Madame Bovary (1949)

Madame Bovary - 1949 - Poster 1

 

Jennifer Jones na sua mais perfeita interpretação.

“Madame Bovary” é um clássico incontornável da literatura e Madame Bovary é uma das personagens mais fascinantes do meio.

E é também a personagem perfeita para a screen persona de Jennie.

 

Emma Rouault cresceu na Normandia, com uma excelente educação, que a leva a sonhar com um grande amor de um homem supremo, mas também que lhe permita estar sempre à descoberta de novos prazeres e luxos, fugindo a tudo o que seja rotina.

O Dr. Charles Bovary surge-lhe na vida e nele Emma vê a possibilidade de concretizar o seu sonho.

Mas Charles é um homem simples, modesto, de poucas ambições.

O casamento logo entra na rotina. A vila é pequena e povoada de gente mesquinha e intrometida.

Emma aspira a algo mais. A sua participação na vida social luxuosa de alguns dos habitantes leva-a ser alvo de fascínio e desejo de imensos homens.

Emma sacia a sua fome de prazer e luxo, contraindo dívidas e aventurando-se em permanentes affairs.

Mas Emma procura Vida e Amor. Os homens apenas vêm nela uma tentação.

Madame Bovary - 1949 - screenshot 1

O grande Vincente Minnelli tanto fazia grandiosos musicais (“Gigi”, “An American in Paris”) como magníficos melodramas (“Some Came Running”). Eis mais um caso.

Minnelli faz um “2 em 1”.

Madame Bovary - 1949 - screenshot 2

No prólogo e no epílogo, estamos no campo do filme-tribunal, onde se encena o julgamento de Gustave Flaubert perante a controvérsia do seu livro e a imoralidade da sua protagonista. Flaubert explica-se, ilustrando os comportamentos da sociedade e narra o seu livro pelo ponto de vista que ele considera ser a Verdade.

O centro do filme é mesmo a adaptação cinematográfica de “Madame Bovary”.

Estamos perante um daqueles títulos vintage no campo do romantic melodrama que só Hollywood sabe fazer.

Madame Bovary - 1949 - screenshot 3

Impecável criação de ambientes, num excelente trabalho a nível de guarda-roupa, cenografia e fotografia. Belíssima música (do grande Miklos Rozsa) a traduzir toda a força sentimental da narrativa. Óptimos diálogos, sentidos na emoção e personalidade de quem os “dita”. E, como habitual em Minnelli, irrepreensível trabalho do excelente elenco.

“Madame Bovary” é, afinal, a história de uma mulher que procura os sonhos que sempre teve, que lhe foram inspirados na sua infância (assim justifica, a certo momento, Flaubert), a sua senda pela felicidade, a conquista do amor supremo. É também a luta de uma mulher pelo seu direito a sentir-se viva, mesmo que tal signifique desafiar convenções, morais, regras da sociedade e tudo aquilo o que esta considera como “correcto” e “moral”.

Madame Bovary - 1949 - screenshot 4

OK. Excelentes melodramas sempre existiram e vão continuar a existir.

“Madame Bovary” poderia ser “mais um” neste campo de excelência.

Mas há um “pequeno” detalhe que tudo muda.

Madame Bovary - 1949 - screenshot 6

And here comes Jennie.

Madame Bovary Is Jennie. Jennie Is Madame Bovary.

Estamos perante um daqueles casos raros em que o encontro de uma actriz a uma personagem atinge o sublime, como tendo sido arquitectado por um desígnio superior.

Madame Bovary - 1949 - screenshot 7

Se Emma Bovary tivesse existido, ela seria exactamente, como Jennie a interpreta.

Jennie arrebata-nos permanentemente, com uma sublime interpretação verdadeiramente física e sentimental. Raramente vemos toda a essência corporal e emocional de uma actriz a traduzir tanta vida e tanto sentimento.

Madame Bovary - 1949 - screenshot 8

O rosto

  • Quando é pedida em casamento
  • Quando recebe os convidados em casa
  • A sua chegada ao baile
  • Quando, em pleno baile, vê o seu reflexo num luxuoso espelho
  • Quando dança
  • O desespero quando a filha não lhe reage com o carinho que ela deseja/procura
  • O desespero quando abandonada pelo amante

Madame Bovary - 1949 - screenshot 9

O corpo

  • A sua entrada em cena logo nos deixa “esfomeados” (Jennie está a preparar o pequeno-almoço)
  • Quando decora a casa
  • A forma como reage à disputa de vários homens, durante o baile
  • A forma como tenta o seu decorador

 

A voz

  • Quando analisa (com raiva – atenção também ao rosto) a rotina (da sua vida, do seu casamento, da casa, da povoação)
  • Quando procura a ajuda do seu ex-amante

Madame Bovary - 1949 - screenshot 10

Alguns momentos que ilustram a perfeição da interpretação de Jennie.

