John Dahl

John Dahl

Dahl começou no final dos anos 80 e revelou-se um nome interessante na abordagem ao film noir (e parte dos seus códigos), sabendo adaptá-los a ambientes western, fazendo aquilo que nos 50`s era denominado de country noir (aliás os Coen também fazem o mesmo, embora com mais cinismo, ironia, humor, sentido crítico e político, aliado a uma encenação clássica). No fundo, Dahl trouxe o prazer de um certo Cinema B, à 40`s e 50`s, que caiu (e cai) bem a alguns cinéfilos.

Muita da sua carreira é à base do noir, depois passou para outros géneros, depois passou para a televisão (o seu nome pode ser visto a realizar muitos episódios das séries “Californication”, “Battlestar Galactica”, “Caprica”, “Homeland”, “Falling Skies”, “Dexter”, “Hannibal”, “Justiified”).

A sua carreira começa com uma trilogia de eleição. Aparentemente semelhantes, talvez complementares, certamente notáveis. Triângulo clássico (anti-herói, mulher fatal, o vilão), dinheiro, traições, lealdades, valores, éticas, surpresas, paixões, reviravoltas, castigos.

Deixo aqui uma visita à sua muito interessante filmografia.

Kill Me Again - Poster 1

Kill Me Again – Mata-me Outra Vez (1989)

(também referido como Dinheiro Sujo)

Um detective (muito bom Val Kilmer) com um passado algo obscuro, mas de grande integridade profissional, é contratado por uma fascinante mulher (adorável Joanne Whalley-Kilmer, ainda casada com Val, que nunca teve o aproveitamento da indústria que merecia) para que a “mate”. Ela quer fugir do seu violento ex (um perfeito Michael Madsen). Contudo, nem tudo corre como se queria e nem tudo é como parecia.

Fantástica homenagem ao clássico film noir, agora em ambiente country-western, com tudo muito bem combinado, argumento engenhoso e cheio de surpresas. A Série B ao seu melhor.

Uma pequena pérola.

Trailer – http://www.youtube.com/watch?v=1YLrPR06Spg

Red Rock West - Poster 3

Red Rock West – Delito em Red Rock West (1993)

À partida, parece uma variante de “Kill Me Again”.

Um homem (sólido Nicolas Cage), desempregado e sem dinheiro, mas honesto, é, à chegada a uma povoação, confundido com um assassino. Fiel aos seus valores, avisa a “vítima” (sedutora Lara Flynn Boyle). Mas, o acaso/destino encarrega-se de juntar o protagonista ao assassino (tenebroso Dennis Hopper). Depois é só reviravoltas à volta de quem é quem e quais as suas motivações.

Mais um perfeito exemplo do country noir B, perfeitamente filiado na tradição do género. Notável a forma com Dahl trata o espaço (a povoação de Red Rocck West), a nível visual e de argumento, como um local labiríntico do qual não se consegue sair (aliás, é com cada tentativa de fuga, que protagonista e espectador descobrem mais uma personagem e mais uma reviravolta).

Outra pérola.

Trailer – http://www.youtube.com/watch?v=TyTP99iyMEM

The Last Seduction - Poster 1

The Last Seduction – A Última Seducão (1994)

E assim se fecha uma notável trilogia.

Linda Fiorentino a compor a femme fatale mais fatal do film noir contemporâneo (desde a vulcânica Mattie Walker/Kathleen Turner de “Body Heat – Noites Escaldantes”, claro).

Uma mulher rouba o seu marido, ao fugir com o dinheiro de uma golpada conjunta. Numa nova cidade, com nova identidade e um emprego respeitável, ela não vai deixar de dar golpadas e seduzir/manipular todo o moçoilo que lhe apareça pela frente. Mas o marido não pára de andar no seu encalço.

Sublime exemplar do género. Fiorentino é perfeita (aliás, chegou a ganhar diversos prémios, ponderando-se a sua nomeação ao Oscar – algo que ficou cancelado, pois o filme foi primeiro exibido na televisão por cabo e as regras da Academia obrigam a que os títulos em nomeação sejam inicialmente estreados nas salas). A envolvência e fascínio atingem (também) o espectador. O argumento é arguto.

Um pequeno clássico. Mais uma pérola.

A Amazon UK tem uma edição com 2 discos e um Director`s Cut. Imperdível, portanto.

Trailer – http://www.youtube.com/watch?v=gvJFgixTAxM

Unforgettable - Poster 1

Unforgettable – Inesquecível (1996)

Depois de uma fabulosa trilogia, as expectativas eram grandes. Até porque trazia novamente Linda Fiorentino.

Um homem é (injustamente) acusado pelo homicídio da sua esposa. Disposto a provar a sua inocência, descobre uma médica que está a fazer avanços num soro que permite “injectar” a memória de outra pessoa, através do DNA. O protagonista resolve injectar a memória da sua falecida esposa a assim ficar a saber a verdade. Mas…

Estamos perante um thriller rotineiro e eficaz, que remete para o melhor do género nos 40`s e 50`s, de Série B (e isto não é um insulto, pois sou grande fã de Série B, onde existem muitas pérolas cinematográficas – vejam-se trabalhos de Jacques Tourneur, Budd Boeticher, Edgar G. Ulmer).

Mas perante os trabalhos anteriores de Dahl, fica-se com a sensação de um filme mediano.

Trailer – http://www.reelz.com/trailer-clips/27702/unforgettable-trailer/

Rounders - Poster 1

Rounders – A Vida é Um Jogo (1998)

Dahl muda de registo, agora mais próximo do melodrama, aqui e ali com laivos de noir.

