick Baker.
  • A Fox quer macacos digitais, Burton quer gente real em prosthetic makeup. Burton ganha.

 

A Fox queria uma sequela. Burton rejeita fazê-la (as filmagens foram um pesadelo para ele). Apesar do sucesso nas bilheteiras, a crítica esmaga o filme. A Fox cancela a sequela e anos depois decide-se pelo reboot/preqela.

E assim chegamos ao (excelente) título de 2011.

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