Exemplos que atestam a perfeição de Jennie como actriz.

Madame Bovary - 1949 - Poster 4

“Madame Bovary” é Cinema at its best.Desde o virtuosismo técnico, estético e artístico, até à sua força emocional que nos envolve, comove e até convida à reflexão. Mas, acima, de tudo, pelo verdadeiro tour de force de Jennie.

 

Obra-prima total.

Madame Bovary - 1949 - Poster 2

“Madame Bovary” está inédito no nosso mercado. Mas a edição USA (só para quem tiver um leitor multi-region) tem legendas em Português (brasileiro, mas até tem uma legendagem nada idiota), com um excelente nível de qualidade a nível de áudio e vídeo.

Madame Bovary - 1949 - screenshot 11

Com “Madame Bovary”, Gustave Flaubert cria uma mulher “imoral” para analisar e criticar toda a imoralidade e decadência da sociedade (e Flaubert até acaba por ser um visionário face aos nossos dias), escondida atrás de falsas virtudes, faustosos lares, exibição de dignidade e hipócrita moralidade.

Para Flaubert, Emma Bovary é uma condenada pelo tédio da rotina da vida matrimonial e social, pelas regras da sociedade, pela negação de sonhos e aspirações que fujam ao “normal” e “correcto”.

Madame Bovary é uma mulher que procura atingir os seus sonhos, sendo o máximo o de amar e de ser amada. E não será esse o desejo máximo do Ser Humano?

O filme traduz muito bem toda a essência do livro de Flaubert. Desde a qualidade da escrita, à descrição dos ambientes, com o devido empenho dos actores e dos diversos elementos da realização.

Mas tudo isso seria pouco sem a perfeita Madame Bovary.

Jennie consegue sê-la. Num perfeito uso do corpo, do rosto e da voz, Jennie incarna a Madame Bovary conforme Flaubert a escreveu.

Se outros méritos não fossem mostrados por Jennie, antes ou depois deste filme, o seu lugar na História do Cinema e nos nossos corações fica aqui assegurado.

Para amar sempre.

Pois era esse o desejo dela(s).

De Madame Bovary.

E de Jennie.

Madame Bovary - 1949 - screenshot 12

Realizador: Vincente Minnelli

Argumentista: Robert Ardrey, segundo o livro de Gustave Flaubert

Elenco: Jennifer Jones, James Mason, Van Heflin, Louis Jourdan, Christopher Kent, Gene Lockhart, Frank Allenby, Gladys Cooper, Harry Morgan

 

Trailer

 

Quem é Emma Bovary

 

O valsa

(atenção ao perfeito trabalho de câmara e de montagem)

(e muita atenção a Jennie, claro)

 

A música de Miklos Rozsa

Madame Bovary - 1949 - Poster 5

Nomeado para “Melhor Direcção Artística – P&B”, nos Oscars 1950. Perdeu para “The Heiress”.

Madame Bovary - 1949 - Poster 7

A Censura estava muito preocupada com o filme. Desde as insinuações erótico-sexuais até aos momentos amorosos. Como tal, muita coisa teve de ser suavizada e tornada subtil. Um dos truques foi a tal divisão do filme em dois – o filme-tribunal, com Flaubert em julgamento e a explicar a sua obra e a sua personagem; o filme-história, que conta o que Flaubert está a narrar, fazendo com que este filme fosse um sub-filme alusivo à explicação de Flaubert que assim se tornaria no filme principal.

(Confuso? Eu também. Coisas de Hollywood!!!)

Madame Bovary - 1949 - Backstage 1 - Vincente Minnelli, Jennifer Jones, Louis Jourdan

Madame Bovary - 1949 - Backstage 2 - Vincente Minnelli, Louis Jourdan, Jennifer Jones

Vincente Minnelli queria Lana Turner para protagonista, mas ela recusou por achar o argumento chato e superficial (???), mas também porque estava num avançado estado de gravidez.

(ainda bem, pois Lana – e eu também gosto muito dela – não servia para isto; Madame Bovary Is & Had To Be JENNIE)

Madame Bovary - 1949 - Poster 6

Sobre Gustave Flaubert:

https://www.britannica.com/biography/Gustave-Flaubert

http://www.goodreads.com/author/show/1461.Gustave_Flaubert

http://www.online-literature.com/gustave-flaubert/

Madame Bovary - 1949 - screenshot 13

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One comment on “Madame Bovary (1949)

  1. […] Madame Bovary (1949) —  A Grande Ilusão: blog de cinema) […]

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