O filme acompanha dois viciados em jogo (de cartas) e as consequências.

Bom elenco (com boas interpretações de Matt Damon e Edward Norton), um argumento que visa mais a psique do jogador e a forma como o jogo pode ser uma droga (algo que Sam Peckinah queria fazer em “The Cincinnati Kid”). Aqui e ali, Dahl dá contornos de thriller e o resultado é muito satisfatório.

Trailer – http://www.youtube.com/watch?v=cTHu51piSt4

 

Roadkill - Poster 3

Roadkill (também conhecido por “Joyride”) – Não Brinques Com Estranhos (2001)

Pelo argumento passa o nome de J.J. Abrams (“Super 8”, “Star Trek”). Mas não é isso que importa.

Dois irmãos (um já com curriculum penal) fazem-se à estrada. O objectivo é a reunião entre ambos, com o mais novo a aproveitar a viagem para se encontrar com a sua amada. Na viagem, fazem uma brincadeira, via rádio-amador, com um camionista desejoso de fêmea. As coisas correm para o torto e o grupo vê-se perseguido pela “vítima” que parece ter controlo sobre tudo.

O argumento é puro ouro. Começa como drama familiar, anda pelo road-movie humorístico e depois “descontrola-se” pelo psycho-thriller com um suspense de cortar e roer tudo. Mas muito mérito fica em Dahl que cria um conjunto de set pieces que arrasam com os nervos do espectador mais veterano ou viciado nestas coisas (atenção à perseguição no matagal e a insustentável cena final). Muito bom trabalho do elenco (Paul Walker, Steve Zahn e Lellie Zabieski – menina capaz, de beleza rara, de quem se chegou a falar como “a nova Jodie Foster”).

Atenção às edições DVD. É que há uma (foi essa que saiu em Portugal, igual à que há nos USA, Inglaterra e Espanha) que traz 5 finais alternativos (todos notáveis e com igual poder de impacto; há um que se inicia numa sequência a meio do filme e leva-o numa outra direcção; o filme pode ser visto com o final que se quiser, mas cada final pode ser visto de forma autónoma).

Não é uma joyride, mas uma verdadeira killride.

Trailer – http://www.youtube.com/watch?v=_GqrNeTfb5w

Roadkill 2 - Poster 1

Chegou a ter uma nada desprezável sequela – “Roadkill/Joyride 2 – Dead Ahead”). Eficaz, com um ou outro momento de susto bem conseguido, mas faz ênfase no explícito onde o primeiro era subtil – a violência. Não desmerece a visão. Não posso contar muito sobre o argumento, senão dou indícios sobre como termina o primeiro filme. Esta sequela não conta com a participação de Dahl ou do elenco do filme original (mas isto não é um spoiler).

Trailer – http://www.youtube.com/watch?v=YZXdwThrz_o

(a ver por quem conhece o filme original, senão sabem-se coisas sobre o final do primeiro filme)

The Great Raid - Poster 1

The Great Raid – O Resgate dos Soldados-Fantasma (2005)

O título português remete para “Saving Private Ryan”. O filme aproveita o impacto/entusiasmo que o filme de Spielberg causou, mas a comparação fica por aí.

O filme retrata a mais ousada operação de resgate de soldados, alguma vez registada na História militar. Estamos em conflito com o Japão e um comando de elite vai resgatar 500 soldados.

Como já tinha mostrado nos filmes anteriores, Dahl filia-se mais nos filmes B dos 40`s e 50`s. Aqui volta a seguir a mesma regra. O resultado é de grande eficácia e poder de entretenimento, falhando (ligeiramente) na abordagem da componente humana e realística da guerra. Mas não é um título falhado, tendo em conta os seus objectivos.

Trailer – http://www.youtube.com/watch?v=oIEn0x3r-N0

You Kill Me - Poster 2

You Kill Me – Tu Mastas-me (2007)

É, até ao momento, a última longa-metragem de Dahl.

Comédia, romance, o mundo da máfia e dos alcoólicos anónimos.

Frank é um assassino por contrato. Mas ultimamente todos os seus trabalhos têm falhado devido ao seu vício do álcool. Enviado para outra cidade, Frank procura a cura num grupo de alcoólicos anónimos. O esforço vai compensando, até arranja emprego (a “embelezar” cadáveres para os velórios) e conhece a Laurel, uma mulher algo desiludida com a vida. O romance surge, mas Frank ainda tem uma derradeira missão para completar. Já estará apto. E como é que Laurel vai reagir à profissão de Frank?

Dahl dirige com eficácia, ainda que num género que não é o seu. Há simpatia nas interpretações (Ben Kingsley é comovente e divertido) e o argumento nunca perde a dimensão humana, ao passear bem pelo humor (as crises de Frank), pelo drama (a relação entre Frank e Laurel) e pelo mundo criminal (o assédio que o patrão de Frank sofre por um violento rival).

Longe das virtudes de muitos dos seus títulos anteriores, Dahl assina um título de grande simpatia.

Trailer – http://www.youtube.com/watch?v=lW-yEUdtdJo

 

No mercado português, penso que só a partir de “Rounders” é que se encontram os títulos de Dahl. A sua fase inicial está ausente. Quase todos já andam em preço pechincha (e alguns até já estão descontinuados, pelo que será uma aventura encontrá-los). Os outros há que recorrer a outros mercados (apanhei alguns, a bom preço, via Amazon).

John Dahl – uma revisita moderna ao film noir, que merece descoberta.

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