Andrew Niccol

Andrew Niccol - 2

O recentemente estreado “The Host” (já aqui abordado) devolve ao contacto cinéfilo um dos mais originais, criativos e talentosos argumentistas e realizadores da actualidade – Andrew Niccol.

Niccol é um neo-zelandês formado na publicidade, cujo peso máximo no seu curriculum continua a ser o argumento de “The Truman Show”.

Niccol assina os argumentos de todos os seus filmes como realizador.

Estamos perante um realizador muito meticuloso no aspecto visual dos filmes (o empenho nos planos) e cuidado nos elementos técnicos (a simplicidade e eficácia dos efeitos visuais, a o rigor arquitectónico dos sets, o brilho e definição da fotografia, a elegância do guarda-roupa), mas também capaz de criar argumentos de enorme interesse e susceptíveis de fazer o espectador reflectir sobre uma série de questões do mundo moderno (ainda que grande parte dos argumentos se passem em ambientes de sci-fi).

Niccol fala permanente do indivíduo, da sua essência e existência face ao meio, humano, técnico, social e político, nunca “moralizando”, deixando todas as reflexões para o espectador.

A filmografia de Niccol é curta, mas muito notável.

Gattaca (1997)

Gattaca - Poster 1

É o primeiro filme de Niccol como realizador.

Futuro (próximo?). A genética consegue criar o ser humano perfeito. Gravidez “normal” já não é necessária, pois pode acarretar defeitos no feto. A medicina pode criar o filho/filha que se deseja, imune a tudo o que é doença, com aptidão para o que se quer.

Vincent nasceu pelo velho método e por isso é “imperfeito”. O seu maior sonho é viajar no espaço, mas os defeitos impedem-no. Contudo, com a ajuda de Jerome, um ser perfeito (geneticamente), mas preso a uma cadeira de rodas, Vincent vai aldrabar o sistema através da genética de Jerome. Agora que é um técnico de navegação, o sonho de Vincent está mais próximo. Até que um homicídio o torna no principal suspeito.

Muitos dos elementos característicos do cinema de Niccol e da sua forma de o criar já estão aqui presentes. Mais do que um (excelente e inteligente) filme sci-fi, “Gattaca” é um filme sobre a essência do espírito humano e a forma como este derrota todo o “desígnio” criado pela ciência.

Muito capazes Ethan Hawke e Uma Thurman (que parece mesmo uma deusa vinda de outro mundo), acompanhados por um promissor Jude Law em início de carreira.

Sci-fi como deve ser – séria, premonitória, pensadora.

A (re)descobrir, pois não recebeu a devida atenção.

Facebook – https://www.facebook.com/GattacaMovie

Trailer

The Truman Show (1998)

The Truman Show - Poster 1

Aqui acompanhamos a transmissão 24/7 de um reality show dedicado a um indivíduo chamado Truman Burbank. Só ele é verdadeiro (Truman rima com true man), tudo o resto é uma ilusão teatral/televisiva/cinematográfica.

Quando Truman começa a desconfiar que tudo à sua volta é falso e construído de propósito para manipular as suas emoções e acções, Truman procura a fuga.

O argumento de Niccol era mais carregado na componente sci-fi e até mais negro, mas Peter Weir fez algumas alterações.

E o filme só ganhou. Misto de comédia, sci-fi, suspense, thriller paranóico e conspirativo, o filme de Weir é um objecto de cinema absolutamente único, original e magistral.

Para além de funcionar (muito) bem em todos os géneros por onde passa, “The Truman Show” perturba pela forma como os media modernos conseguem manipular as vidas humanas, conseguindo ser também uma parábola sobre a relação Criador-Criação.

Como sempre em Weir, perfeição em todos os aspectos técnicos (a fotografia, cenografia e guarda-roupa são de uma enorme riqueza) e nas interpretações (Jim Carrey, até então visto como um clown – herdeiro do melhor de Jerry Lewis -, tem aqui uma valente interpretação, mostrando todo o seu enorme e vasto talento – que confirmaria nos excelentes “Man on the Moon” e “The Majestic”; Ed Harris é simplesmente soberbo como um “deus” televisivo).

Facebook – https://www.facebook.com/TheTrumanShowMovie

Trailer

Simone (2002)

Simone - Poster 1

Eis uma bela parábola sobre a Hollywood moderna.

Um realizador, sem visibilidade na indústria e farto de aturar birras de vedetas, cria uma super-estrela. Simone é uma actriz linda, perfeita e sublime na forma de representar. Toda a sociedade hollywoodesca a quer conhecer, mas o realizador protege-a, afirmando que e estrela pretende usufruir a privacidade. Para o realizador, é também uma viagem ao estrelato que sempre ambicionou.

Só que…

Simone não é uma actriz real, mas sim um programa de computador. E quando a criação supera o criador, este tenta por tudo livrar-se dela. Mas Simone parecer ter uma vida própria e autónoma.

Com (muito) humor, Niccol faz uma parábola sobre o estado (dependência?) do cinema moderno face à tecnologia digital. Mas é também um belo relato humano sobre um homem que luta pela visibilidade da sua obra, com a grande ironia que só a consegue através de algo “invisível”.

