Estreia – Ladrões com Estilo

Gambit - Poster 1

Realizador: Michael Hoffman

Elenco: Colin Firth, Cameron Diaz, Alan Rickman, Stanley Tucci

Género: Comédia

Duração: 89 Minutos

Trailer – 

Remake de “Gambit”, uma deliciosa comédia (em tom de heist movie) dos 60s, já um clássico.

Um perito em análise de arte procura vingar-se do seu (avarento e arrogante) patrão. Para tal, e com a ajuda de um hábil falsário, procura a cumplicidade de uma cowgirl para seduzir o magnate. E muitas serão as complicações.

Excelente elenco.

Michael Hoffman é o realizador do muito simpático “A Midsummer Night’s Dream”.

O argumento é dos Irmãos Coen (“Raising Arizona”, “The Big Lebowski”, “Fargo”, “No Country for Old Men”).

A versão de 1966 conta as aventuras de dois vigaristas do mundo da arte, que convencem uma exótica dançarina a participar na execução dum audacioso e impecavelmente planeado roubo, a um dos homens mais ricos do mundo, com uma abastada colecção de arte. Mas tudo se complica, nada corre como planeado e a menina, que julgavam ser ingénua, revela-se “melhor que a encomenda”.

É uma deliciosa comédia em tom de heist movie, cheia de humor, engenho, suspense e muitas surpresas. Ronald Neame tem aqui um dos seus melhores momentos como realizador, filmando com eficácia e o sentido de elegância adequada à época, sabendo aproveitar o exotismo do local da acção (no Médio-Oriente – ainda que tudo recriado em estúdio). Michael Caine com toda e sóbria e irónica elegância dos seus golden days, acompanhado por uma perfeita Shirley MacLaine, com aquele seu toque de charme e inocência que só ela sabia. Herbert Lom dá aquele ar severo e poderoso, que tantas vezes soube tão bem criar. O argumento traz um prodigioso twist que vai deixar todos de queixo caído, mesmo os mais experientes. Quem o conhece, nada deve falar sobre ele. Acrescente-se, para ainda maior expectativa, que a dita reviravolta não surge onde é habitual. Os argumentistas divertem-se de tal modo com tal, que ainda reservam mais duas surpresas.

Na época, a publicidade pedia para se contar o final (por ser tão hilariante), mas pedia o favor de não se contar o princípio. Eu fico em silêncio sobre ambos.

Muito bom exemplar do género, que divide as suas mais-valias entre os protagonistas e o argumento.

Firth sabe (como poucos) fazer da seriedade uma arma de humor, e aqui dá mais uma prova disso (e nunca perde a compostura, mesmo quando fica, por muitos minutos, em boxers). Diaz dá-nos a sua habitual simpatia e energia (ela é bem melhor actriz do que se pensa). Rickman transmite toda aquela elegante e erudita vilania que só ele tem grande savoir-faire (não esqueçamos que Rickman é o inesquecível vilão de “Die Hard”, que ainda é um modelo de vilão).

Os Coen elaboram um argumento muito divertido, talvez menos engenhoso e rico em peripécias que o argumento do filme original, mas compensado pela excentricidade de personagens que os manos tão bem sabem criar, fazendo com que muito do humor venha da confrontação das personalidades dos personagens intervenientes.

Fiel ao original, o filme tem o seu twist e os Coen até o homenageiam (muitíssimo bem). Mas mantêm a brincadeira e dão-nos mais dois twists quando julgávamos que não haveria lugar para eles (também em sintonia com o original, respeitando até o momento da narrativa onde surgem).

Hoffman filma com eficácia e elegância e não se inibe de brincar com a comédia sofisticada clássica (a fabulosa cena no hotel, com todos os equívocos que surgem, recorda os melhores momentos das comédias de Blake Edwards).

Aqui não há falsificação – “The Gambit” é diversão genuína

Gambit-UK-Poster

Gambit é uma expressão usada em xadrez para designar o sacrifício de um peão.

Michael Hoffman sempre quis Colin Firth como protagonista, mas receava que Firth recusasse devido ao Oscar por “The King`s Speech”. Na verdade, Firth estava de tal modo cansado de três filmes sérios (“A Single Man”, “The King`s Speech” e “Tinker, Tailor, Soldier, Spy”) que procurava um projecto mais leve, no qual se divertisse e parodiasse a sua imagem.

Os Coen já tinham este projecto desde 2002. Na altura pensaram em Hugh Grant como protagonista.

Cada filme vale por si e deve ser analisado assim.

Mas quando se fala de original e remake, é óbvio que as comparações são inevitáveis. Sendo assim, vamos por partes.

– Os actores:

Michael Caine vs. Colin Firth. Firth sabe usar a seriedade para o humor, mas Caine tem uma mestria na sua sobriedade e sabe como colocar uma elegante ironia. São dois (notáveis) actores com diferentes (e igualmente notáveis) estilos de representação, mas para este tipo de filme, Caine ainda é o “Sir”.

Shirley MacLaine vs. Cameron Diaz. Diaz é sempre simpática e cativante, mas MacLaine tinha uma inocente malícia que poucas a superam.

Herbert Lom vs. Alan Rickman. Lom é um excelente actor e sai-se muito bem, mas Rickman entrega toda aquela suprema e erudita vilanagem como poucos actores sabem.

– Argumento:

Ambos têm os seus méritos, mas se os Coen investem nos personagens e nas suas peculiaridades, o argumento original de Jack Davies e Alvin Sargent (futuro autor de “Paper Moon” e de todos os recentes “Spider-Man”) é mais rico em peripécias. Um empate é justo.

Resultado – vitória da versão de 1966. O filme de Ronald Neame beneficia do facto de ser feito na era dourada para este género e numa época cheia de estilo (quer no áudio-visual, quer na everyday life). A nova versão surge como mais um (bom) filme de género, aqui e ali com ares de “démodé”. Por isso, é correcto considerar-se o original como superior ao remake, apesar dos (muitos) méritos que este tem.

Alex Aranda

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s