Um fabuloso Al Pacino face a uma deslumbrante Rachel Roberts (sim, a criação virtual vem de uma menina real – é ela a Mrs. Niccol; casariam depois deste filme).

Trailer

http://www.youtube.com/watch?v=salcZxwspxg

The Terminal (2004)

The Terminal - Poster 1

Niccol ficou-se apenas pela história. O argumento final coube a outros e Spielberg realiza.

Num terminal de aeroporto chega um homem de um país, algures na Europa de Leste. O problema é que uma revolução no seu país fez com que este deixasse de existir oficialmente. Até tudo ficar resolvido, o homem tem de ficar “preso” no aeroporto. Mas dada a sua fácil capacidade de socialização e empreendedora, o “refugiado” vai fazer nova e sólidas amizades, mudar as coisas, ajudar vidas e até fazer daquele lugar o seu novo lar.

Passa por aqui muito do lirismo humano que emanava das obras de Frank Capra. Com humor e simplicidade, Spielberg dá-nos uma rica parábola humana sobre as capacidades do ser humano e um tributo às (boas) relações.

Só se lamenta que Tom Hanks deixe escorregar a sua interpretação, num e noutro momento, para um tom patético irritante.

(Jim Carrey deveria estar ocupado)

Trailer

Lord of War (2005)

Lord of War - Poster 1

Começamos com um dos mais originais, e com maior poder de impacto, genéricos de abertura de há memória – o ciclo de vida de uma bala.

O filme acompanha o percurso de vida de um traficante de armas, desde as suas origens humildes até ao poder supremo, que o liga a grandes líderes mundiais.

Poderosíssimo filme, que tanto se vê como um inteligente thriller, uma “reportagem” sobre o mundo do tráfico de armas, ou mesmo uma tragédia humana e familiar. Niccol não mostra a sua opinião sobre o que descreve, limita-se a ilustrar, com muito humor, ironia e cinismo, uma realidade e deixa os comentários ao espectador.

Reencontro com Ethan Hawke (numa curta mas importante presença). Jared Leto a mostrar que pode ser merecedor de atenção. Bridget Moynahan cativa (e muito) o olho. Mas o filme é totalmente dominado por um imenso Nicolas Cage, a dar provas que quando quer é mesmo dos melhores.

Site – http://www.lordofwarthemovie.com/

Trailer

In Time (2011)

In Time - Poster 4

O primeiro (ligeiro) tropeção de Niccol.

Niccol de volta à sci-fi (“Lord of War” era um thriller contemporâneo), num título que quase parece uma sequela/prolongamento de “Gattaca” – neste, a sociedade dividia-se entre “ricos” e “pobres” (do ponto de vista genético); neste novo filme a separação de classes mede-se no tempo de vida que têm.

“In Time” é um filme cheio de boas ideias (fantástica a ideia do tempo ser uma moeda, a da Igreja dar tempo como “esmola” aos mais necessitados, as cidades divididas em zonas dos que têm mais e menos tempo), de visual vistoso (gente gira, guarda-roupa elegante, cenários de luxo, fotografia de cores vivas), dinâmico (há perseguições, lutas e tiroteios), divertido (o humor é muito irónico), com o argumento a servir como excelente parábola sobre os nossos dias.

Mas…

Deixa a sensação que “In Time” é o trabalho mais pop de Niccol. Talvez forçado pelo orçamento (40 milhões de Dólares) ou pelo facto de ser “patrocinado” por um grande estúdio (a Fox), Niccol fez um filme acessível, rápido e de bom poder de entretenimento (“Gattaca” é mais frio e “lento”).

Nada de mal nisso, mas fica-se com a sensação que se passou ao lado de um filme verdadeiramente perturbante. Talvez com um Director`s Cut ou mesmo com uma série televisiva se desse mais desenvolvimento a algumas questões e eventos. Ou se tivéssemos Peter Weir a realizar…

O elenco cumpre, mas há erros de casting. Justin Timberlake carece da profundidade emocional, da raiva e da destreza física que a personagem requer (Tobey Maguire ou Topher Grace fariam melhor). Amanda Seyfried cativa (e muito) com o seu novo penteado, mas é algo supérflua na rebeldia e carência afectiva que afecta a sua personagem (Natalie Portman, Jennifer Lawrence ou Keira Knighley seriam mais adequadas). O sempre excelente Cillian Murphy (este estupendo actor ainda tem estado subestimado pela indústria) mete o filme no bolso.

“In Time” não desmerece a visão, não é um passo atrás na carreira de Niccol, mas um pequeno passo em falso.

Site – http://www.intimecasino.com/

Trailer

Toda a filmografia de Niccol (como argumentista de terceiros e como realizador) está editada no nosso país e já se apanham muitos títulos a bom preço.

Descubram este muito interessante autor de cinema.

Alex Aranda

Anúncios

One comment on “Andrew Niccol

  1. […] aqui mostrei o meu apreço por Andrew Niccol. Este seu novo filme só o […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s